
História das Religiões: um serviço cívico?
Quando, há seis anos, Régis Debray, académico francês, entregava a Jack Lang o relatório ao ministro da Educação Nacional com o título sugestivo O Ensino do Fenómeno Religioso na Escola Laica, tudo apontava para um cada vez mais correcto diagnóstico de um grave problema das sociedades contemporâneas: o desconhecimento sobre o mundo das religiões.
No prefácio à edição que na altura foi dada ao prelo (L’Énseignement du Fait religieux dans l’Ecole Laïque: Rapport au ministre de l’Éducation nationale, Odile Jacob, 2002), Jack Lang afirmava de forma lúcida: “Uma escola autêntica e serenamente laica deve proporcionar a todos os alunos o acesso á compreensão do mundo [...] No respeito pela laicidade [...] Sem privilegiar, evidentemente, esta ou aquela opção espiritual, evitando deliberadamente qualquer ensino religioso, os professores devem abordar as religiões como elementos marcantes e, em grande medida, estruturantes da história da humanidade, umas vezes como factores de paz e de modernidade, outras vezes como factores de discórdia, de conflitos mortíferos e de regressão”.
Debray, fazendo a radiografia à situação, afirmava nas primeiras páginas do seu relatório: “É o desvirtuamento, o empobrecimento do quotidiano circundante, a partir do momento em que os dias feriados, as férias da Páscoa e o ano sabático não passam de um acaso do calendário. É a angústia de um desmembramento comunitário das solidariedades cívicas, o que contribui bastante para a nossa ignorância do passado e das crenças do outro, a transbordar de estereótipos e preconceitos”.
Ora, as palavras destes dois prestigiados intelectuais franceses aplicam-se, na íntegra, ao caso português. O desconhecimento actual sobre o mundo das religiões é alarmante e, acima de tudo, perigoso.
Num recente projecto levado a cabo pela área de Ciência das Religiões na Universidade Lusófona, vimos como apenas 21 por cento dos inquiridos sabiam que o Islão é uma religião monoteísta e só 20 por centro sabiam que Meca é a sua principal Cidade Santa. Apenas 42 por cento dos inquiridos souberam identificar o feriado da Páscoa...
Neste momento há a noção, generalizada, de que o conhecimento sobre o universo das religiões não é apenas um manancial de curiosidades que se podem usar em jogo de salão. Conhecer as religiões é poder participar no mundo onde, como se verifica diariamente, as religiões desempenham um papel da maior importância.
E isto é válido para religiosos e não-religiosos. O mundo em que todos vivemos é o mesmo.
Assim, é de não perder a oportunidade única que se criou neste final de Junho em que vimos um grupo de figuras públicas, começando pelo dr. Mário Soares, presidente da Comissão da Liberdade Religiosa, afirmar a necessidade de colocar conteúdos sobre religião no ensino secundário.
Já vários países fizeram esse caminho. Muitos dos nossos parceiros europeus, e mesmo o Brasil, já avançaram na criação de uma disciplina nesta área.
Que a coragem política decida a favor de uma arma de conhecimento que nos dará, decerto, muita mais coragem cívica.
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Paulo Mendes Pinto
Director da Licenciatura em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona
in Público, 03.07.2008
04.07.2008
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