
Saiu à rua uma das mais antigas procissões do país
O veredicto é de Graça Maria Xavier: "A procissão do Senhor dos Passos do Desterro é a mais linda de todas." A moradora da Av. Almirante Reis fala com conhecimento de causa. Há mais de 30 anos que vai a todos os cortejos religiosos de Lisboa. Domingo à tarde [24 de Fevereirio] não foi excepção. A pensionista de 78 anos trouxe a vela, o véu de renda, o terço e a bengala para acompanhar uma das procissões mais antigas do País que saiu da Igreja do Desterro e percorreu as ruas da capital.
Há quem não tenha tanta certeza assim de que o cortejo do Senhor Jesus dos Passos do Desterro continue "tão bonito" como há 30 anos. "São cada vez menos as pessoas que vêm à procissão. A malta nova não quer saber destas coisas ", desabafa João Gonçalves, que todos os anos vem de propósito de Algés (Oeiras) até Lisboa para participar na procissão.
As lamúrias do idoso nem têm muita razão de ser já que ontem mais de três centenas de pessoas saíram das suas casas para assistir à procissão que foi escoltada pela banda filarmónica do Recreio Artístico da Amadora. E quem não esteve na rua, apareceu à janela ou colocou uma colcha bordada na varanda para homenagear o Senhor dos Passos.
São tradições que continuam a fazer parte do cortejo, mas que não convencem João Gonçalves: "Há coisas que não deveriam mudar nunca", censura o pensionista que não gosta destas "modernices" de ver o andor com a imagem de Cristo em cima de uma carrinha de caixa aberta.
Engana-se quem pensa que ele não sabe o quanto custa carregar o andor aos ombros: "Aquilo pesa quase 200 quilos de madeira maciça", esclarece o idoso de Algés, que, quando "era moço", foi durante "muitos anos um dos 15 homens" com a tarefa de levar a imagem de Cristo para fora da igreja.
O que vale é que a missão das mulheres nas procissões é menos pesada. São elas que decidem quando é que chega o momento certo para quebrar o silêncio com o murmúrio das orações. E são também as mais devotas que conduzem os cânticos religiosos. Basta a iniciativa de uma para as outras irem atrás. O coro nem sempre saiu afinado, pois há vozes menos dotadas. "O que conta é a intenção", lembra Lurdes Cotovia, que teve o "azar" de ir ao lado de uma desafinada bem-intencionada.
Kátia Catulo
in Diário de Notícias, 25.02.2008
26.02.2008
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