
A Igreja e os dias de festa
O dia da festa do Santo reveste-se de uma grande importância do ponto de vista quer da Liturgia quer da piedade popular. Num mesmo breve espaço de tempo, numerosas expressões cultuais, ora litúrgicas ora populares, com risco de alguma conflitualidade, concorrem para configurar o “dia do Santo”. (...)
É necessário que a festa do Santo seja cuidadosamente preparada e celebrada do ponto de vista litúrgico e pastoral.
Isto exige, antes de mais, uma correcta apresentação da finalidade pastoral do culto aos Santos, quer dizer, a glorificação de Deus, “admirável nos seus Santos”, e o compromisso de levar uma vida modelada no ensino e no exemplo de Cristo, de cujo Corpo Místico os Santos são membros eminentes.
E também requer uma correcta apresentação da figura do Santo. Segundo uma sã orientação da nossa época, essa apresentação concentrar-se-á não tanto nos elementos lendários que, por vezes, envolvem a vida do Santo nem no seu poder taumatúrgico, quanto no valor da sua personalidade cristã, na grandeza da sua santidade e eficácia do testemunho evangélico, e no carisma pessoal com que enriquecer a vida da Igreja.
O “dia do Santo” também tem uma grande valência antropológica: é o dia de festa. E a festa – todos sabem – corresponde a uma necessidade vital do homem e mergulha as suas raízes na aspiração à transcendência. Através de manifestações de alegria e júbilo, a festa é afirmação do valor da vida e da criação. Enquanto interrupção da monotonia do quotidiano, das formas convencionais e da sujeição à necessidade do ganha-pão, a festa é expressão de liberdade íntegra, de tensão para a plena felicidade e de exaltação da pura gratuidade. Enquanto testemunho cultural, põe em destaque o génio peculiar de um povo, os seus valores característicos e as expressões mais genuínas do seu folclore. Enquanto momento de socialização, a festa é ocasião de dilatação das relações familiares e de abertura a novas relações comunitárias.
Do ponto de vista religioso, a “festa do Santo” ou a “festa do padroeiro” de uma paróquia, quando está esvaziada do conteúdo especificamente cristão que estava na sua origem – a honra prestada a Cristo num dos seus membros – transforma-se numa manifestação meramente social, folclórica ou, no melhor dos casos, numa ocasião propícia ao encontro e ao diálogo entre os membros de uma mesma comunidade.
Do ponto de vista antropológico, note-se que não raramente acontece que grupos ou indivíduos, julgando “fazer a festa”, na realidade, pelos comportamentos que assumem, afastam-se do seu genuíno significado. Com efeito, a festa é participação do homem na senhoria de Deus sobre a criação e no seu “repouso” activo, que não ócio estéril; é manifestação de alegria simples e comunicável, não sede desmesurada de prazer egoísta; é expressão de verdadeira liberdade, não procura de formas de divertimento ambíguo que criam formas de escravidão, novas e subtis. Pode-se afirmar com toda a segurança que a transgressão da norma ética não só contradiz a lei do Senhor, mas provoca uma ferida no tecido antropológico da festa.
in Directório sobre a piedade popular e a Liturgia, nn. 230-233
22.09.2008
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