
Orósio de Braga: Comonitório e Livro Apologético
Por volta do ano 410, com a primeira queda de Roma, a iluminação da cena da oikoumene greco-romana desloca-se decididamente para África e para o Oriente. Chegando da longínqua periferia hispânica, Orósio de Braga entra em cena nos anos 414 a 417, ao privar com os dois protagonistas do momento: S. Agostinho, em Hipona, e S. Jerónimo, em Belém.
No rescaldo das convulsões priscilianistas da Galécia, apresenta a S. Agostinho, à laia de consulta, um breve Commonitorium de errore priscillianistarum et origenistarum. Junto do hiponense, trabalhando talvez na colação dos materiais necessários à grande mole da Cidade de Deus, escreverá também os Historiarum adversus Paganos Libri Septem, obra que lhe valerá a passagem á posteridade como “pai da História Universal” e “um dos fundadores da Idade Média”. Mas antes, com S. Jerónimo no cenóbio de Belém, envolve-se a fundo na polémica pelagiana. Dando conta dos factos e das teses aí assumidas, nos ficou o seu Liber Apologeticus.
O que se propõe nesta obra ao leitor de hoje é um vivacíssimo instantâneo dos reflexos suscitados entre os antigos bracarenses pela atribulada efervescência doutrinal que precedeu o cristalizar das principais formulações da mundividência cristã. No Comonitório palpitam ainda os primeiros esboços sobre Cristo e a Trindade. No Apologético, pode observar-se de perto a génese da problemática da Graça, já então a esboçar-se nos traços essenciais com que atravessará toda a história do pensamento cristão; quer emergindo na teologia propriamente dita, como na controvérsia moderna de auxiliis, quer na literatura, com as personagens de um Bernanos e de um Graham Greene.
Fragmento do Livro Apologético
1. Em ser-se sem mancha, porém, fala a Escritura a cada passo, O que diz David: Felizes os que caminham sem mancha, os que andam na lei do Senhor (Si 118, 1), tenho por mim ser cousa de sã doutrina, pois que verdadeiramente felizes serão os que caminham sem mancha, isto é, os que de fé perfeita se adiantam na verdade, sem se desviarem no erro da heresia, nem para a esquerda nem para a direita.
2. E o caminho é Cristo que, pelo Espírito Santo, conduz ao Pai. Portanto, aquele que sem mancha ou lepra alguma, nem tocado por esses cuja palavra rasteja como o cancro (2 Tim 2, 17), ouve, crê e entende a glória da Trindade adorável, esse é que permanece imaculado e feliz na fé.
3. Pelo que também a Abraão foi dito: Caminha na minha presença e sê sem mancha. (Gn 17, 1). Por força maior, com efeito, se exorta Abraão - que acreditou em Deus, e tal lhe foi tornado por justiça (Ro 4, 3 e 22); e em estando naquilo em que acreditou, viu-o e alegrou-se (Jo 8, 56) - a ser perfeito e sem mancha; ele que foi constituído na fé pai de muitos povos e seio dos que crêem, a ponto de descansarmos com o fiel Abraão todos os que esperamos em Deus.

4. Felizes os que caminham sem mancha (Sl 118, 1), está escrito; é pela fé na verdade, que caminhamos, não pela visão (I Cor 5,7). Mas se algo quereis ouvir a respeito do imaculado sobre quem se interroga David em sua oração, deponde a vã confiança em vossas forças e, prostrando-vos, juntai-vos com vossas preces à oração do profeta, chorando com ele e dizendo:
Os delitos, quem nos vê? Dos ocultos, lavai-me, Senhor; e dos outros livrai o vosso servo. Se não me dominarem, com efeito, serei sem mancha (Sl 118, 13 - 14).
5.Como evitarei eu, um homem desventurado, delitos que ainda não conheço? Ama a Cristo, Pedro, e nunca se arreda de seu amor; e eis que em prova do amor do Senhor, ora nos é dado por pedra e fundamento da Igreja, ora infamado com o nome de Satanás (Mt 16, 23). Por uma só e mesma acção, ao agente que a pratica, ora se diz: não to revelou nem a carne nem o sangue, mas meu Pai que está nos céus (Mt 16, 17), ora se arremete: não sabes as cousas de Deus mas as dos homens (Mt 16, 23).
6. Por amar, foi eleito o apóstolo, e por amar foi confundido, pecando à conta de seu muito amor. Porque na impaciência de muito amar dissera ao Senhor, que lhe anunciava sua paixão: Sede-vos propício Senhor; tal não vos há de acontecer (Mt 16, 22).
Índice
I – O Corpus Orosianum
II – O autor e o seu ambiente – De Braga a Hipona
III – Os acontecimentos à volta da composição – De Hipona a Jerusalém
IV – O constexto filosófico-teológico – Ascese e soteriologia
V – Comentário
VI – Premissas da versão portuguesa; o Comonitório; o Livro Apologético
José Carlos de Miranda
28.02.2008
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Comonitório
Livro Apologético
Autor
Orósio de Braga
Edição crítica - Bilingue
José Carlos de Miranda
Editores
Alcalá
Faculdade de Teologia - UCP
Centro Cultural Franciscano
Páginas
276
Data
2005
Pedidos e informações
Livraria da UCP
Telf. 21 721 40 24
ISBN
972-8673-31-0