Vemos, ouvimos e lemos
Inteligência emocional

Iliteracia emocional e perda do património oral da fé

Ao longo das últimas décadas foram caindo grande parte das ditaduras políticas que dominavam o mundo. Mas a ditadura da razão intelectual, esta foi-se acentuando nos sistemas formais e informais de educação no Ocidente. Apostados no desenvolvimento intelectual, fascinados com o aumento geral do Quociente de Inteligência (QI) nos países desenvolvidos, a inteligência emocional foi atrofiando, por irrelevância e negligência. Como se as lágrimas, os risos, o pudor, a tristeza, a alegria, a ira, a frustração, não fossem os nossos companheiros do quotidiano. Como se o grau de excelência humana fosse determinado pela maior ou menor acuidade do espírito de geometria.

As emoções ainda são vistas como intrusas e impertinentes, apesar de serem a nossa linguagem comum. Muitas vezes “...gostaríamos de dissimular aquilo que sentimos. A respiração pára para engolir as lágrimas, estampamos um sorriso para disfarçar os nossos receios, a ira só explode dentro de nós” (Isabelle Filliozat, A inteligência do coração. Rudimentos de gramática emocional, Pergaminho, p. 48). No entanto, sabemos por experiência que, por exemplo, “...as emoções que não podem ser ditas cavam fossos entre as pessoas que se amam” (ibidem). Sabemos também que o silêncio das emoções e dos afectos pode ser mais traumatizante do que a dor partilhada: - Preciso de gritar. Deixem-me, senão abafo. Mas quantas vezes as emoções são retidas, silenciadas e recalcadas. Não estará aqui uma das razões do alastramento de doenças do foro mental e psicológico, nos dias de hoje? Emoções não exprimidas são emoções deprimidas, recalcadas.

A medicalização da nossa existência com antidepressivos já assume proporções alarmantes. A depressão e a melancolia apossam-se do nosso mundo. Porquê, se nas sociedades mais desenvolvidas as pessoas têm um nível de vida material elevado e possuem em média uma elevada capacidade e cultura intelectual? Até dizemos: “parecia ter tudo para ser feliz!” Afinal, parece-nos legítimo concluir, a realização pessoal e a chave para uma vida feliz implicam mais do que um quociente de inteligência elevado, e do que um nível económico elevado. (...)

A iliteracia emocional no Ocidente é razão de um sobressalto que se estende até Deus. “Se o défice em inteligência emocional, de que padece o nosso mundo ocidental, é fonte de mal-viver pessoal, de mal-viver entre as famílias, entre as comunidades, entre as etnias, entre as religiões, entre as nações..., este mal-viver estende-se necessariamente à nossa história com Deus. A tal ponto que, se continuarmos a descurar os contornos de urgência e de gravidade com que hoje se coloca o problema da iliteracia emocional, quando a geração dos nossos pais desaparecer, Deus ainda será lembrado, mas já não será amado e a nossa sobrevivência espiritual e mesmo física estará seriamente ameaçada.

Estas palavras servem como pano de fundo para a relação que vou tentar estabelecer entre o défice em educação emocional e a cada vez mais forte dificuldade em viver a fé em Deus como relação de amor, relação afectiva, familiar e íntima. “Deus ainda será lembrado, mas já não será amado”. Podem ser apontadas múltiplas circunstâncias e características do mundo presente que ilustram e fundamental esta perspectiva; por exemplo, a perda progressiva do património oral cristão em Portugal, no que respeita, concretamente, à tradição oral popular.

Muitos, por experiência directa ou indirecta, recordam como a vida comunitária, social e pessoal da geração dos nossos pais e das que a precederam se inscrevia num calendário litúrgico, marcado por momentos fortes de vivência e expressão da fé, que se desenrolavam ao ritmo das estações. Hoje, o calendário litúrgico mantém o mesmo sentido, cumpre a mesma finalidade, mas quem ainda se lembra dele? (...) Na prática, a religião enquadra cada vez menos o tempo. Os tempos fortes litúrgicos ainda continuam a marcar a organização do tempo civil, mas o sentido é mais lúdico e utilitário do que litúrgico. As férias da Páscoa, por exemplo, são aproveitadas por um número crescente de pessoas para viajarem para destinos turísticos mais ou menos longínquos. As agências de viagens registam uma explosão de reservas para este período, sem que a escolha dos destinos esteja relacionada ou seja de alguma forma condicionada pelo tempo litúrgico que se celebra. (...)

Interessa-nos analisar a forma como as gerações que nos precederam traduziam a presença, a intervenção e a relação com Deus, no quotidiano.

No amor humano, aqueles que se amam, procuram inventar formas de mostrar ao outro, de significar ao outro o seu amor, de testemunhar o seu desejo de intimidade, o seu desejo de que o outro viva e viva comigo. A linguagem do amor é uma linguagem sempre nova, mesmo na reiterância da palavra ou do gesto. Amo-te. Diz outra vez: amo-te, amo-te, amo-te. Um e outro não se cansam de repetir nem de ouvir.

O nosso interesse centra-se particularmente em fórmulas, em orações, em breves narrativas, estórias ou ditados populares, com conotação religiosa, construídos pelo povo, para a vida quotidiana do povo. Para cada momento do dia, e nas circunstâncias mais diversas, o crente não contava só consigo. Deus era presença permanente, a quem se suplica, a quem se louva, e a quem se dá graças sem cessar. Deus habita o temo e os espaços. É referência permanente da razão e do coração. Desde a aurora ao entardecer e durante o repouso da noite, a vida é colocada nas mãos de Deus, com simplicidade, fé e confiança: o levantar, o deitar, a preparação dos alimentos, as refeições, as tarefas caseiras, os animais domésticos e o trabalho nos campos (sementeiras, colheitas), as viagens, certos locais (igreja, calvário e oratório público, cemitério), os sinos convidando para a liturgia das horas ou para a oração por algum membro da comunidade que acaba de entregar a alma a Deus, ou “o botar as almas”, a imagem da Sagrada Família que recebe hospitalidade, em todas as casas da comunidade, durante um dia, enfim, a própria linguagem comum e o gestuário que muitas vezes acompanha.

Nem todas as palavras ou ideias são rigorosa teologia, nem encontram sentido na dogmática cristã. Mas o povo é vigilante. O seu coração vigia para não ser tentado pelo Mal (o demónio) e para que Deus não seja ofendido. As palavras com que fala a Deus são marcadas pelo sentimento, são palavras de ternura e de amor: “amado Jesus”, “meu querido Senhor”, “luz dos meus olhos”, “amor do meu coração”, “meu amigo”, “meu companheiro”. E a palavra de louvor, de acção de graças ou de súplica sai em verso, com cadência e rima: “Ó meu Senhor do Calvário / Vossa cruz é de oliveira / é a mais bonita rosa / que nasceu entre a roseira / Os vossos santos cabelos / finos como puro ouro / deixai-me entrar meu Senhor / no vosso santo Tesouro”.

Mal os olhos se abrem, ao acordar, já o crente se entrega a Deus: “Minhas mãos molho / meu rosto lavo / para amar ao Senhor e arrenegar ao Diabo!” “Eu vos adoro Senhor com todo o meu coração / dou-vos infinitas graças por me terdes criado e feito cristão”. “Meus pés pus em terra / meu coração em dia / já me entrego a Deus, à Virgem Maria e ao Santo desde dia / já que me guardaram de noite que me guardem também de dia”. Ainda: “Meus pés ponho no chão / minha alma ponho em guia / Nosso Senhor Jesus Cristo me ajude nos trabalhos deste dia”. Ao deitar: “Nesta cama me deito / com esta mortalha me cubro / se a morte me perseguir / os anjos do céu me acudam”. Entrega-se a alma ao Menino Jesus: “Graças a Deus que me deitei / graças a Deus estou deitada / de sete anjinhos acompanhada / três ao pés / três à cabeceira / Jesus Cristo na dianteira”, ou “...três aos pés / três à cabeceira / Nossa Senhora da dianteira”. “Entrego-me aos cravos / entrego-me à cruz / entrego a minha alminha ao Menino Jesus”, Ainda, antes de adormecer: “Quatro cantos tem a casa / quatro velas estão a arder / quatro anjos me acompanhem / se eu esta noite morrer”. “Jesus na minha boca / Jesus no meu peito / Jesus na minha cama / lá onde me deito”.

Durante uma caminhada: “Por este caminho eu vou / tantos anjos me acompanhem como de passos eu dou”.

Ao amassar o pão: fazem-se cinco cruzes que representam as cinco chagas de Cristo e a cada cruz diz-se: “S. Vicente te acrescente / S. João te ponha a mão / a Virgem te faça pão / assim como está cheia de graça / Nosso Senhor abençoe esta massa”. Também: “Dentro do forno / fora do forno / nós a comer / e tu a crescer / pelo poder de Deus tudo pode ser”.

Às refeições: “Graças vos dou oh meu Deus / que me deste comer sem eu merecer / dá-me saúde / para eu viver / dai-me o céu quando eu morrer”.

Enfim, quando as forças da natureza estão em tumulto, por exemplo, com trovoada: “Quando Barbarinha se levantou / no seu livrinho pegou / e o Senhor lhe perguntou / Barbarinha onde vais / meu Senhor ao mundo vou / abrandar as trovoadas que andam muito aumentadas / deitá-las a mau caminho onde não haja pão nem vinho / nem galo nem galinha / nem bafo de menino / Sangue derramado / coração ferido / o Senhor e Nossa Senhora se metam entre nós e o perigo”.

A decisão de se fazer algo é acompanhada da expressão “se Deus quiser”, assim como a despedida: “até amanhã, se Deus quiser”. Os compadres saúdam-se: “salve-o Deus”. Resposta: “salve-o nosso Senhor”.

Os nossos pais e os pais dos nossos pais, sábios, mas analfabetos, não precisavam de um quociente de inteligência elevado para fazer das suas vidas um espaço hospitaleiro onde Deus montava a sua tenda. Deixavam transbordar o sentimento, com pudor e fervor, na grácil simplicidade do verbo cantado, do verbo rezado, gestualizado, recitado, murmurado, ruminado.

A evocação, que acabámos de fazer, de algum património oral cristão da piedade popular, um pouco folclórica, convenhamos, é simplesmente um exemplo ilustrativo da sábia harmonia da razão e da emoção no quotidiano crente. O amor por Deus aparece como amor confessado, declarado, manifestado, pensado.

Nos nossos dias a exuberância dá lugar à pobreza. Assistimos hoje, não a um natural processo de transformação e de invenção de novas formas de expressão da fé, mas sim à progressiva diluição e perda da dimensão afectiva da relação com Deus. Paradoxalmente proliferam movimentos religiosos, a que a sociologia chama “nova religiosidade”, nos quais a emoção é exacerbada. Na penúria como no excesso, o défice em educação emocional repercute-se necessariamente na relação com Deus, como se repercute na relação connosco e com os outros.

A urgência do nosso tempo é afectiva. É urgente reaprender a gramática do coração e a justa conjugação dos verbos amar e pensar. A nossa sobrevivência espiritual e mesmo física passa por aqui. Talvez, então, quanto a geração dos nossos pais desaparecer, Deus ainda seja lembrado e ainda seja amado.

Isabel Varanda
Professora da Faculdade de Teologia da UCP, Braga

in Memoria - Instituto Católico de Viana do Castelo, 2003

06.08.2008

 

 

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