
Psicologia e Teologia
A psicologia ensina-nos que o imaginário retira o essencial das suas energias de dois grandes tipos de pulsões que lhe fornecem como que a sua matéria: a sexualidade e a agressividade. Seja qual for a oportunidade de tais denominações, nelas estão bem presentes duas grandes famílias de dinamismos que desde há muito vêem distinguindo com grande precisão os tipos mais clássicos de pensamento: duma parte, o desejo, seja ele amor ou ódio; doutra parte, a luta contra um obstáculo, seja essa luta uma força construtiva, cólera que se rebela ou destruição passional. Desta feita, a porção donde tal material de energia afectiva ganha ser, condicionada e estruturada pelas experiências, marcando o curso da vida, fornecerá um protótipo, dando uma certa feição à sua actividade ulterior; as estruturas adquiridas partindo da experiência das pulsões do desejo e da agressividade estarão dinamicamente presentes em todas as nossas relações com os demais; elas penetrarão todas as nossas representações das pessoas e das nossas relações com elas, elas serão uma matéria viva e activa. No que concerne ao desejo, não hesitamos em insistir quanto à importância da sexualidade: mesmo que a psicanálise o tenha feito de modo demasiado unívoco, a experiência humana entreviu no desejo sexual a analogia privilegiada do desejo; a própria pedagogia cristã [o entreviu], sem que o notasse, porventura até à obsessão. Aqui, de novo, é ao homem enquanto homem que Deus fala. Para fazer compreender e sentir a relação que pretende estabelecer entre Si e o homem, Deus não hesitará em desenvolver todas as virtualidades dessa relação de acordo com as dimensões radicais que são as da afectividade e do imaginário humano: a Aliança será um casamento, o pecado um adultério, o Cristo será o esposo, a Igreja será a Esposa, o seu canto será o Cântico dos Cânticos. E toda a linguagem de muitos dos grandes místicos permanece para nos impedir de crer que tais metáforas bíblicas relevam somente dum folclore religioso reservado às personagens do Antigo Testamento que poderíamos considerar como frustrado, como se aquilo que Deus fez dizer e ver por Isaías, Oseias ou por Jeremias não nos fosse proveitoso…
Esse Amor que se revela não temeu mais estar comprometido com a agressividade que com o desejo: aquele Deus amante será um Deus ciumento, esse Deus será um Deus vingador, a sua cólera será destrutiva.
E, certamente, a pedagogia divina vai longa e pacientemente empenhar-se em precisar o que sejam aquelas núpcias, e que aquele Deus lento para a cólera e pronto para a misericórdia não quer a morte do pecador, mas que ele viva. Mas o que importa notar aqui é que a pedagogia divina não promoveu o desenvolvimento do imaginário cristão esquecendo as zonas fundamentais do imaginário humano, nem descartando o conteúdo dessas experiências radicais, como uma concepção escassamente humana poderia ser tentada a pensar. Deus não abandonará esta linguagem nem este registo até que os tempos se cumpram: e o Livro da Palavra de Deus termina com a evocação da Jerusalém celeste: de morte, nela não haverá rasto, de choro, súplica, dor, maldição, nela nada haverá… Evocação à qual responde aquele clamor inspirado, onde o homem e a mulher descobrem o que devem dizer: «O Espírito e a Esposa dizem: Vem!».
J.-M. Pohier
in Psychologie et Theologie, Les Éditions du Cerf, 1967, pp. 271-272.
RF
Publicado em 13.12.2007
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