
Muita Sapienza, pouca classe
Os católicos viram com tristeza a reacção de um grupo de professores e alunos em Roma, cujos protestos enraivecidos impediram a visita do Bispo dessa cidade de visitar a sua universidade. É evidente que o Bispo era o Papa, o que ajuda a explicar, em parte, a comoção. Talvez os ânimos não se exaltassem tanto se fosse outro bispo qualquer.
À primeira vista, trata-se de um acto profundamente triste. Aqueles que devem zelar pela ciência e pela educação a impedir um distinto professor de discursar, pela simples razão de ser líder de uma religião. Se fosse o Dalai Lama, a reacção seria a mesma?
É evidente, pelas palavras de ordem e pelos slogans que a imprensa divulgou, que os alunos e professores protestavam por mera reacção contra a Igreja Católica. “A Ciência não Precisa da Religião” foi uma das frases mais ouvidas e lidas.
Mas houve quem tentasse esconder o seu ódio numa razão (aparentemente) mais consensual: Galileu. Há cerca de quinhentos anos a Igreja havia condenado Galileu por uma teoria que mais tarde se viria a revelar verdadeira, logo, o actual responsável máximo por essa Igreja não deve discursar numa universidade científica. A lógica serpenteia e escorrega um bocado... Devemos agora proibir os médicos de entrar em nossas casas porque há quinhentos anos os seus pares gostavam de receitar sanguessugas por tudo e por nada, e furar os crânios dos doentes para aliviar as dores de cabeça?
Nem nos vamos dar ao trabalho de analisar mais a fundo o caso de Galileu, sobre o qual tanta desinformação tem sido publicada. A questão aqui, bem vistas as coisas, nem é de verdade ou de más intenções, é uma questão de classe. E os professores e alunos que impediram a visita do Papa à Sapienza mostraram não ter classe nenhuma.
Sugerimos por isso que virem os seus olhos para a América do Sul, mais precisamente para a cidade de Puerto Montt, no Chile, onde trabalha o juiz Manuel Perez. Recentemente chegou-lhe à barra do tribunal o caso de um padre que não tinha dinheiro para pagar uma multa de estacionamento.
Se o caso fosse deixado nas mãos da Secular Inquisição da Universidade Sapienza, o Padre Jose Cornejo não tardaria a sentir o calor das chamas da fogueira. Porém, o juiz Manuel Perez condenou-o a recitar sete salmos por dia, durante três meses. Porquê?
«Fi-lo em homenagem a Galileu Galilei, um dos maiores cientistas de todos os tempos, que recebeu uma sentença parecida da Igreja Católica durante três anos, por dizer que a Terra se movia à volta do Sol.»
Concorde-se ou não com o seu raciocínio ou as suas posições, Manuel Perez revelou ter mais classe do que todos os alunos e professores da Sapienza juntos. E isso é uma coisa que não se aprende na universidade.
Filipe d'Avillez
© SNPC - Publicado em 29.01.2008
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