
A Igreja, a cultura e os bens culturais
Para a Igreja, os seus bens culturais têm um carácter, primariamente, religioso. Ele é, com efeito, um instrumento necessário, e mesmo indispensável, ao exercício da sua tríplice missão.
Pela sua acção, na realização das suas específicas finalidades, a Igreja cria cultura. Assim é, com efeito, quando evangeliza, quando presta culto a Deus, quando actua no mundo, transformando-o, segundo a lei da caridade evangélica. O seu património cultural é, por isso, e sê-lo-á sempre, o testemunho inequívoco e eloquente do que a Igreja é e faz, e assim deve ser lido, compreendido, respeitado e reconhecido. Pelo conhecimento, pelo respeito e pela convivência com a sua herança cultural, impregnada pela Fé e Espiritualidade cristãs, a Igreja mantém viva a fonte da sua criação artística e, por isso, é capaz não só de propor critérios, mas de inspirar artistas e motivar talentos.
Nesse sentido, por esse motivo e nesse contexto, o património da Igreja é também património cultural de uma comunidade, de um país, da humanidade. Por isso, afecta quer a Igreja, quer a sociedade civil: a comunidade cristã, os cidadãos, em geral, e o turismo, em particular.
A comunidade cristã. A ela, primária e mais directamente, se destina, nela encontra a sua mais plena compreensão, dela espera a sua melhor salvaguarda e nela atinge a sua perfeita função. Aí, se descobre o valor e o significado dos edifícios sagrados que frequenta, das imagens que contempla e, diante das quais, reza, dos objectos e utensílios que usa na liturgia, dos símbolos, festas, usos e costumes que envolvem a sua vida.
A sociedade, em geral. Este legado cultural, não é exclusivo, mas está aberto a toda a sociedade dos homens. Lugar de acolhimento e de recolhimento, de culto e cultura, de inculturação da Fé, de difusão cultural para o integral desenvolvimento da humanidade, de atracção humanizadora, de fortalecimento espiritual, enfim, espaço privilegiado de diálogo entre a Fé e a cultura de cada tempo. Desse modo, os bens culturais da Igreja constituem um instrumento ímpar da “nova evangelização”.
O turismo. Cada vez mais, o turismo se apresenta como destinatário importante do património religioso. O homem moderno move-se, busca algo, talvez não saiba o quê… Algo diferente, sobretudo belo: uma paisagem, um lugar tranquilo, um acontecimento invulgar ou festivo, frequentemente, um monumento ou um museu, mas sobretudo uma igreja. Talvez, com uma condição: um bom acolhimento. Igrejas abertas, mas não abandonadas, acolhedoras que, pelo silêncio e pelo asseio, pela arranjo e pela disposição, pela espiritualidade e pela arte, lhe deixem impressa uma boa imagem. Igrejas falantes.
O património cultural da Igreja é uma escola viva. Escola de Fé e de Cultura. O Mistério Inacessível incarnou, tomou forma (Verbum caro factum est) e veio até nós. A Igreja anuncia-o e celebra-o, não como ideia abstracta, mas como Palavra incarnada, nas mais sublimes expressões literárias, musicais, pictóricas, escultóricas, arquitectónicas, etc. O recurso às artes nunca foi para a Igreja algo de supérfluo, mas uma exigência intrínseca do mistério a anunciar e a celebrar. As formas artísticas, por seu turno, são educadoras da sensibilidade, da alma humana, abrindo-a não só à fruição da beleza, o que já não é pouco, mas à contemplação do Mistério. Um melhor conhecimento e um mais frequente convívio com os bens culturais educam a sensibilidade do povo, produzindo benéficos efeitos no desenvolvimento integral do homem e na convivência social.
Impõe-se, por tudo isto, é desejável e mesmo inevitável um diálogo consciente e leal entre as instituições com responsabilidade nas políticas de salvaguarda, valorização, conservação e divulgação dos bens culturais: o Estado e as autoridades religiosas, as universidades, as escolas, as associações, e as outras entidades, públicas e privadas, que aceitem o desafio de desenvolver actividades e partilhar experiências que possam contribuir para a salvaguarda e valorização do Património Religioso e dos Espaços Sagrados
S.D.L.
05.05.2008
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