
Que economia salvará o mundo?
É conhecida a afirmação de Jesus segundo a qual "não é possível servir a Deus e ao dinheiro". Será que o Deus dos evangelhos é contra o dinheiro ou contra os bens deste mundo e a favor do miserabilismo ou da penúria social? Será que é possível uma relação genuinamente cristã com o chamado "mundo dos negócios"?
Eis uma questão que tem dado que falar ultimamente. Há umas semanas atrás o jornal Público trazia um texto com o título "Pecado não é ganhar dinheiro", onde era abordada a questão do modo como o dinheiro, o lucro, ou o mundo dos negócios são vistos pelas várias religiões, desde o catolicismo ao budismo, passando pelo judaísmo, o islamismo e o hinduísmo.
Tratando-se de uma vocação a viver no mundo e a assumir tudo o que é humano, a fé cristã não isenta os seus crentes dos riscos, ambiguidades ou contradições com que as realidades do mundo, da vida e da história os confrontam. É no mundo real e concreto, tal como se apresenta em cada época, que tem de ser vivida a condição cristã. Isso mesmo vale para a relação com o dinheiro, as riquezas, o lucro, o mundo dos negócios. É nesse âmbito que se poderia levantar um interrogação nestes termos: "Que economia salvará o mundo?"
Tendo em conta o discurso do papa perante a Cúria e o corpo diplomático representado no Vaticano, proferido a 6 de Janeiro deste ano, não parece que seja o liberalismo económico puro e duro a solução económica para um mundo em clara globalização. Como se pôde ver na Comunicação social, o próprio Papa Ratzinger pôs em causa "o consenso a favor dos efeitos positivos da liberalização económica à escala mundial". Parece, pois, estarmos perante um aviso pertinente, face à tentação de uma euforia liberalizante, no sentido de não separar liberalização de distribuição a favor de um mundo mais justo e solidário.
Neste sentido é que parece ir o discurso de Bento XVI ao reclamar uma divisão justa da riqueza em termos claros: "é agora evidente que apenas adoptando um estilo de vida sóbrio, acompanhado por um sério empenho na distribuição equitativa das riquezas, será possível instaurar uma ordem de desenvolvimento justo e sustentável". A mensagem papal vai no sentido de opor a sobriedade ao excesso. Lembrando que no mundo da globalização "a moderação não é apenas uma regra ascética, mas uma via para a salvação da humanidade". Parece estarmos perante uma ordem económica onde o normal seria "preferir o bem comum de todos ao luxo de poucos e à miséria de muitos".
Se é certo que o evangelho não dá "receitas" para os problemas que compete aos humanos resolver e que a Igreja não dispõe de soluções técnico-científicas aplicáveis às "realidades terrestres", os cristãos possuem, no entanto, um princípio inspirador da relação humana e cristã com o poder económico ou com o dinheiro, a saber: Só a Deus cabe "servir". Quanto ao dinheiro e às riquezas, importa fazer com que "sirvam" a todos sem excepção.
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Cipriano Pacheco
Publicado em 06.02.2008
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