Vemos, ouvimos e lemos
Teatro

Padre António Vieira: o céu na terra

O simples desejo de retratar a vida e obra do Padre António Vieira numa peça de teatro foi, talvez, o que moveu Filomena Oliveira e Miguel Real a assinarem esta produção que tem lugar num cenário tão majestoso quanto a obra do padre jesuíta. As ruínas do Carmo, monumento edificado no século XIV e que começou por ser um convento carmelita, são um palco privilegiado mas digno desta produção e da grandiosidade da obra de Vieira: “Tão majestosa é a sua obra que não sabemos o que dela havemos de pensar. Se um pedaço do céu na terra, se uma obra humana igualada á eternidade”.

Desta ligação entre o céu e a terra, ou entre o intemporal e o temporal, vem o título deste espectáculo, que pretende não só retratar a figura do Padre António Vieira, mas também o próprio tempo histórico. Se cabe a Filomena Oliveira a encenação, Andrej Kowalski assina a cenografia. Um trabalho conjunto, de modo a se conseguir alcançar uma tão desejada unidade entre som, imagem, voz e representação, numa produção que partirá em digressão rumo ao Brasil.

Desde as suas capacidades retóricas, hermenêuticas, filosóficas, teológicas, diplomáticas ou históricas, é impossível desligar Vieira do tempo em que viveu: 2ª figura do Padre António Vieira emerge deste ambiente histórico, evidenciando uma fabulosa singularidade”. Homem do barroco, Vieira foi um viajante e na sua vida Filomena Oliveira e Miguel Real encontraram matéria de criação: “Esta é uma peça de teatro, não um recital de declamação. Existem conflitos dramáticos, como em todas as peças, mas, claro, em uma ou outra parte, Vieira subirá ao púlpito e praticará a sua espantosa oratória.”

Ainda hoje a metáfora de Vieira do teatro do mundo nos faz reflectir. As relações sociais continuam tão complexas como no seu tempo e nas suas reflexões encontramos, continuamente, o novo e uma fonte inesgotável de conhecimento.

 

Vieira, o homem e o pensador

“Padre António Vieira foi o português mais fracassado de todos os tempos. Nada do que sonhou se cumpriu, todas as suas profecias se frustraram, todos os seus planos políticos se goraram e toda a sua glória foi póstuma”. Assim definem Filomena Oliveira e Miguel Real, em poucas palavras, o destino de u homem que se viu, até ao fim dos seus dias, apreciado como orador, apesar de votada a sua obra e o seu papel na sociedade ao esquecimento. Tendo sido o mais famoso pregador religioso português, homem de muitos ofícios – missionário, diplomata, político, orador, escritor -, a sua imaginação social e as suas práticas religiosas, sociais e políticas são indispensáveis à compreensão do século XVII. A construção de uma sociedade livre, sem fronteiras, era apregoada através de uma retórica única onde o sermão, os bons exemplos e as boas práticas vigoravam. “Padre António Vieira nunca recuou perante os aleijões do seu tempo e nunca deixou de denunciar os poderosos que se alimentavam do trabalho alheio”, acrescentaram Filomena Oliveira e Miguel Real. A denúncia social contra o tratamento dos negros ou a exploração e escravização dos índios no Brasil fizeram dele um visionário, aquele que acreditou também na ressurreição de reis e num Império Mundial sediado em Lisboa. Convicções que o levaram a ter de se confrontar com a Inquisição. Vieira arriscou tudo mas profetizou a utopia, não apenas enquanto quimera, mas como acto realizável.

 

Pintar com luz as ruínas do Carmo

Andrej Kowalski quis tirar o maior partido do facto de a peça se realizar nas ruínas do Carmo. “Em termos estéticos é uma construção de climas, de ambientes e, claro, a utilização das ruínas do Carmo como cenário total. Neste espectáculo o espectador pode contar com uma recriação através do vídeo dos vários ambientes onde viveu o Padre António Vieira – o Brasil, a Bahia, a Corte”. Adaptar o cenário desta peça às ruínas do Carmo foi uma experiência enriquecedora: “Vamos pintar com luz (vai ser muito importante o trabalho do Orlando Worm, no desenho de luz) o Convento do Carmo e através da utilização de um tule, onde serão projectadas imagens que envolvem todo o espaço, criar uma terceira dimensão através da luz e da sombra”.

Mandado construir em 1389 pelo Condestável D. Nuno Álvares Pereira, onde ingressaram, pouco tempo depois, frades carmelitas de Moura, no dia 1 de Novembro de 1755 grande parte do convento ruiu com o terramoto.

 

A Lisboa do Quinto Império

A peça privilegiou na sua construção cénica os ambientes brasileiros e lisboetas do século XVII. Neste sentido participará na narrativa uma personagem negra, representante dos escravos dos engenhos do Recôncavo bahiano, em cujas capelas Padre António Vieira invectivou os poderosos senhores do açúcar, exigindo um tratamento humano para os escravos. Também marcará presença uma personagem índia, representante das tribos tupi, habitantes nativos do Maranhão e Grão-Pará, salvos da escravização e extinção devido ao empenho missionário de Padre António Vieira e outros jesuítas.

É, porém, a atmosfera revolucionária da Restauração em Lisboa, que, ausente-presente, se faz sentir em “Vieira – O Céu na Terra”. Lisboa, hoje desenhada verticalmente ao Tejo, seguia então paralela ao rio, as suas acompanhavam os declives naturais (as colinas, os vales). Mais do que outro símbolo urbano, eram as igrejas e conventos que marcavam os lugares de Lisboa – e Padre António Vieira proferirá partes de sermões declamados nas Igrejas das Chagas, de Conceição Velha e de S. Roque, igreja dos jesuítas. Dificilmente se daria um passo de uma rua para outra que não se deparasse com uma igreja, uma capela ou, na linha do horizonte, uma ermida. No lado oriental, a capela de Nossa Senhora da Penha velava pelos lisboetas; do ocidental, São Mamede, o santo abençoador dos rebanhos que pastavam às portas da cidade. Pela cidade, dezenas de igrejas, que nenhum bairro se sentia bairro sem que tivesse o seu santinho protector, o seu pároco particular, que baptizava os meninos, casava os jovens, consolava os adultos e amortalhava os velhos no caixão. As casas dificilmente ultrapassavam os quatro andares, todas elas com quintais, algumas com curtos jardins, cravadas umas nas outras compondo um labirinto de ruas e ruelas estreitinhas por que dificilmente passava uma carroça larga ou uma carruagem. Burros e escravos eram os grandes carregadores da cidade. Escravas carregadoras de água para as casas das suas senhoras alinhavam-se junto ao chafariz do Terreiro do Paço, encimado pela estátua de Apolo, o Belo, ou junto ao chafariz do Rossio, muito gaiteiro com a sua estatueta de Neptuno, Rei dos Mares.

Escravos comprados nos mercados de Marrocos, antigos presos condenados às galés, embarcadiços caídos em desgraça. Nos velhos buracos da colina de Alcântara, que a escavagem e a explosão tinham aberto para a exploração das pedreiras que alimentavam as obras de Lisboa, acolhiam-se escravos velhos ou defeituosos atirados para a rua pelos seus antigos amos; ali viviam em cavernas ou grutas, dando origem, mais tarde, ao famoso mocambo ou quilombo de Alcântara, coutada de negros fujões do século XVIII. Não terá sido esse certamente o destino de Nestor, o escravo acompanhante do Padre António Vieira; nem o Poço dos Negros, recolha obrigatória dos mortos dos pretos, e onde ao sábado a Câmara despejava cinco baldões de cal a ferver sobre os corpos em apodrecimento.

Cénica, Lisboa oferece-se a Padre António Vieira como lugar da existência futura do Quinto Império. Mas é para o Brasil, para o sertão, entre negros convertidos e índios a converter, que o seu coração pulsa.

 

A peça

"Vieira – o Céu na Terra" evidencia a actividade profética de Padre António Vieira e a sua intransigente defesa das profecias do Bandarra e do Quinto Império como união de todos os povos num reino cristão de justiça, amor e abundância; a actividade de pregador, como o mais insigne orador português, bem como o seu afã de justiça social, corroborado na denúncia contra o tratamento dos escravos, tratados como animais de carga, exigindo dos donos das canavieiras de açúcar um tratamento humano para os negros; na denúncia contra a exploração e escravização dos índios do Brasil promovida abundantemente pelos colonos brancos, e a sua defesa do judeu e cristão-novo. Esta última actividade tornou-o suspeito da Inquisição, tendo sido preso e condenado por este Tribunal.

A peça estará em cena de 18 de Julho a 16 de Agosto, de 3.ª a sábado, às 22h00, no Teatro Nacional D. Maria II (Lisboa). A duração do espéctáculo é de 1h20 e o preço único é de € 10,00.

Teatro Nacional D. Maria II | rm

11.07.2008

 

 

Topo | Voltar | Enviar | Imprimir

 

 

barra rodapé

Padre António Vieira
Portinari

























































































































































Edição mais recente do ObservatórioOutras edições do Observatório
Edição recente do Prémio de Cultura Padre Manuel AntunesOutras edições do Prémio de Cultura Padre Manuel Antunes
Quem somos
Página de entrada