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Diálogo entre culturas

Muçulmanos em Portugal: Há um desconhecimento profundo da religião islâmica

Não há guetos. Mas há muitos olhares de soslaio. Não há marginalização, como com negros e ciganos, mas há um desconhecimento profundo da religião islâmica. Não há traços comuns, mas há essa religião. É por aí que se distinguem. E pelas tradições, que tentam adaptar ao ramerrão lusitano. Falar de muçulmanos em Portugal é muito mais do que falar de estrangeiros.

David Munir é o xeque que dirige a Mesquita de Lisboa. Há mais de 20 anos. A limpidez do trato e da linguagem fazem com que seja visto como líder de toda a comunidade islâmica. Não é, mas conhece-a profundamente. E garante que "não é guetizada". "Portugal tem um povo acolhedor, brando, calmo. Sabe o que é ser imigrante, já o sentiu na pele. O que se passa com a nossa (insiste no possessivo, tem Portugal na alma moçambicana) portuguesa é que há um desconhecimento profundo da religião islâmica". Que acaba confundida com fundamentalismos. Mas a garantia de xeque Munir é os muçulmanos estão integrados. "É um processo que se vai fazendo, os filhos integram-se mais facilmente".

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Daí a vantagem de os ter por perto. E se, para a maioria da comunidade islâmica - vinda das ex-colónias - a origem já resolveu a questão há décadas, para muitos outros nem por isso. A nova lei da imigração, que completa hoje um ano, pode ter sido providencial neste aspecto: definiu claramente e facilitou o reagrupamento familiar dos imigrantes.

E foi em ambiente familiar que o JN encontrou muitos muçulmanos da comunidade dispersa do Porto. Reagrupados este ano, com a língua por aprender, mas uma extraordinária vontade de conseguir. Nos casos em que o reagrupamento aconteceu há mais tempo, são mesmo os filhos quem fala português em casa. Na perfeição.

 

Ao sabor da legalização

Calcula-se que sejam perto de 40 mil em Portugal. Com os guineenses à frente, logo seguidos dos moçambicanos. Foram os primeiros a chegar, na alvorada de nações emergentes de anos de colonização. A comunidade islâmica propriamente dita nasceu em 1968, mas o fim das guerras, na década de 1970, é que os traria em massa para cá. Depois deles, as vagas seguiram os processos de legalização. Vieram do Magrebe e outros países do Norte de África, do Médio Oriente e, mais recentemente, do Oriente. Índia, Paquistão, Bangladesh.

"Quando há uma abertura em Portugal, os ilegais que estão na Europa vêm para cá. Tal como acontece o contrário: vão de cá para Espanha quando lá há legalizações extraordinárias".

Para todos esses, a integração, admite David Munir, não será tão fácil quanto a dele próprio. E dos outros países de língua oficial portuguesa. Esse será, de resto, o maior problema a assinalar. "Tem que haver mais escolas e mais divulgação das que existem, 3 com alternativas de horário".

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E a incontornável associação com o terrorismo? David Munir admite acontecer-lhe senti-la na pele. "Há pessoas ignorantes que misturam as coisas". Na rua ou no emprego, apesar de "Islam" derivar da palavra paz. Mas o certo é que os muçulmanos fazem questão de nem dar espaço a que a conversa surja.

O JN passou vários dias na zona do Porto onde confluem mais islâmicos - entre as ruas do Cimo de Vila e do Loureiro, no centro histórico. Foi ali que, há meses, um barbeiro argelino foi detido por suspeitas de actividades terroristas. "Era boa pessoa, vinha aqui, fazia as suas compras, não se metia com ninguém", conta-nos Ali, proprietário de uma mercearia de produtos orientais. Haddach, do Talho Halal, também não encontra nada a apontar-lhe. Mas o certo é que ninguém, ali, sabe do que lhe aconteceu. Ou quer saber.

Há mais em que pensar. Na crise, que começa a fazer alguns desistir de Portugal. Nas complicadas teias da legalização. Na sobrevivência.

Ivete Carneiro
Fotografia: Artur Machado

in Jornal de Notícias, 03.08.2008

05.08.2008

 

 

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