
Mil portugueses ao encontro das culturas. Três histórias de missão
"Ide, pois, fazei discípulos de todos os povos, baptizando-os" Vão. Com o mandato de Cristo na alma e uma missão mais palpável na mala: ajudar. Sem proselitismos. São portugueses, missionários, mais de mil espalhados pelo Mundo.
Na semana em que se inicia o I Congresso Missionário Nacional, o Jornal de Notícias entrevistou o Padre Manuel Durães, responsável pelas Obras Missionárias Pontifícias, que organizam o encontro, o Padre Albino dos Anjos, da Sociedade Missionária da Boa Nova, e ainda três pessoas com experiência de missão.
"Não dá para pegar numa Bíblia, chegar a uma cultura completamente diferente e começar a falar de Cristo. Isso leva imenso tempo. Uma vida..." Albino dos Anjos gere a Sociedade Missionária da Boa Nova e uns oitenta padres à distância. Oitenta dos muitos portugueses que, guiados pela fé, abandonam a terra e a si próprios para partir.
Os últimos dados disponíveis dão conta de 1024, mais mulheres do que homens, exilados nos cinco continentes. Missionários ad-gentes. E é em nome da obra deles que se realiza, a partir de quarta-feira, em Fátima, o Congresso Missionário Nacional. Sob o lema "Portugal, vive a missão, rasga horizontes". Porque ser missionário, hoje, é "estar disponível para partir para todas as situações de fronteira", explica o Padre Manuel Durães, das Obras Missionárias Pontifícias e organizador do encontro.
E partir não é só sair do país. "É partir de nós próprios". Com a fé em pano de fundo. "Não se esquece a missão da fé. Se não fosse por ela, não se aguentava as exigências que nos são colocadas", diz Albino dos Anjos, espírito aberto, contrário ao proselitismo. "A fé é o alicerce, a raiz, a força, a paciência". O edifício que sobre ela cresce é o da ajuda. "Não é fazer uma escola e converter uma malta". É apoiar o desenvolvimento, pela educação e pela promoção social.
A mensagem católica vem depois, até porque a máxima que move os missionários será sempre a de S. Paulo. "Ai de mim se eu não anunciar o Evangelho". A quem o desconhece e a quem porventura o esqueceu.
A diminuição das vocações existe, entre todos. Fruto da evolução social, fruto, até, das novas formas de família, demasiado curtas para permitir que um elemento se desprenda e parta para o outro lado do Mundo. E em resultado da independência dos países lusófonos, destino de eleição dos missionários portugueses (ver mapa). O próprio João Paulo II avisara, em 1990, que "a Missão de Cristo Redentor, confiada à Igreja, está ainda bem longe do seu pleno cumprimento".
Manuel Durães admite que a quebra de vocações é uma realidade, para toda a Igreja, ainda que Portugal seja dos países europeus com mais vocação. E ser missionário "não é fácil". É "desprender-se, largar a vida toda".
Albino dos Anjos tem padres no Japão. É um dos países mais ricos do Mundo, carregado de marginalidades. Desemprego, concorrência, suicídios. E menos de 2% de cristãos. "Só para aprender a língua é preciso um ano. Depois há a cultura, as tradições. Exige quase esquecer-se que se é ocidental". E converter? "Nem é essa a missão dos missionários. Vamos testemunhar uma fé e proporcionar meios de reflexão". Nuno Lima está em Osaka: "Tentamos ser um sinal de esperança". "Necessária como suporte de uma nova vida", completa Manuel Durães.
É verdade para o Japão, onde estão quatro missionários portugueses, para outros destinos mais procurados e para Portugal. "Há muitas situações de missão em Portugal, situações humanas degradadas", garante Manuel Durães. A começar pelos imigrantes, com os quais há várias obras (como o Serviço Jesuíta aos Refugiados).
"A missão está associada ao anúncio de uma maior vivência humana. Tratamos de elevar a humanidade". Hoje com mais de 60 anos, Manuel Durães faz o que pode por cá. Mais novo, fê-lo nas favelas do Rio de Janeiro. Tem saudades.
Dois anos sem luz e a ouvir a BBC em onda curta
Pedro não se lembra do porquê. Mas lembra-se bem do quando. Era "miudito". Foi na missa, em Lordelo, Paredes. Estava lá um missionário comboniano. "Aquilo impressionou-me. Lembro-me de ter perguntado se ele podia casar". Passados uns anos valentes, enquanto descansava entre os projectos do seu gabinete de engenharia, deu-lhe para folhear uma revista "Além-Mar" das que a mãe tinha. E fez-se luz. Leu um artigo sobre leigos. Gente como toda a gente que parte para anunciar "um reino de paz, justiça, amor".
Três anos depois, fechou a porta do gabinete que montara em casa dos pais e despediu-se da namorada com um "Vamos ver". Rumo a Moçambique. Veio outro.
"Inicialmente, o que puxa é a filantropia. Depois, com a caminhada de formação, percebe-se que há outras motivações que se tornam as fundamentais". Pedro Moreira está hoje às portas dos 35 anos. "Partir pensando que é só para ajudar as pessoas é minimizá-las". E é chegar lá e "facilmente" desanimar. Porque algumas "nem querem ser ajudadas". A motivação é "levar Jesus Cristo e partilhá-lo". E ainda bem. Sorri. "Se não fosse, não me tinha aguentado das canetas". Partiu há cinco anos. Regressou há três.
Voltaria? Gostava. E admite a confusão que foi redescobrir Portugal depois da convivência com "pessoas simples, mas que sabiam muito da vida".
A vida era em Alua, uma missão comboniana a 200 km de Nampula. Sem electricidade, nem comunicações, a BBC ouvida a crepitar em onda curta. Falar com a família acontecia uma vez por mês, quando as necessidades o levavam à cidade. A vida era, também, viver da solidariedade de Portugal. E do apoio da comunidade, missionários, missionárias e leigos italianos.
A missão tinha as condições possíveis, casa de muros robustos, nada das palhotas que os primeiros mensageiros do Evangelho conheceram, nada dos despertares matinais com pegadas de leões à porta. As palhotas, essas, são dos habitantes. "Tentamos minimizar o que nos separa deles" e, sobretudo, trabalhar com eles. Com desânimos circunstanciais, admite. "Muitas vezes as coisas não correm como a gente quer. Levamos causas europeias, queremos mudar o mundo... mas missão não é isso. É partilhar".
Hoje, trabalhador por conta de outrem, vida de casal no horizonte, lembra com carinho os dois anos em Alua. As escolas comunitárias que ajudou a construir "com o povo". Insiste. "A escola não é o mais importante. O que interessa é a atitude das pessoas". É a "inculturação": as religiões integram-se. Como Pedro se integrou no compromisso "para a vida". Hoje, dá formação a futuros leigos. E recorda vezes sem conta os serões com a criançada debaixo das árvores...
"O sorriso é igual em todo o mundo"
Nuno Lima escolheu Osaka, a segunda urbe do Japão, há nove anos. Por fascínio pela "cultura milenar". E para "crescer interiormente com o contacto". Aos 35 anos, é um dos "quatro ou cinco" missionários portugueses no rico Império do Sol Nascente. Voltar não está no horizonte. História de uma missão diferente.
O que faz um missionário no Japão, quando missão é também apoiar o desenvolvimento?
O missionário está em qualquer lugar do mundo para apoiar a todos, mas sobretudo os que sofrem. E no Japão são muitos. Cada ano são mais de 30 mil as vítimas de suicídio, um número impressionante. É um país que cultiva a perfeição e por isso conseguiu este grau de desenvolvimento. Mas há o outro lado da moeda: um número cada vez maior de pessoas, sobretudo jovens, que não consegue acompanhar o ritmo. Num tempo de crise económica, aumenta o número dos excluídos. Aqui, nós missionários tentamos ser um sinal de esperança. Nesse sentido, a Igreja aposta muito forte na educação e são muitos os infantários, escolas e universidades fundadas por missionários. E com valor reconhecido: 99% das crianças que frequentam os dois infantários das nossas paróquias não são católicas.
Uma presença muito discreta... A área das três paróquias em que trabalho tem cerca de 900 mil pessoas. Menos de dois mil são católicos. A Igreja é uma minoria, mas, através das escolas, hospitais e ONG's, tem uma presença na sociedade mais forte do que esses números podem fazer pensar.
Fale-nos do país que encontrou...
Numa palavra, diferente. Quando nos sentamos à mesa, há pauzinhos em vez de talheres; e nas ruas os sinais estão escritos com caracteres que desconhecemos. No começo, somos uns verdadeiros "analfabetos". Mas o sorriso das pessoas é igual em todo o mundo e a simpatia e gentileza dos japoneses ajuda-nos a ultrapassar as dificuldades.
É fácil adaptar-se?
Aos poucos, torna-se tão natural comer com pauzinhos como com talheres. E os caracteres começam a ter significado. Quando ultrapassamos a barreira da língua e conseguimos comunicar, apercebemo-nos de que, mesmo num país rico, há muito sofrimento: algum passa para as notícias, mas a maioria está oculto no interior de cada um ou de cada família. Daí procurarmos ser um sinal de esperança.
Conte-nos um dos seus dias.
O Domingo é dia de missa, dia para estar e falar com os cristãos. A semana é dedicada à formação dos cristãos e dos que se preparam para o baptismo. E a ouvir aqueles que nos procuram para desabafar. Tento dedicar algum tempo a "ver" o jornal. Ver, porque há muitas palavras que ainda não consigo "ler"...
Chamavam-lhe Sexta-feira por ser o dia em que o viram
Father Kofi é sereno. Cruz negra ao peito, na ponta de um nagalho branco, «t-shirt» de Manila, das Filipinas que nunca pisou. Fala com a sabedoria de quem aprendeu a ter tempo. Soletra palavras impronunciáveis que são as mais lógicas para ele. Doze anos no Gana, depois de um no Togo, a falar "ewe".
Na verdade, chama-se Francisco José Sousa Machado, é português do berço de Portugal e foi baptizado Kofi porque, "decerto", era sexta-feira no dia em que pela primeira vez o viram junto à barragem de Akosombo, na região do Volta. "Sexta-feira", porque é assim que se chama quem nasce à sexta-feira. Coincidência, o calendário de 1962 revelou-lhe que nasceu mesmo numa sexta. "Kofi".
Francisco alterna a simplicidade do tratamento por "tu" com a respeito do "você". Simplicidade. Recebe-nos no Seminário dos Missionários Combonianos da Maia, Daniel Comboni inscrito em todas as paredes, Jesus Cristo na ponta da língua.
"Tudo se resume a Jesus Cristo. É a dimensão que nos leva e nos orienta lá, num estilo de vida completamente diferente do daqui". E que o fez aguentar as reacções negativas das aldeias do Gana. Branco é branco, dominou durante eternidades, agora superiores são os indígenas. Por estas e por outras é que o primeiro passo deste missionário foi familiarizar-se como "ewe". "É importante, mesmo com erros, falar a língua deles". Porque um missionário "vai para trabalhar com as gentes. Não para. Com".
Evangelizar e desenvolver. Sem ordem de prioridade. "Não há evangelização sem desenvolvimento humano, nem este é, para nós, completo sem a evangelização. Porque quem acredita é a pessoa. E ela não pode falar de estômago vazio". Reconhece. "Um missionário não chega a falar de Jesus Cristo. Chega e tenta perceber quem são as pessoas. Depois, com elas, vê: 'Do que é que nós precisamos aqui para viver?' Não VÓS. NÓS". E isso é também esquecer as necessidades ocidentais.
Kofi fala de "uma nova infância". Uma casa sem luz, sem água. As pernoitas nos albergues de adobe das gentes. Edificar com as próprias mãos. A vida e o que há nela. A torre da igreja é obra dele. "Sozinho! Tinham medo das alturas". Escolas, jardins de infância para acolher as crianças e dar tempo aos pais para trabalharem no campo. "A pobreza é muitas vezes não ter capacidade de se organizar".
A missão de Francisco era numa paróquia de mais de cem aldeias, espalhadas outros tantos quilómetros de mato. O projecto é ensinar a construir, tal como no Gana se faz, de geração em geração. Juntar as pessoas na criação de abastecimento de água, pagar-lhes, formá-los. "Para nós isso já é evangelização".
Depois há o caricato. "Por que é que estás cá? Por que fazes isto? Não te pagam... Por que não tens mulher?" Francisco oferece-nos uma dos seus sorrisos de serenidade. "Nas aldeias, diziam-me: 'Toma a minha filha para tua esposa!"
Por fim, há o ecumenismo. O mundo rural do Gana vive arredado da maioria cristã (católica e protestante). "Havia menos de 1% de cristãos" na região do Volta. O missionário conta a religião tradicionalista. Vodu, onde "tudo é Deus". Teve que aprendê-la, conhecer o domínio, o transe, a vingança latente. "Evangelização é antes de tudo o relacionamento com o outro e o diálogo no respeito". Como escreveu Comboni, "Salvar a África com a África". E vestir uma sotaina de cores berrantes. Integrado.
Regressado à Maia há um ano - "Custou-me. Mas era preciso aqui" -, Francisco alimenta a sabedoria aprendida com livros escritos em "ewe" por missionários alemães. E partilha tudo o que trouxe. Como os outros. A «t-shirt» é do Padre Alberto. Trouxe-a da missão nas Filipinas.
Ivete Carneiro
02.09.2008
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