
O primado da relação e do amor
A obra “O Primado da Relação. Da intencionalidade trinitária da Filosofia” resulta da tese de doutoramento de José Maria Silva Rosa (1965), que sugere uma ligação vital entre a Trindade e a antropologia cristã.
Sobre o livro, J. Cerqueira Gonçalves escreve que “a obra agora editada é o resultado de coragem e de uma salutar ousadia, as quais devem ser celebradas, por diversas razões, mas sobretudo por não serem frequentes: coragem, ao enfrentar, inconformadamente, a situação actual da filosofia e da sociedade; coragem, ao quebrar os limites impostos à actividade racional por uma certa tradição especulativa; coragem, por se distanciar de alguns requisitos e tendências escolares (…) que promovem a uniformização; coragem, por galgar as barreiras de consagradas fontes da filosofia; coragem, enfim, pelo facto de, ao colocar a questão da filosofia nas possibilidades de desenvolvimento desta, apontar para o horizonte de outras possibilidades, cujo estatuto é tão importante, se não mesmo mais decisivo, do que as concretizações estereotipadas da tradição ocidental. (…) É uma experiência de navegação em mar alto e desligado de amarras. Exposto e assumindo grandes riscos, não carece, porém de menos valor e legitimidade do que as viagens acompanhadas de sofisticadas guarnições. Mas é apenas uma proposta, assim não pretendam ser mais do que isso outras leituras diferentes dela.”
Da conclusão:
“Referimos (…) as palavras de Sergei Boulgakov a propósito do que considera ser a grande descoberta trinitária de Agostinho ao afirmar a Trindade como Amor e, especialmente, ao referir-se ao Espírito Santo como expressão perfeita do «vinculum caritatis». Acrescentava o autor de ‘A Tragédia da Filosofia’ que isto constituía a ‘importância perene da teologia trinitária’ agostiniana. Quando alguns dos actuais expoentes do pensamento teológico ocidental criticam Agostinho por, pretensamente, ter psicologizado a Trindade ou de ter esquecido as pessoas em Deus para se fixar na unidade da essência comum, o elogio, vindo de um autor oriental, assume ainda maior relevância. Sobretudo quanto este autor, tal como outros pensadores e místicos russos do séc. XIX e XX – v.g., Vladimir Soloviev, Pavel Florensky, Vladimir Lossky –, vem insistindo na necessidade de repensar e refundar a ontologia tradicional em chave trinitária e, nesta, pondo todo o particular ênfase na relação, no amor e na comunhão. Mais recentemente, na mesma linha de uma ontologia e de uma antropologia trinitárias, seguem as várias obras de J. Zizioulas, nas quais, recuperando a tradição trinitária dos Padres Capadócios, propõe uma visão do ser como comunhão. É todo um horizonte que se abre à ontologia, não apenas como novo pensar o ser, mas um comungar do ser. Neste sentido, ao culminarmos na pneumatologia da comunhão que coroa ‘De Trinitate’, mais do que a uma conclusão chegámos a um ponto-de-fuga da investigação, indicando como a mesma poderá ser prosseguida «hic et nunc».

Reprodução de um manuscrito da Biblioteca Municipal de chartres (1366).
Os três círculos foram entrelaçados de tal modo que, cortando qualquer deles, imediatamente os outros dois ficam desligados
De facto, se é verdade que, num conspecto genérico, o pensamento ocidental esteve mais atento aos resultados estabilizados dos processos de unificação e de universalização (o que é válido para a Teologia, para a Filosofia, para o Direito ou para a Ciência) do que aos dinamismos de diferenciação e às funções de relação que possibilitavam aqueles processos, sente-se cada vez mais hoje a necessidade de uma ontologia insubmissa às métricas canonizadas, nómada e dançante, atenta ao que está entre, ousando afirmar que a relação, a simbiose, o lugar, o tempo, a acção, a comunidade, o encontro, a amor, a ternura, a comunhão são modalidades de ser ontologicamente originárias, não derivadas nem «petites servantes». Se é verdade que a ontologia clássica pôs a tónica no sujeito e no predicado, urge interpretar o substantivo e o adjectivo abrindo-se ao Verbo, i. é, à relação em acto, longe contudo da serôdias e inúteis intenções polémicas, facilmente presas nas malhas do que querem negar. é este o sentido de uma nova ontologia, que vê na génese e na essência da realidade um Aconteciment” de amor trinitário (…). Na esteira daqueles autores orientais, o projecto de uma ontologia triádica e trinitária veio-se constituindo entre pensadores alemães, italianos, franceses, espanhóis e portugueses, no último meio século, movimento que, em nosso entender, constitui hoje uma das interessantes promessas de renovação da ontologia, menos em termos de fundamentação que de orientação.
Depois de vários séculos em que, frente à razão crítica, foi remetido para uma dimensão periférica, se não irracional, o Amor vê reconhecida a relevância filosófica que, afinal, sempre deveria ter tido, ou não fora a filosofia o amor da sabedoria. O repto hoje, contudo, é não se ficar apenas pelo pensamento, de um amor da sabedoria transitar para uma sabedoria do amor. O desafio que a ontologia do amor e da comunhão lançam á filosofia é que seja fiel ao seu nome e comece a realizar «in via» o que afirma. Foi esta, aliás, a intuição de Agostinho e a inflexão decisiva que operou no livro VIII de ‘De Trinitate’. Considera Eberhard Jüngel que o homem contemporâneo ‘nã oé alérgico a Deus’, mas tão-só ‘a um Deus pensável de um modo absoluto’. E conclui a sua notável obra reiterando que na figura do Deus-Trindade, i. é, um-Deus-em-relação, se encontra o mistério do mundo enquanto espaço de pluralidade e de liberdade, virado para o futuro. É para este ícone do «mysterium» da diferenciação do real que, de modo explícito ou como um estremecimento na lonjura, o pensamento hoje cada vez se volta mais. ‘O esplêndido isolamento de um Deus transcendente e solitário não o prepara para este diálogo com o homem, o qual, na sua experiência humana e também na sua aspiração mais alta, tem necessidade de um Deus que seja capaz de dialogar. Por outras palavras: Deus deve ser trinitário ou não ser.’ (Thierry Delooz).”
Índice
I – Manifestação e Revelação
Introdução
Imagens de Deus e interpretação
Fenomenologia e teologia
Simbologia, ontologia, transcendência
De uma “fenomenologia saturada” rumo a uma ontologia
A Vida: manifestação ontológica e relacional
II – Ser, Relação e Trindade
Introdução
Substância e relação: a posição aristotélica
A experiência cristã da relação
Entre arianismo e modalismo: exigência de um pensar relacional
Teofanias trinitárias: interpretação agostiniana
A “Pessoa” no horizonte de uma ontologia relacional
Trindade e amor: «Immo vero vides Trinitatem si caritatem vides»
Conclusão
José Maria Alves Rosa
20.02.2008
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O Primado da Relação
- Da Intencionalidade Trinitária da Filosofia
Autor
José Maria Silva Rosa
Editora
Universidade Católica Editora
Páginas
568
Data
2007
Preço
€ 25,00
ISBN
978-972-54-0169-9