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Fátima

Retratos de uma peregrinação a Fátima

Entre Maio e Outubro, muitos caminhos de Portugal vão dar a Fátima. Por estrada ou pelo meio dos campos, milhares de pessoas dirigem-se já para as celebrações do 13 de Maio. Este ano, esperam-se 35 mil peregrinos a pé; sugestões para quem calcorreia o país não faltam.

Uns não carregam nada às costas, só tem de se preocupar em andar. Em camiões e carros de apoio seguem colchões, comida, cozinheiros, médicos, massagistas. Outros, também apoiados por veículos mas sem tanta logística, limitam-se a levar um livro de orações e, entre eles, há quem anime o grupo com violas. Há ainda quem opte pela mochila às costas com o essencial lá dentro, desde água a papel higiénico, e um bastão de caminhada. Eles são os peregrinos a pé, que por estes dias têm partido de todos os cantos de Portugal rumo a Fátima.

Fernando Teixeira, 50 anos, proprietário de uma fábrica de bordados artesanais da Lixa, partiu de Figueiró-Santiago, no concelho de Amarante. Pilar Noronha de Andrade, 20 anos, estudante de Biologia no Instituto Superior de Agronomia, saiu de Lisboa. E João Lino de Castro, 50 anos, advogado e administrador do jornal Oje, encontra-se num grupo que partiu de Cascais.

Todos vão em grandes grupos, em nome da fé, estrada fora, parando aqui e ali e dormindo em pavilhões de escolas ou bombeiros, reservados previamente para os peregrinos.
No grupo de Fernando Teixeira, nada ficou descurado. Há 23 anos que vai a Fátima a pé. Este é o primeiro ano que vai de carro, apoiando 150 pessoas que percorrem os 257 quilómetros de Amarante a Fátima. "Trazemos tudo o que é necessário em camiões. A organização é voluntária, temos 30 pessoas na equipa", diz, enquanto o seu grupo descansa numa escola de Coimbra, faltam ainda 80 quilómetros até ao destino.

Para a logística, o grupo conta com 12 camiões, além de outros veículos. Tudo muito diferente das primeiras peregrinações, em que nem sabia onde iria dormir ou comer. "Temos um carro com água, outro a apanhar casacos e guarda-chuvas... A preocupação é só caminhar." Médicos, enfermeiras, massagistas e cozinheiros integram a equipa de voluntários. "Vão fazer aletria de sobremesa e já fizeram leite-creme."

Levam comida, como batatas (400 ou 500 quilos), laranjas (15 ou 16 caixas) e maçãs (uns 200 quilos). Outros alimentos são comprados em hipermercados ao longo dos oito dias na estrada. "No ano passado, ficou em 90 euros a cada um."

Pelas quatro da madrugada, fazem-se à estrada. Caminham até ao meio-dia ou uma da tarde, altura em que param para descansar até ao dia seguinte. No espaço aberto dos pavilhões, repõem as energias nos 180 colchões transportados.

 

A generosidade do acolhimento

É uma festa, portanto? "Não é festa. Vamos em peregrinação." Mas não faltam cânticos a Nossa Senhora durante a viagem e na missa, celebrada todos os dias ao fim da tarde pelo padre que os acompanha: "Improvisamos um altar no pavilhão."

Na parte da celebração da missa, a rotina de Pilar Noronha de Andrade, que vai na quinta peregrinação, assemelha-se à de Fernando Teixeira. Todos os dias o padre que acompanha este grupo de 70 jovens celebra a missa numa capela ou no meio do campo. "Pega-se em pedras e no que se tem à mão e improvisa-se um altar. O padre tem sempre um kit-missa, com o cálice" e a patena para as hóstias...

A caminhada do grupo é apoiada por carros, que transportam malas e sacos-cama e que lhes fornecem água, comida ou protector solar. "Vamos só com um livro de orações e há quem leve violas. Uma das partes mais giras do andar é cantar", diz Pilar.

Como os pavilhões onde dormem não costumam ter condições para tomar banho, fazem-no em casas particulares das povoações por onde passam. "As pessoas são acolhedoras. Às vezes até oferecem o jantar." A comida também não preocupa João Lino de Castro, que há mais de 20 anos vai a Fátima: "As pessoas oferecem jantares e recebem-nos em casa delas, outras vezes compramos comida. Há muita generosidade." Tudo o resto, no grupo do advogado, com mais de 200 pessoas, está tratado. "Praticamente não precisamos de levar nada. Nem mochila levo. Há uma equipa que trata disso tudo", diz, na chegada à Azambuja.

E roupa, o que levar? No grupo de Fernando Teixeira, explicou-se tudo numa reunião prévia, das roupas aos sapatos: "Não devem comprar calçado novo, senão rebentam com os pés". Já Pilar Noronha de Andrade encara o assunto com descontracção: "Vimos com roupas normais, sapatos que não sejam novos. Na minha primeira peregrinação, deram-me muitos conselhos. Disseram-me para pôr vaselina nos pés, pôr as meias do avesso para não magoarem e usar dois pares de meias. Fiz isso tudo. Na segunda peregrinação, levei meias e ténis normais e era igual."

 

Ph sim, mapas não

Desta vez, Sérgio Mouta, 38 anos, ficou-se pela capital. No entanto, há dois anos rumou a pé a Fátima como dirigente de um grupo de 35 escuteiros católicos. Para quem se mete à estrada, os seus conselhos são rigorosos, ou não fosse ele proprietário de uma loja de equipamentos «outdoor», a Bivaque, e um apaixonado pelo escutismo e montanhismo.

Dos pés à cabeça, Sérgio Mouta lista o necessário para a viagem ("tentamos ser auto-suficientes"), na qual a mochila tem um papel central. "Se queremos percorrer o caminho a pé, levamos apenas o indispensável, que caiba numa mochila. Para o escutismo, a mochila tem a simbologia do desprendimento." Entre as coisas lá dentro, o papel higiénico, o "ph" na gíria dos escuteiros, é fundamental. "Serve para tudo: estancar uma hemorragia, assoar, se se tem uma bolha no pé, se a mochila magoar na alça..."
Para quem não tem nada e quer material de qualidade, equipar-se para a caminhada pode ficar em cerca de 730 euros, nas contas de Sérgio Mouta. Bastão incluído: "É um excelente apoio para a caminhada, sendo utilizado para as mais variadas situações. Afugentar cães, fazer uma maca para transportar alguém magoado..."

Importante ainda é anteceder a peregrinação com passeios de preparação, algo que os grupos de Sérgio Mouta e Fernando Teixeira fizeram. No caso de Sérgio Mouta, houve ainda o reconhecimento prévio do terreno por jipe com cartas topográficas e bússola. "Tentamos sair das estradas alcatroadas e ir por estradas secundárias e caminhos, de modo a podermos aproveitar a comunhão com a natureza." Leituras do Evangelho completam a preparação psicológica já durante a peregrinação, de manhã antes da partida.
Há um acessório que todos dizem dispensar. "Mapas? Não! Há pessoas para quem esta é a 15ª peregrinação. Até eu já sei reconhecer mais ou menos os caminhos", diz Pilar Noronha de Andrade. "Já sabemos o caminho de cor e salteado", atira Fernando Teixeira.

Teresa Firmino

in Público, 10.05.2008

13.05.2008

 

 

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