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Cultura contemporânea

A importância da fé para a arte

A autonomia da arte, se esta aceitar deixar-se penetrar pela atitude crente, não é anulada por essa atitude. Antes pelo contrário, assim se possibilita a superação da sua morte, o que significa que só na superação de uma radical autarquia é que a arte encontra o fundamento último para a sua existência, mesmo ou sobretudo como arte autónoma, já que só desse modo se supera o encerramento da arte em si mesma, encontrando uma solução para o (...) drama da sua auto-absolutização enquanto auto-condenação.

Contudo, a revivificação da arte, na sua qualidade de articulação figuradora e transfiguradora da realidade, que assim é explicitamente acolhida como dom originário e gratuito de ser, não significa um regresso a uma fase pré-moderna de inserção da arte em contextos prévios. Poderíamos dizer, antes, que a arte, após a sua “morte” moderna, “ressuscita” transfigurada, como acontece com todas as ressurreições – que por isso se distinguem de meras restaurações de algo previamente existente.

Ora, a “ressurreição” da arte só parece ser possível através da ressurreição do Homem. Não que o ser humano, sem sentido estrito, tenha que ser o tema exclusivo – ou mesmo central – de toda a arte. Mas sem confiança e esperança mínimas no ser humano e na sua capacidade criadora, a arte perde (...) a sua razão ou mesmo possibilidade de ser.

Por outro lado, a história da modernidade e da pós-modernidade foi mostrando que a ressurreição do Homem só parece viável na ressurreição do próprio Deus, enquanto referência última de sentido e enquanto origem da própria dignidade do ser humano e de toda a realidade. Portanto, o ressurgir da arte dependerá do ressurgir do ser humano e, mais profundamente, do ressurgir do ser humano crente – no sentido mais vasto que se pode atribuir a esse “ser-crente” (...).

Essa tripla “ressurreição” terá que ser (...) transfiguradora das realidades e das concepções. Assim e para começar pelo fim, isto é pelo conceito do Deus que ressuscita, este terá que ser sempre um conceito que pensa Deus como presente na ausência. Isto é, um Deus diferente do deus «ex machina», que ocupa todos os nossos espaços e neles intervém arbitrariamente. Um Deus assim seria o oposto – por eliminação ou por limite – da legítima autonomia humana.

Mas também o Homem ressuscitado terá de ser um Homem não “demasiado humano”, isto é, não absolutizador do humano, já que se tornaria, em última instância, inumano. E, na mesma linha de ideais, a arte ressuscitada terá que ser uma arte não meramente estética, encerrada no seu mundo, sem referência ao real, já que desse modo se tornaria profundamente alienante. Talvez possa a arte iniciar, por antecipação, o processo de ressurreição, enquanto transfiguração da realidade – iniciar, não por si, mas como acolhimento do dom da vida transfigurada, isto é, na medida em que se deixar, pelo menos, interpelar pela fé.

João Duque

in Cultura contemporânea e cristianismo

01.08.2008

 

 

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