Vemos, ouvimos e lemos
Inculturação

Imagens de Jesus nas culturas contemporâneas

Um dos fenómenos mais interessantes que se produziram no ponto de intersecção entre os novos avanços na cristologia e o movimento de inculturação dos últimos trinta anos foi a profusão de novas imagens de Jesus. As imagens são fundamentais na imaginação e sensibilidade cristãs; transmitem um leque de ideias, sentimentos e recordações capazes de evitar conceptualizar de maneira mais abstracta quem é Jesus Cristo. Com frequência as imagens configuram as identidades muito mais intensamente que os conceitos.

Em muitas culturas orais, o termo “rosto” tem conotações que se associam ao conceito “identidade”. A importância de entender os distintos “rostos de Jesus” apoia-se no facto de ser uma maneira especial de compreender profundamente a vida da fé dos crentes. Também nas culturas de escrita há um interesse renovado, em alguns sectores, por esta dimensão

O rosto de Jesus é uma maneira de sublinhar a sua humanidade. Muitas das imagens que surgiram nestes últimos anos tentam introduzir Jesus nas configurações culturais regionais, como se pode constatar nos exemplos seguidamente apresentados

 

África

Cristo como ancião. Talvez a imagem de Jesus mais surpreendente para quem não é africano. Em grande parte da África subsahariana, tal como acontece no sul da Ásia, há uma grande veneração pelos anciãos. Os antepassados são considerados guardiães da moralidade dos vivos, assim como intermediários diante de Deus. Ainda que Cristo não esteja dentro da linhagem de sangue dos povos africanos, ele foi adoptado como seu progenitor espiritual. Se é verdade que não teve descendência física e que morreu de morte violenta quando ainda era jovem (características que normalmente impossibilitariam alguém de se tornar ancião), considera-se que deu a sua vida na cruz para nos salvar (os guerreiros jovens que morreram na defesa do povo podem ser qualificados de anciãos). O discurso de Paulo sobre Jesus como o novo Adão (Rom 5) é o texto bíblico que suporta esta imagem. Jesus, na sua qualidade de proto-ancião espiritual, intercede por nós diante do trono de Deus. Ainda assim, estamos perante uma imagem controversa, dado que em algumas culturas os anciãos não são considerados protectores benévolos, mas figuras deveras perniciosas.

Cristo como Mestre da Iniciação. Aproximadamente metade das culturas do mundo tem ritos de iniciação, através dos quais as crianças passam à idade adulta. Na África francófona, uma das imagens de Jesus que surgiu é a de mestre da iniciação. Cristo conduz, mediante a sua morte e ressurreição, à transformação e salvação, acontecimento que também se converte numa maneira de explicar o sofrimento. Dado que ninguém se pode converter no mestre dos ritos da iniciação sem ter passado pessoalmente por eles, também Cristo teve de morrer com o objectivo de todos poderem viver em comunhão com Deus.

Cristo Curandeiro. Os curandeiros, pessoas que curam ou tratam, desempenham um papel fundamental na maioria das culturas africanas, o mesmo sucedendo em outras sociedades de pequenas dimensões de todo o mundo. O facto de nos Evangelhos Jesus ser apresentado, com frequência, como alguém que cura, fez com que esta imagem fosse uma opção óbvia para os africanos.

Cristo como Vida Abundante. Nos países anglófonos, uma das imagens que aparece com mais frequência é a de Jesus como dador de vida ou vida abundante. Como fonte bíblica assinala-se frequentemente o relato de Jo 4, 1-42, onde Jesus conversa com a samaritana junto ao poço. A plenitude de vida está no núcleo do que muitos povos africanos vêem como meta do ser humano.

 

Ásia

Cristo, o Sábio. No continente com menor percentagem de cristãos, as grandes figuras associadas ás religiões são mestres ou sábios – por exemplo Buda, Confúcio ou os gurus da Índia. Não é por isso surpreendente que esta imagem se aplique a Jesus. Dado que no Evangelho Jesus é com frequência apresentado como mestre, e como fonte da sabedoria divina (especialmente em João), os fundamentos bíblicos para ver a Jesus como Sábio são totalmente evidentes.

Jesus entre os pobres. A federação de Conferências Episcopais asiáticas declarou que, para que o cristianismo se enraíze na Ásia, é necessário que neste continente se estabeleçam três diálogos: com as religiões, com as culturas e com os pobres. Este tema retomou-se explicitamente em vários países. Na Índia tem sido especialmente com os dalits, a parte da população situada no nível mais baixo da sociedade; hoje em dia a maioria dos cristãos encontram-se neste estrato. Jesus como dalit sublinha a sua profunda identificação com os mais pobres.

Um outro âmbito onde Jesus foi identificado com os marginalizados ocorreu nas teologias minjung, na Coreia do Sul, na década de 80 do século passado. Minjung denomina a população corrente. Jesus como minjung teve um carácter especialmente importante sobretudo durante as lutas que a população do país – em particular os trabalhadores e estudantes – levou a efeito com o objectivo de acabar com as ditaduras militares da década de 70 e início da de 80.

 

América Latina

As concepções de Jesus que datam da época colonial permanecem hoje em dia vivas nos latino-americanos, à semelhança do que acontece nas Filipinas, que foram evangelizadas a partir do México. As imagens do Menino Jesus e de Cristo em sofrimento pela sua Paixão – e também de Cristo morto – podem ser encontradas em toda a América Latina. Também foram integradas ideias e tradições indígenas.

O surgimento das teologias da libertação acrescentou a Jesus a imagem de Libertador, Jesus dos Pobres e Jesus a Não-pessoa (ou como uma pessoa sem importância ou, durante os anos de domínio militar, como a pessoa que “desapareceu” ou foi sequestrada). Ainda que as teologias da libertação não sejam actualmente tão proeminentes como nos anos 70 e 80, as imagens de Jesus pobre continuam muito presentes nas culturas latino-americanas actuais.

É igualmente de assinalar a aparição de teologias entre os povos indígenas, que têm imagens de Jesus que por vezes se fundem com as tradições anteriores ou que representam variações sobre os temas da libertação que se encontram na América Latina.

 

Atlântico Norte

Na América do Norte podemos encontrar Jesus como membro das culturas negra, hispânica e indígena, assumindo a identificação com elas e apoiando a sua causa. Apesar de não se terem efectuado estudos tão sistemáticos sobre as imagens de Jesus na população caucasiana da América do Norte e da Europa, podem ser indicadas duas tendências. Por um lado, o deslocamento de uma imagem divina de Jesus – Filho de Deus, juiz e Senhor – para aquela em que se acentuam os traços humanos – amigo, irmão, mestre. Jesus é visto como alguém que entende os problemas, que oferece a sua amizade, que não julga. É um Jesus que cura as feridas. Desde o início dos anos 90 é também destacada a imagem de Jesus como alguém que favorece as mulheres.

 

Conclusão

As imagens de Jesus que apareceram em primeiro plano por toda a Igreja encontram-se agrupadas em dois grupos. Por um lado, Jesus está colocado no centro da cultura. É membro da cultura e identifica-se plenamente com ela. É sumamente humano, mas também pode transmitir o divino. A divindade é menos patente nos grupos caucasianos do Atlântico Norte, onde a secularização fez os seus maiores progressos no âmbito cultural.

Por outro lado, Jesus está nas margens da cultura ao identificar-se com os excluídos ou os marginalizados. Nesta solidariedade, torna-se patente que Jesus tem que ser mais que simplesmente humano; tem que ser para eles fonte de uma libertação e de uma inclusão supremas. Nestas duas justaposições podemos ver, assim, com se estão transmitindo hoje em dia entre os cristãos o Jesus divino e o humano.

 

Leia também:

O rosto de Jesus Cristo no rosto da Igreja (Card. José Saraiva Martins)

Robert Schreiter

in Concilium 326 (Junho 2008), Editorial Verbo Divino, Estella

Trad. e adapt.: Rui Martins

14.08.2008

 

 

Topo | Voltar | Enviar | Imprimir

 

 

barra rodapé

Imagem
Última Ceia e Crucificação









Edição mais recente do ObservatórioOutras edições do Observatório
Edição recente do Prémio de Cultura Padre Manuel AntunesOutras edições do Prémio de Cultura Padre Manuel Antunes
Quem somos
Página de entrada