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Ribeira Chã, Açores

Museu de Arte Sacra em risco de encerramento por falta de verbas

Um dos grandes legados deixados pelo Padre João Caetano Flores à Ribeira Chã (S. Miguel, concelho de Lagoa, Açores) e que até agora têm sido um dos cartões de visita daquela freguesia considerada pioneira no que diz respeito à recolha e conservação de peças do quotidiano passado, corre sério risco de se perder por falta de condições financeiras para a sua manutenção. Estamos a falar do núcleo museológico daquela freguesia que neste momento atravessa grandes dificuldades, essencialmente por falta de capacidade para manter os dois funcionários que são necessários para que possa manter a porta aberta.

Lourdes Pacheco, responsável pelos museus da Ribeira Chã, uma professora aposentada que acompanhou de perto, durante muitas anos, todos os esforços do Padre João Caetano Flores, falecido em 1998, para que os museus e o seu espólio pudessem ser a realidade que hoje são, confessa-se impotente para continuar tal obra, caso as entidades responsáveis não olhem para aquela obra de uma maneira diferente.

O Museu da Ribeira Chã, com os seus três núcleos, de arte sacra, casa-museu e quintal etnográfico com mostras de agricultura, adega tradicional e mostra de indústria, nomeadamente o cultivo e transformação do pastel e da espadana, pertence ao Centro Social Paroquial da freguesia e recebe um apoio mensal de 750 euros da Câmara Municipal de Lagoa, um subsídio que, segundo Lourdes Pacheco, não é actualizado há três anos e que se mostra insuficiente para os encargos de pessoal.

Posta perante a eventualidade de encerrar esta actividade, e depois da notícia divulgada pela Rádio Atlântida, Lourdes Pacheco afirmou ao jornal Correio dos Açores que esta será a última alternativa porque tanto ela como a paróquia e toda a população da Ribeira Chã estão interessados em que tal memória não se acabe desta maneira, porque ainda hoje, e segundo referiu, são os museus que levam àquela freguesia um número considerável de pessoas, incluindo muitas visitas de estudo e muitos turistas. Entre os muitos visitantes ilustres do Museu conta-se José Hermano Saraiva que ali gravou um dos seus programas A Alma e a gente, dedicado à cultura do pastel, uma das grandes fontes de riqueza dos Açores, no início do povoamento e até ao ciclo da Laranja.

Foto
Ribeira Chã

Para uma freguesia pequena como a Ribeira Chã, diz Lourdes Pacheco, trata-se de uma tarefa pesada, na medida que em aquele centro tem à sua responsabilidade o jardim infantil e o centro de idosos. Mesmo assim, para o Museu, têm sido apresentadas diversas candidaturas e já têm sido feitos investimentos nos edifícios, na sua conservação e restauração.

Por dificuldades de pessoal, não tem sido fácil manter e mostrar em condições todo aquele património e Lourdes Pacheco faz questão de dizer que nem sequer pretende criticar as opções das entidades, mas sensibilizar quem de direito para a necessidade de um olhar diferente para aquela obra. Afirma mesmo que da parte da Junta de Freguesia, compreende que a resposta seja a de também não tem meios para ajudar e que o único apoio recebido nos últimos tempos tenha sido um livro sobre a Ribeira Chã que está nos Museus e que tem servido para divulgação das potencialidades da mesma freguesia.

Mesmo com dificuldades, os sonhos não morrem e neste momento está em marcha a criação de um posto de recepção de turismo, uma biblioteca e a sede do centro social. O que falta é dinheiro para o pessoal, porque os museus, segundo diz a sua responsável, não podem viver com elementos esporádicos dos programas de emprego, como o OTL e outros, porque são muito sazonais e não dão estabilidade nem qualidade de serviços que se requer para fazer as visitas guiadas.

Para além de um aumento por parte da Câmara, pretendem ainda um acordo de cooperação por parte da Direcção da Cultura que até agora só têm apoiado esporadicamente.
Lourdes Pacheco refere como elemento positivo o interesse da Câmara da Lagoa que faz deslocar àqueles museus todos os grupos que se deslocam ao concelho nos intercâmbios que são desenvolvidos, mas espera que os apoios possam ser reforçados.

Visão um pouco diferente tem a autarquia de Lagoa, cujo presidente, ontem mesmo, disse ao jornal Correio dos Açores que aquele núcleo museológico está nas preocupações camarárias e tem sido apoiado na medida do possível, mas tem de ser a sua direcção a conseguir os meios para a sua manutenção. No entanto, João Ponte afirmou que a Câmara da Lagoa já fez saber junto de quem de direito que está disposta a assumir maiores responsabilidades financeiras, desde que fique envolvida na gestão dos mesmos museus, de acordo com uma proposta que já foi apresentada.

Até lá, e para que não feche a obra iniciada pelo padre João Flores, vai ter de haver muita ginástica.

Santos Narciso

in Correio dos Açores

28.03.2008

 

 

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