Vemos, ouvimos e lemos
Parábola da Misericórdia

A imagem de Deus no século XXI

O acesso ao Rosto de Cristo foi mediado ao longo de vinte séculos, mediação que prossegue hoje como a via mais próxima e adequada. Deus diz a sua proximidade nos sinais que coloca nos caminhos dos homens. Em Cristo não fez apenas uma visita, retirando-se de seguida. Em Cristo ficou aliado a qualquer homem de boa vontade, mais ou menos desfigurado, mas sempre seu irmão. O “outro”, como irmão, prossegue sendo a mediação do Senhor no rosto do seu Cristo nos caminhos dos homens de hoje.

Qual será o “rosto mais perceptível”? O texto de Lucas 15, comummente chamado “as parábolas da misericórdia”, pode ser um bom lugar para iniciar uma resposta temerária para o novo século. O tempo muda de forma muito rápida. Não podemos pretender apostar neste rosto ao longo de todo este século nascente, mas será por aqui que Deus prossegue a sua revelação para os homens de hoje. Lucas 15, particularmente na parábola do “filho pródigo” (15, 11-32), apresenta o rosto de marca de Deus em Jesus Cristo, já que o Pai da parábola não é solitário mas tem dois filhos que são irmãos. A face de Deus é a de um Pai bondoso, providente e rico que, à partida, assegura aos dois filhos uma fortuna abundante para que cada um seja um gestor livre e feliz. O Pai é rico, mas nada exigiu em troca (à volta do filho mais novo de mãos a abanar e de identidade reencontrada). Além disso, o Pai é promotor de liberdade. Sabe que os dois filhos são iguais diante dele e, por isso, divide os bens entre eles para que possa dar asas à liberdade do mais novo que sai e do mais velho que passa a ser o grande gestor do património restante. “Repartiu” com ele o que tinha e o “filho mais novo” foi experimentar a sua liberdade, em ambiente penoso e difícil, sobretudo quando a riqueza se tornou penúria O Pai deixou partir, dando da superabundância do seu amor. A liberdade é maior que tudo, como dom e o Pai não a quer confiscar. Será tarefa do filho saber como se deve orientar. O Pai é respeitador do seu itinerário, pressupondo uma educação esmerada que estes dois filhos deveriam possuir. Respeitador das decisões para que a liberdade seja maior, enquanto lugar de futuro, decisão plena de uma vida responsável. O Pai respeita e faz respeitar, pois no regresso ajuda o filho mais velho a voltar ao seio da fraternidade que perdera e que lhe endureceu o coração. Pai rico, providente, dador de liberdade e respeitador, faz festa na hora do regresso, pois, como Pai, nunca deixou o filho sair do coração, embora o deixasse experimentar outros caminhos, outras casas e outros amores.

Se o Pai tem este rosto, os irmãos são singulares. Cada um nunca copia o outro, mas sente o amor do Pai de forma única e faz um itinerário que o singulariza diante do Pai. Os filhos podem, em determinada circunstância, perder a fraternidade. Deixam de se aceitar como “irmãos”, o que está gravado na atitude ressentida do mais velho da parábola que nem sequer trata o mais novo como irmão, mas devolve-o ao Pai como “esse teu filho”. Compete ao pai oferecer de novo a fraternidade ao irmão mais velho, chamando-lhe a atenção para a permanente estadia na casa do pai que também é a casa do irmão. A festa concretiza-se porque há irmãos, os dois. Se no irmão mais novo o rosto é desfigurado por uma vida dissoluta, longe da casa, no mais velho o rosto é também desfigurado pelo corte com a fraternidade, pelo ressentimento e pelo pedido de contas aquando da festa iniciada.

O Filho Pródigo
O Viajante ou O Filho Pródigo, Hieronymus Bosch

A narrativa é ainda mais rica, mas o que se diz é suficiente para entender, nesta óptica, o rosto mais perceptível de Jesus Cristo no nosso século XXI. Não se tratará tanto de propor belos discursos sobre Deus, mas de apresentar o Seu Rosto como Pai que tem dois filhos. Pai que está, que visita, que cuida, que ama e que partilha abundantemente, Pai que respeita para que a liberdade seja assumida como dom. Pai da fraternidade. Não adiantará falar de Deus numa óptica narcisista ou num cultivo exagerado do “eu” em caminho de salvação. Importa propô-lo na fraternidade assumida e vivida no quotidiano. Trata-se de um Pai que tem dois filhos, diferentes, com ideais diversos e com metas que passam por sendas diferentes, mas irmãos que não devem esquecer-se de que o são. O rosto mais perceptível terá os traços da fraternidade, será sob o seu signo. O século XXI não teorizará imenso sobre o assunto, mas cedo despertará para a urgência deste valor como porta aberta à sobrevivência, Não há rosto pessoal que possa descobrir-se e aceitar-se sem um outro rosto que lhe devolva a imagem. Mais do que parceiros, os homens apontam para a mesma fonte de vida, a riqueza amorosa de Deus. É este o caminho do encontro.

Este rosto não fará avançar muito ocristianismo, enquanto movimento dos cristãos nas suas instituições e com uma organização secular que ainda hoje é forte. O futuro é mais dos cristãos do que da instituição organizada. Os filhos e filhas imaginarão formas novas de convivência, outras organizações. O cristianismo institucionalizado mudará, por certo, de formas. A fraternidade entre os povos, na Europa de forma particular, tem de encontrar outras plataformas institucionais. Os cristãos inventarão outras socialidades e Deus será dito em instituições novas com base nos padrões sociais hoje em incremento. O futuro do próprio cristianismo dependerá muito da imaginação dos novos grupos fraternos que ajudarão a criar uma mentalidade nova para habitar a terra de todos. Isto significa que a aspiração à liberdade verdadeira, cuja fonte se encontra no próprio Deus, é uma realidade em movimento que dá a este rosto de Jesus Cristo uma nova carga, uma outra marca. As pessoas funcionam mais por sugestão razoável do que por imposição normativa; o movimento formativo a que assistimos em todos os quadrantes originará cristãos convictos que se entregarão às causas da libertação para que a terra não seja usurpada por uns, mas pertença na sua riqueza a todos porque é terra de Deus. O século XXI assistirá a este movimento de renovação das pessoas, numa viagem séria à sua interioridade, descobrindo-se irmãos livres e, assim, apreciando o Evangelho inscrito nos seus caminhos fraternos em benefício da liberdade. Talvez as instituições globais não sejam fortes no futuro; o lugar pertencerá às pessoas e aos grupos intermédios, às comunidades de dimensão humana nas quais se realizam e vivem felizes.

Reconciliação

Disse ainda: «Um homem tinha dois filhos. O mais novo disse ao pai: ‘Pai, dá-me a parte dos bens que me corresponde.’ E o pai repartiu os bens entre os dois. Poucos dias depois, o filho mais novo, juntando tudo, partiu para uma terra longínqua e por lá esbanjou tudo quanto possuía, numa vida desregrada. Depois de gastar tudo, houve grande fome nesse país e ele começou a passar privações. Então, foi colocar-se ao serviço de um dos habitantes daquela terra, o qual o mandou para os seus campos guardar porcos. Bem desejava ele encher o estômago com as alfarrobas que os porcos comiam, mas ninguém lhas dava. E, caindo em si, disse: ‘Quantos jornaleiros de meu pai têm pão em abundância, e eu aqui a morrer de fome! Levantar-me-ei, irei ter com meu pai e vou dizer-lhe: Pai, pequei contra o Céu e contra ti; já não sou digno de ser chamado teu filho; trata-me como um dos teus jornaleiros.’ E, levantando-se, foi ter com o pai.Quando ainda estava longe, o pai viu-o e, enchendo-se de compaixão, correu a lançar-se-lhe ao pescoço e cobriu-o de beijos.
O filho disse-lhe: ‘Pai, pequei contra o Céu e contra ti; já não mereço ser chamado teu filho.’ Mas o pai disse aos seus servos: ‘Trazei depressa a melhor túnica e vesti-lha; dai-lhe um anel para o dedo e sandálias para os pés. Trazei o vitelo gordo e matai-o; vamos fazer um banquete e alegrar-nos, porque este meu filho estava morto e reviveu, estava perdido e foi encontrado.’ E a festa principiou. Ora, o filho mais velho estava no campo. Quando regressou, ao aproximar-se de casa ouviu a música e as danças. Chamou um dos servos e perguntou-lhe o que era aquilo. Disse-lhe ele: ‘O teu irmão voltou e o teu pai matou o vitelo gordo, porque chegou são e salvo.’ Encolerizado, não queria entrar; mas o seu pai, saindo, suplicava-lhe que entrasse.Respondendo ao pai, disse-lhe: ‘Há já tantos anos que te sirvo sem nunca transgredir uma ordem tua, e nunca me deste um cabrito para fazer uma festa com os meus amigos; e agora, ao chegar esse teu filho, que gastou os teus bens com meretrizes, mataste-lhe o vitelo gordo.’ O pai respondeu-lhe: ‘Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu. Mas tínhamos de fazer uma festa e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e reviveu; estava perdido e foi encontrado.’»

José da Silva Lima, Faculdade de Teologia da UCP

in Memoria, Instituto Católico de Viana do Castelo, 2001

21.02.2008

 

 

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