
Nem sempre religião rima com libertação
A afirmação do Livro da Sabedoria, segundo a qual “o justo deve ser humano” constitui um pertinente aviso, válido para toda a prática religiosa.
A verdade é que a relação entre humanismo e religião não foi sempre pacífica e evidente. Até ao presente, não faltaram querelas ou desencontros acerca do significado humano ou humanizador da prática religiosa. Desde a concepção do fenómeno religioso como factor de alienação humana até à sua consideração como realidade legitimadora de dependência ou opressão, passando por favorecedora de mecanismos de repressão, mais geradores de infelicidade do que de felicidade, autonomia e responsabilidade, houve lugar para pensar de tudo um pouco. Nem sempre religião parece rimar com libertação ou humanização.
Os próprios textos bíblicos, em especial os evangelhos, mostram como até em nome de uma pretensa procura de uma irrepreensível observância religiosa, os crentes podem acabar revelando-se manifestamente desumanos. Veja-se a revelação de Jesus com uma certa mentalidade farisaica. A Lei de Moisés era vista como um caminho para a procura da felicidade. Acontece que, à força de lhe ajuntarem prescrições e interditos, tornaram-na pesada e impraticável, isto é, um jugo insuportável. Daí que Jesus tenha proposto outro caminho, a saber, “um jugo suave e uma carga leve”.
Subjacente à relação entre humanismo e religião está a imagem de Deus que preside à prática religiosa dos humanos. Trata-se de saber em que Deus se acredita. É que o Deus de Jesus é um Deus-Pai e não um ídolo ou uma divindade complicada e miudinha que exige tudo e mais alguma coisa, ao ponto de estragar a alegria de viver a qualquer ser humano, numa religiosidade feita apenas de actos de culto hieráticos e complicados, moralismos intransigentes, proibições ou interditos mesquinhos.
Neste sentido, tem toda a pertinência o aviso bíblico do livro da Sabedoria: “o justo deve ser humano”, se quiser ser religiosamente justo. É que, ao contrário da interpretação farisaica, para Jesus, justo não é o que se considera convencido de ser irrepreensível observante da Lei. É sim, aquele que se deixa ajustar ao dom de Deus. No ano Paulino, vale a pena tentar conhecer e entrar neste novo caminho de justiça proposto pelo Apóstolo Paulo. Ele que se considerava a si próprio, enquanto judeu e fariseu, “irrepreensível” em termos de justiça, veio a considerar, como ele diz, tudo isso “uma perda, diante da maravilha que é Jesus”.
Se calhar, o segredo da missão da Igreja passa pelo desafio de fazer da sua palavra, presença e testemunho uma provocadora convocatória ao conhecimento de Jesus Cristo apresentado como a maravilha portadora do melhor sentido para o mundo em que nos encontramos.
P. Cipriano Pacheco
Referente da Pastoral da Cultura na Diocese de Angra
23.07.2008
Topo | Voltar | Enviar | Imprimir
![]()

