
Histórias inquietas
"E depois continuou, um pouco mais alto:
- Não existe pior inimigo nem melhor amigo do que um irmão, Tuan, pois um irmão conhece o outro e no conhecimento perfeito reside a potência do bem ou do mal. Amava o meu irmão. Fui ter com ele e disse-lhe que só podia ver um rosto, ouvir uma voz. Ele disse-me: - «Abre o teu coração de modo a ela poder ver o que há nele. E espera. A paciência é sabedoria. Inch Midah pode morrer e o nosso Rajá pode vencer o medo que tem duma mulher!» - ... Eu esperei!... Lembras-te, Tuan, da mulher do rosto coberto por um véu e do medo que o nosso Rajá tinha da astúcia e da cólera dela. E se ela quisesse a sua serva, que podia eu fazer? Mas alimentei a fome do meu coração com olhares rápidos e palavras furtivas. De dia, demorava-me no carreiro que leva aos banhos e quando o sol se punha por detrás da floresta, rastejava ao longo das sebes de jasmim do pátio de honra das mulheres. Sem nos vermos, falávamos um com o outro através do perfume das flores, através da cortina das folhas, através das lâminas da erva alta que nem o sopro dos nossos lábios agitava; tão grande era a nossa prudência, tão ténue era o murmúrio do nosso imenso desejo. O tempo passava, rápido... e as mulheres segredavam... e os nossos inimigos vigiavam... o meu irmão andava sombrio e eu começava a pensar em matar e em morrer em combate... Nós somos um povo que, aquilo que quer, toma-o - como vós, brancos. Há um momento em que um homem deve esquecer a lealdade e o respeito. O poder e a autoridade são dados aos chefes mas a todos os homens é dado o amor e a força e a coragem. O meu irmão disse: - «Rapta-a do meio delas. Nós somos dois que são como um só.» - E eu respondi: - «Então que seja cedo, pois o sol não me aquece se não brilhar sobre ela.»"
Joseph Conrad
in Histórias Inquietas, Assírio & Alvim, 2002
Luís Miguel Dias
06.06.2008
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