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Património e cultura

Entrevista a José António Falcão, Director do Departamento Histórico e Artístico da Diocese de Beja

Teve lugar a 12 de Janeiro, na Igreja de Santo Ildefonso, Almodôvar, o segundo concerto da 4.ª edição do Festival Terras Sem Sombra, onde temas ligados às “Devoções Populares na Música Judaica, Árabe e Cristã foram interpretados pelo Ensemble Hispânia. Estiveram presentes o Director Regional da Cultura do Alentejo, o Presidente do Município e elementos da sua vereação, além de representantes da “Arte das Musas”, empresa que co-organiza o festival.

Depois da actuação recolhemos as palavras de José António Falcão, Director do Departamento do Património Histórico e Artístico da Diocese de Beja, que nos falou da génese intercultural do território, dos planos para este ano e da ligação entre a missão da Igreja e as aspirações das populações.

 

A escolha do tema do Festival Terras Sem Sombra e, em particular, do programa desta noite, traduz o reconhecimento de que as devoções, a música e a cultura do Alentejo e do Algarve foram configuradas pelo judaísmo, cristianismo e islamismo?

É a noção de que somos depositários de uma tradição tríplice, que não é apenas cristã, mas que abrange todas as Religiões do Livro, que tiveram uma presença fundamental neste território e que moldaram a nossa identidade e a nossa alma. Mas tentamos também através desta programação – trazendo vida a estes espaços, que têm também de respirar cultura, que têm também de respirar música, palavras – tentamos, dizia, através deste fio condutor, desta nova vida, insistir numa tecla importante que é a da tolerância, do entendimento e do diálogo, que são características matriciais da identidade alentejana e portuguesa.

 

De que modo é que um melhor conhecimento das outras religiões pode contribuir para aprofundar a identidade da Igreja?

Há muitos pontos de contacto que nos podem interessar, sobretudo numa perspectiva de prepararmos uma sociedade – que é a do presente, mas sobretudo a do futuro – que consiga viver na diferença. Esta diferença, que parece abissal a alguém que não está informado, vai-se atenuando à medida que vamos avançando no conhecimento mútuo. E vamos percebendo que em vez de um abismo intransponível, temos ribeiras, temos rios, podemos lançar pontes. Além disso, no nosso caso concreto – e peço licença para chamar a atenção para este aspecto – nós, Diocese de Beja, somos depositários de um património sobretudo islâmico muito significativo, como é o caso, por exemplo, da Igreja Matriz de Mértola, que é nada mais nada menos do que uma mesquita almóada com uma pequena adaptação a igreja, o que não deixa de ser muito interessante. E de certo modo na nossa religiosidade e espiritualidade integrámos elementos do judaísmo. O judaísmo teve nesta noite uma presença mais ténue, pelo menos mais difícil de identificar, mas não deixa de estar presente no quotidiano.

Ensemble Hispânia
Ensemble Hispânia na Igreja de Almodôvar

Além do Festival Terras Sem Sombra, que outras actividades a nível artístico estão previstas para este ano na Diocese?

Estamos a trabalhar com muito afinco numa exposição sobre a Arte Sacra da região de Alvito, que é extraordinariamente rica do ponto de vista patrimonial, e que atravessa hoje um problema grave que é a possibilidade, que está sobre a mesa, da extinção do concelho. Trata-se de um pequeno concelho, rural, com pouca população, mas com uma identidade fortíssima. A Diocese deve ir ao encontro deste problema emergente e tentar chamar a atenção para o que está em causa.
Dois outros projectos estão também neste momento a merecer a atenção da nossa parte no plano expositivo. Gostaríamos muito de trabalhar com a arte contemporânea. Há um projecto que pretende aproximar em torno da nossa pequena rede museológica a possibilidade de integrar artistas plásticos, mas também os artistas da palavra – escritores, poetas, dramaturgos – e associá-los a um projecto que valorize estas devoções tradicionais, transformando-as e transportando-as para o mundo contemporâneo.
Finalmente, não queríamos passar ao lado deste Ano Europeu do Diálogo Intercultural. Encontramos nele uma oportunidade muito significativa, além do debate sobre os problemas da tolerância, racismo, xenofobia, indiferença e a falta de respeito pela diferença dos outros, para em Beja, na Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres (que é o nosso museu episcopal) dar a conhecer aquilo que temos no património regional do Oriente, de Africa e do Brasil.

 

De que forma é uma Pastoral da Cultura passa por estas iniciativas? E como é que as actividades do Departamento do Património Histórico e Artístico têm configurado a identidade da Diocese e da Igreja?

Eu creio que o diálogo com a sociedade em geral, um diálogo franco e aberto, tem de passar pela cultura. Nós só somos Igreja se praticarmos esta inculturação, ou seja, se conseguirmos absorver aquilo que o território tem de melhor para nos dar, e também se conseguirmos transmitir aquilo de que somos depositários – não só o património do passado, mas também aquilo que é o nosso contributo do presente na vida da sociedade, da cultura, os problemas que as pessoas sentem nas suas comunidades. É essencial esse testemunho.
Para nós, neste momento, o grande problema do Baixo Alentejo – e é por aqui que eu posso responder, pela pequena equipa que coordeno – é que sem desenvolvimento não vai ser possível não só preservar o que temos, mas sobretudo dar continuidade e conseguir que as novas gerações se identifiquem com este património plurissecular. A grande batalha aqui é a do desenvolvimento, e o património tem um papel importantíssimo, porque se o desenvolvimento for feito sem alma, sem raízes, corremos o risco de haver uma espécie de amnésia. A Igreja – e tem sido felizmente reconhecida como tal – faz parte de uma frente comum, com outras forças vivas que estão no terreno, que se tenta manter actuante, e sobretudo ajudando a desenvolver o Baixo Alentejo. Sem pessoas não é possível existir nem Diocese nem património.

 

De que modo é que o anúncio evangélico passa por estas iniciativas?

Este é um trabalho que assume claramente, para além da sua vertente técnico-científica, a dimensão pastoral. Nós entendemos o nosso trabalho como sendo de agentes da pastoral. Consideramos que estamos, de certo modo, como o sal no meio da massa do pão; ou seja, não se trata de um trabalho que se esgota nessa via, mas que está coordenado com a actividade conjunta dos restantes agentes da diocese – as paróquias e secretariados, que se estruturam em torno de um plano pastoral. Não esquecendo nunca os mais desfavorecidos, as pessoas com mais dificuldades e – um aspecto que nos tem preocupado muito – as pessoas com deficiência, que a sociedade acelerada em que vivemos nos dias de hoje tende a esquecer, o que é para nós, neste momento, um dos sinais dos tempos.

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© SNPC - Publicado em 14.01.2008

 

 

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