
Os arquivos do espanto
Na lotadíssima estalagem editorial a Teologia tem encontrado na Assírio & Alvim a sua solitária mas confortável manjedoura. Com boa vontade, se o Homem quiser, a obra sonha e Deus nasce. É então possível encontrar no mercado edições que nos enviam até à Bíblia com outro objectivo que não o de desencantar ao Messias namoricos ocultos ou vocações papais em Judas. O bom senso agradece.
Como explicar que a Bíblia permaneça tão desconhecida? Uma das virtudes de “A Leitura Infinita” está em discernir que melhor que responder á pergunta é contrariar a premissa que a permite. Abre-se aqui o apetite para a sua leitura. E a capa, inspirada na passagem em que ao profeta Ezequiel é ordenado que ingira o rolo das Escrituras, torna-se reveladora. Como diz José Tolentino Mendonça, “a Bíblia é para comer”.
Inspirado pela asserção de Blake, que identifica a Bíblia como “o grande código da cultura ocidental”, o labor de José Tolentino Mendonça permanece apologético. Todavia, se julgávamos que as palavras desceriam ríspidas do púlpito, surpreende-nos que o sermão se entrelace em todos os outros livros e não num fechamento autolegitimador de monoleituras. A doçura do pregador derrete a indiferença persistente que tem estendido o manto da susperita sobre as Escrituras Sagradas dos cristãos.
Hermeneuticamente persuadida, a congregação é levada a reconhecer: “Desconhecer a Bíblia não é apenas uma carência do ponto de visa religioso, mas é também uma forma de iliteracia cultural, pois significa perder de vista uma parte decisica do horizonte onde historicamente nos inscrevemos.”
O momento não é novo. Já do outro lado do Atlântico, Camille Paglia dizia que a grande arte pode nascer tanto do amor à religião como da rebelião a ela. Alertava contudo que uma sociedade totalmente secularizada e com fobia à fé afunda-se num materialismo preguiçoso e sem viço artístico para o futuro. O mister de Tolentino é o mesmo – se não lermos o texto fundador, não lemos texto algum.
O que é a leitura da Bíblia senão “ampliar os arquivos do espanto”? Não nos esclarecem as memórias ingratas da catequese mas este volume, límpido na convicção de que “linguagem é o teatro de Deus”. “A Leitura Infinita – Bíblia e Interpretação” clarifica que Borges não inventou nada. Chamemos-lhe labirinto ou peregrinação: neste Verão temos boas razões para uma longa caminhada. Que as léguas se meçam na medida da Teologia é uma deliciosa ironia que só os Céus poderiam inventar.
Artigos relacionados
A Leitura Infinita: A Bíblia, lugar de reflexão sobre as raízes da nossa civilização
O sublime e o quotidiano
Tiago Cavaco
in Ler, Julho 2008
15.09.2008
Topo | Voltar | Enviar | Imprimir
![]()

