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Concórdia

Os nomes da paz

A paz é uma tarefa em permanente estado de incompletude.

Às vezes estamos mais perto dela. Outras vezes, as distâncias agigantam-se e perde-se em meses o que se conquistou em décadas.

Temos hoje, ainda, tendência a pensar a paz e a guerra apenas no plano das relações internacionais. Milhões de homens anónimos, uniformizados, deslocando-se em poderosas unidades fortemente armadas, divisões, exércitos inteiros, atravessando fronteiras, com licença para tirar a vida e destruir a propriedade e os bens de outros milhões de seres humanos, que jamais viram ou encontraram, de quem nenhum teve razões de queixa pessoal.

Mas a guerra começa antes disso, inicia-se na alma de cada um. Os grandes filósofos clássicos da política, de Aristóteles a Hobbes bem o souberam e bem o escreveram.

A guerra começa na incapacidade de compreender o direito do outro à existência, ao acesso aos bens vitais mais elementares, ao direito à integridade e à diferença. É verdade, que a violência pode eclodir numa situação de míngua e escassez. Naquilo que os juristas chamam “estado de necessidade”. Mas na maioria dos casos, a violência resulta de uma perversa combinação de paixões sombrias, não disciplinadas pela razão e pela autocontenção: a inveja, a desconfiança, o desejo tolo de supremacia.

A guerra começa assim sempre como guerra civil. Não sé dentro dos países, entre pobres e ricos, entre urbanos e rurais, entre membros desta ou daquela confissão religiosa, mas dentro da própria casa, na violência doméstica, na inqualificável agressão sobre os membros fisicamente mais frágeis da família.

Como sempre a paz, ao contrário da guerra, não surge do desleixo e da preguiça, mas sim do empenho, do esforço, da imaginação institucional, da persistência, das boas políticas públicas.

A paz começa com políticas de promoção do rendimento dos menos favorecidos, com políticas de formação dos que tiveram menos oportunidades educativas, com políticas de incentivo à participação cívica daqueles que nem se sentem membros das comunidades a que pertencem, com medidas de defesa dos ecossistemas que são a base da casa viva que os humanos habitam.

A paz fortalece-se com os seus próprios progressos: quando todos podem testemunhar que, com o tempo, a pobreza diminui, a ignorância cede lugar ao esclarecimento, a participação vence a apatia, a sustentabilidade prevalece sobre um efémero e predador tipo de crescimento económico, e quase todos começam a sentir o que significa ser membro duma comunidade. Isso ocorre quando as frases começam, com naturalidade, pela primeira pessoa do plural: “Nós...”.

A paz torna-se quase invencível, resistente a todos os desaires e tempestades, quando cada um se sente parte de uma narrativa onde a pluralidade dos membros de uma comunidade, de muitas comunidades, da humanidade inteira enlaçada no enredo na vida, numa trama dramática e solidária. Quando é nessa trama, nesse drama que cada vida singular, por mais breve ou longa, por mais marcante ou discreta, ganha sentido e significado.

Contudo, a paz é uma tarefa em constante estado de incompletude...

Viriato Soromenho-Marques

in Jornal de Letras, 30.07.2008

14.08.2008

 

 

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