
Se queres a paz, vai ao encontro dos pobres
“Gostaria de chamar a atenção para a ameaça à paz derivada da pobreza, sobretudo quando esta se transforma em miséria. São milhões as crianças, as mulheres e os homens que diariamente sofrem de fome, de insegurança, de marginalização. Tais situações constituem um grave insulto à dignidade humana e contribuem para a instabilidade social.” (1)
Um Estado, independentemente da sua ideologia e sistema económico, será sempre frágil e instável enquanto não demonstrar uma atenção contínua aos mais débeis. A posição da Igreja sobre esta questão refere que os bens da Terra são destinados a todas as pessoas, não podendo ser reservados para exclusivo de poucos (2).
A correcção dos desequilíbrios na distribuição da riqueza não poderá ser conseguida apenas com os mecanismos económicos do mercado. É preciso que as sociedades se mobilizem em torno deste objectivo e que as nações trabalhem em coordenação, já que nenhum país poderá realizar sozinho esta empresa.
Sucedem-se frequentemente reacções de violência quando não se reconhece o direito a suprir as necessidades pessoais e familiares. Afectando particularmente os jovens, o desemprego, não raras vezes originado pela destruição das infra-estruturas que decorre das guerras e dos conflitos internos, é fonte de empobrecimento de famílias inteiras.
Num mundo aparentemente paralelo, mas muito distante deste que enunciámos, assiste-se ao desenvolvimento da sociedade de consumo, que se arrisca a ficar cega diante das necessidades básicas de muitos milhões. “A moderação e a simplicidade devem tornar-se os critérios da nossa vida diária” (3), dado que podem contribuir para aliviar a pobreza e para reduzir a excessiva procura de necessidades artificiais face aos recursos disponíveis. A este respeito, João Paulo II recorda as palavras da Bíblia: “Não acumuleis tesouros na Terra, onde a ferrugem e a traça os consomem, e onde os ladrões furtam e roubam; acumulai, antes, tesouros no céu” (4). A pobreza evangélica sugerida neste trecho não se confunde com a económica e social; esta tem características cruéis, ao passo que a primeira é livremente escolhida pela pessoa que, escutando as palavras de Cristo, opta por renunciar ao que possui para se fazer discípulo do Mestre (5).
A existência de quem escolhe a pobreza evangélica é inspirada por Cristo, que, despojando-se de Si, viveu na pobreza e não teve onde reclinar a cabeça. Ao mesmo tempo que chamou bem-aventurados aos pobres e lhes assegurou o Reino de Deus (6), afirmou que as riquezas sufocam a Palavra (7) e que aos ricos é muito difícil virem a entrar no Reino (8).
Neste sentido, a vida cristã é chamada a ser modelada por uma justa relação com Deus, os outros e a criação, tornando-se testemunho da dependência da humanidade face ao Criador; os bens materiais, por seu lado, não são considerados como objectos que é necessário acumular, como se deles dependesse a verdadeira felicidade, mas como um dom de Deus para o proveito de todos. Ao colocar a sua vida nas mãos da providência divina, aqueles que vivem a pobreza evangélica estão mais predispostos a sacrificar os seus bens e as suas próprias vidas, a fim de que outros vivam.
No dia do juízo universal, o critério de avaliação será o amor aos irmãos, onde todos podem encontrar a Cristo, ainda que nunca O tenham conhecido (9).
(1) Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 1993 (João Paulo II).
(2) Cf. Encíclica Centesimus Annus (João Paulo II), n.ºs 31 e 37.
(3) Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 1993.
(4) Mt 6, 19-20.
(5) Cf. Lc 14, 33.
(6) Cf. Lc 6, 20.
(7) Cf. Mt 13, 22.
(8) Cf. Mc 10, 25.
(9) Cf. Mt 25, 35-37.
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A partir da Mensagem do Dia Mundial da Paz de 1993, João Paulo II
© SNPC - 23.05.2008
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