
Religião e criação de cultura
O trabalho de figuração e transfiguração do real é um trabalho de constante produção de cultura. Se toda a religião precisa de uma figuração cultural e de toda a religião implica uma atitude dinâmica de estar a caminho de uma plenitude ainda por atingir, então a religião resulta em constante criação de cultura, dentro de uma cultura, dando origem a culturas diversas e a constantes transformações culturais, mesmo se dentro de uma continuidade com a tradição.
No mundo contemporâneo, esta dimensão da religião assume um papel saliente, na medida em que a dinâmica cultural se orienta, cada vez mais, por mecanismos imanentes a um sistema de consumo fechado sobre si mesmo. Nesse sistema, a produção cultural, além de ser monótona, pobre e superficial, transforma-se em motor de alienação do próprio ser humano, já que apenas o leva em conta como consumidor ou mesmo como objecto de consumo.
Aliado esse sistema de consumo ao sistema mediático televisivo, assistimos contemporaneamente a uma virtualização da nossa realidade, cada vez mais distante do real e da real comunicação entre os seres humanos e cada vez mais construída segundo os mecanismos do próprio sistema televisivo.
A essa virtualização consumista e mediática opõe-se a religião, precisamente enquanto figuração concreta do sentido primeiro e último de toda a realidade. É que essa figuração concreta, específica da religião, não tolera qualquer fuga virtualista da realidade, mas implica a vivência directa, corporal, dessa realidade, a partir das relações que nos colocam uns frente aos outros.
No contexto da cultura contemporânea poderíamos atribuir uma tarefa cultural comum à arte e à religião, que pode ser resumida numa dupla “superação”: a superação da redução de tudo à “razão instrumental”, e a superação do absolutismo da “sociedade de consumo”.
A redução da realidade aos mecanismos da “razão instrumental” foi já largamente criticada pela famosa Teoria Crítica de Frankfurt. Interessante é verificar, em que medida alguns dos seus representantes (como Marcuse e Adorno) recorreram precisamente à arte como alternativa, ou melhor, como via de superação dessa redução. Independentemente da concepção específica de arte ou de razão que aí é apresentada, penso ser possível assumir o programa, como tal, vendo na arte um caminho que impede a actual sociedade de tudo reduzir aos mecanismos técnico-científicos ou políticos de instrumentalização da realidade, em termos de poder e de fazer. Mas, para além disso, penso que a arte não se encontra isolada nesse caminho, já que os elementos básicos de toda a atitude religiosa a acompanham claramente.
Mas a razão instrumental assume hoje (…) uma forma específica, sumamente complexa e simultaneamente encoberta, que é precisamente a que marca a chamada “sociedade de consumo”. Os seus mecanismos acabam por ser mais radicais do que as formas tradicionais de alienação, já que se apresentam sob forma de fruição e sedução, simulando aquilo que verdadeiramente são e contribuindo, desse modo, para a simulação global da realidade. Nesse sentido, seduzem mesmo a arte e a religião. Mas estas continuam a constituir uma esperança – quase única – de resistência a esse tipo de sociedade. Como proposta de aliança, neste vasto campo, deixo apenas as palavras de Pierangelo Sequeri, emblemáticas e pertinentes, quer para a arte quer para a religião, mais especificamente para a religião cristã: “Os mecanismos da sedução, em verdade, não se adequam ao Evangelho… A exibição de si a todo o custo, a obsessão de se fazer notar, tornam vulgar toda a beleza: da alma como do corpo… O facto é que a beleza típica da relação com Deus, com a inédita experiência do mundo que a acompanha, não deve ser dissolvida na imediatez da gratificação emotiva que essa procura”.
João Duque
in Memoria, Instituto Católico de Viana do Castelo, 2001
28.02.2008
Topo | Voltar | Enviar | Imprimir
![]()

A arte e os elementos
básicos de toda a atitude religiosa podem ser
um caminho que impede
a actual sociedade
de tudo reduzir aos mecanismos técnico-científicos ou políticos de instrumentalização da realidade, em termos de poder e de fazer
A arte e a religião
constituem uma
esperança – quase única
– de resistência à
sociedade de consumo