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Tradição e contemporaneidade

Casa da Música e regresso à Baixa mudam a cultura urbana do Porto

A praça da Casa da Música, Serralves e os seu jardins, a fachada imponente do Teatro Nacional São João, as galerias de arte da Rua Miguel Bombarda ou as lojas da Rua do Almada. A cultura urbana do Porto pode ser encontrada um pouco por todos estes locais da cidade que, apesar de distintos, têm em comum o facto de contribuírem para a criação de uma nova identidade cultural portuense. E com a proliferação de novos espaços mais alternativos e ecléticos, que se concentram cada vez mais na Baixa da cidade, a cultura urbana do Porto começa a adquirir novos contornos.

"O Porto tem um conjunto de espaços culturais significativos, que poucas cidades europeias podem ter", realça o sociólogo da Faculdade de Letras da Universidade do Porto (FLUP) João Teixeira Lopes. Para este especialista, a identidade cultural da cidade reflecte-se em novos e velhos ícones. Os mais institucionais, como os museus e teatros, e os mais alternativos, como os novos espaços no centro da cidade.

Locais como a Rua de Miguel Bombarda, com galerias de arte e centros que unem comércio e cultura, novos projectos como o Plano B, na Rua de Cândido Reis, ou nas ruas limítrofes da Galeria de Paris e José Falcão (ver texto abaixo), sem esquecer as lojas na Rua do Almada, representam a "cultura emergente da cidade". "São espaços multiusos, ligados a privados ou associações, que servem para tudo um pouco", explica João Teixeira Lopes. Peças de teatro, perfomances, concertos, ciclos de cinema e exposições são iniciativas frequentes nestes lugares.

Segundo o sociólogo, especializado em sociologia da cultura, estes espaços mais "ecléticos e experimentais" surgiram como uma "reacção à ressaca cultural pós-Porto 2001". "A capital europeia da cultura não teve continuidade", diz o especialista, referindo que, depois daquela data, deixou de haver investimento na cultura. Mesmo assim, a cidade conseguiu reagir com a criação destes espaços que unem arte, comércio e diversão, contribuindo para uma nova imagem da cultura urbana portuense. "O que falta agora é que exista uma ligação entre esta cultura emergente e a cultura institucional", aponta o sociólogo. "Por exemplo, convidar as pequenas companhias de teatro a fazer apresentações no Rivoli", completa.

Outro espaço que está a contribuir para a produção de cultura no Porto é o edifício de Rem Koolhaas. "A Casa da Música é já um ícone da cidade e é uma representação de que o Porto só tem a ganhar ao apostar numa identidade cultural forte", diz João Teixeira Lopes, sublinhando também o trabalho de formação de públicos que a Casa da Música tem feito junto a escolas e comunidades. O investigador do Instituto de Sociologia da FLUP Virgílio Borges Pereira partilha da mesma opinião, defendendo que a Casa da Música é fundamental para a criação de uma "nova imagem da cultura urbana do Porto". A praça da Casa da Música é, por si só, um espaço de cultura urbana. Consegue unir "miúdos de classes populares" que aproveitam o pavimento para andar de skate, "pessoas sentadas nas escadarias a conversar" ou outros ainda que se deitam nas curvas da praça para ler ou descansar, salienta João Teixeira Lopes.

 

A vanguarda convive com a cultura popular

Se os novos ícones culturais da cidade ilustram um certo cosmopolitismo e vanguardismo próprios das grandes cidades europeias, o Porto ainda guarda traços da cultura popular ligados ao centro histórico, à Ribeira e ao Douro - outros elementos que distinguem a cidade.
"As praças, o Bolhão, a Ribeira representam a cultura popular do Porto", que se manifesta também na "ocupação do espaço público com festas", exemplifica João Teixeira Lopes. A cidade é, por isso, "um laboratório vivo de património arquitectónico e humano". "O Porto é esta mistura, uma mescla entre culturas emergentes e culturas populares", observa o sociólogo.

Já para o investigador do Instituto de Sociologia da FLUP, "as culturas populares permanecem resistindo". Virgílio Ferreira Borges vê uma ligação entre a cultura urbana e a popular, mas acredita que esta última já teve melhores dias: "O seu lado mais visível é o da memória das suas manifestações, num quadro de perda."

"O Porto tem que saber criar novos símbolos culturais sem esquecer os velhos", explica João Teixeira Lopes, considerando que hoje em dia "há uma tendência para cidades genéricas, todas iguais". Neste cenário, diz o sociólogo, "conta mais o que é específico e local". "O Porto é uma mescla entre culturas emergentes e culturas populares",

 

Compensa ocupar espaços no centro do Porto

Um espaço na Baixa do Porto compensa. A ideia é partilhada por responsáveis de novos estabelecimentos que se dedicam a actividades culturais e à diversão nocturna ou ao comércio. Veja-se o caso das ruas da Galeria de Paris, Cândido dos Reis ou José Falcão! A ausência de projectos institucionais tem sido preenchida por iniciativas privadas.

"Há dois ou três anos as pessoas tinham medo de andar por aqui à noite; agora há muito movimento", conta Rita Maia, gestora do Plano B. Esta associação cultural da Cândido Reis surgiu em 2006 pela mão de dois arquitectos e um artista plástico. "Os fundadores gostavam da zona", diz Rita Maia, "e achavam que esta área da cidade estava bastante abandonada." O edifício do início do século XX foi um armazém de tecidos e é agora um ponto de referência na rota cultural e nocturna portuense. Rita Maia está convencida de que, por ter sido um dos primeiros a surgir, o Plano B teve influência em chamar novos projectos para o centro. Contando com uma programação de música regular e uma galeria com exposições que privilegia trabalhos de novos talentos, o Plano B é também um bar, uma discoteca, seja o que for que se lhe queira chamar. Já promoveu ciclos de cinema e um festival de rua. A primeira edição do Se Esta Rua Fosse Minha... "superou as expectativas em termos de público e propostas", refere. O festival tem a segunda edição marcada para o dia 4 de Outubro e, desta vez, vai contar com algum apoio logístico da câmara municipal. O mais curioso é que, "no ano passado, [a câmara] nem queria deixar fechar a rua", recorda.

A Rua de Cândido Reis também alberga a Gesto Cooperativa Cultural, que existe há mais de 20 anos e que há pouco se mudou para aquela zona, na tentativa de "criar uma relação mais aberta com a cidade", explica José Paiva, membro da direcção. Para o responsável, "há um pulsar de energia e criatividade, com ideias novas e irreverentes", afirma, realçando que são "as próprias pessoas da cidade" que fazem parte desta renovação cultural e "não as instituições".

Na Rua Galeria de Paris, paralela à Cândido Reis, funciona desde 2007 um bar que pretende ser uma sala de estar, em que o cliente tem à sua disposição uma biblioteca que tanto inclui romances como policiais (o que soa bem numa antiga livraria). O centro foi o local escolhido para a Casa do Livro por causa da "arquitectura e envolvência" e pela crença de que "a Baixa pode crescer", diz Zé Pedro Maia, um dos proprietários. Depois do Plano B e da Casa do Livro, surgiram outros projectos, quer ligados à actividade cultural, quer à diversão nocturna. A concentração de lojas, galerias ou bares transformou esta área num inesperado pólo de animação, numa cidade que se queixava da desertificação do seu centro.

Alice Barcellos

in Público, 07.08.2008

08.08.2008

 

 

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