Vemos, ouvimos e lemos
Ano Europeu do Diálogo Intercultural

Entrevista a Rosário Farmhouse, Alta Comissária para a Imigração e Diálogo Intercultural

A Comissão Europeia elegeu 2008 como o Ano Europeu do Diálogo Intercultural (AEDI) com o intuito de sensibilizar os cidadãos europeus para a diferença, para a tolerância e para o crescimento conjunto e de partilha com outras culturas que se fixaram no espaço europeu.

Tendo sido um país de emigrantes e conhecido, ao longo da sua história, várias diásporas, Portugal viveu, sobretudo nas últimas décadas, uma nova realidade enquanto país de acolhimento de imigrantes. As comemorações são coordenadas pelo Alto Comissariado para a Imigração e Diálogo Intercultural (ACIDI). Em Fevereiro deste ano, Rosário Farmhouse, 39 anos, assumiu o cargo de Alta Comissária daquele organismo que tem por missão a integração dos imigrantes e das minorias étnicas.

Rosário Farmhouse teve um percurso dedicado ao trabalho comunitário e de apoio às necessidades inerentes dos imigrantes. Licenciada em Antropologia, na vertente de Antropologia Social, iniciou a sua carreira na Cáritas Portuguesa, passando mais tarde a integrar o Serviço Jesuíta aos Refugiados, Organização Não-Governamental internacional de apoio aos refugiados e imigrantes, onde trabalhou durante 12 anos, tendo aí exercido o cargo de directora. Desse período guarda a experiência adquirida do trabalho no terreno. “Como era uma organização internacional permitiu-me um conhecimento das necessidades inerentes à condição de imigrante e à troca de informações e de conhecimentos em termos de estratégias de integração”, explica Rosário Farmhouse.

A vinda para o ACIDI, primeira experiência de um cargo público, está a revelar-se “intensa, um óptimo desafio, mas muito absorvente, que exige uma ginástica de gestão de tempo, de modo a conseguir equilibrar o trabalho com a vida familiar [tem três filhos]. Foi interessante constatar que a ACIDI conta com um trabalho consolidado de grande reconhecimento internacional, possui muitos contactos com outros países e é já uma referência internacional. Portugal ficou em segundo lugar, atrás da Suécia, num estudo feito em 2006, entre os países da União Europeia, mais a Suíça e o Canadá, relativamente a políticas de integração. Esse estudo não analisava apenas a legislação e a teoria no papel, mas a realidade prática dessa integração. O nosso modelo é hoje copiado nos outros países. Muitos deles ficaram surpreendidos como é que Portugal, com uma realidade imigratória recente, alcançou tão boas práticas de integração”, conta a Alta Comissária.

Um destaque que também vai para as comemorações do AEDI: “A assinalar o Ano Europeu do Diálogo Intercultural, Portugal surge entre os países europeus com mais iniciativas. Penso que a sociedade portuguesa agarrou bem a ideia. O facto de as Festas de Lisboa se terem associado também ao Ano Europeu confere uma grande visibilidade, é uma forma excelente de passar a mensagem relativamente às comemorações”. Entre as mais de 500 iniciativas que vão decorrer ao longo do ano destaca “O Expresso das Nações”, que junta 150 jovens de várias nacionalidades que durante cinco dias percorrem de comboio várias cidades do país. Também realça o projecto “Espelho Meu”, que envolve Museus de Portugal e consta de uma programação específica dirigida aos mais novos. Paralelamente existem festas, concertos, teatro, música, etc.

Em termos de imigração, os fluxos estão actualmente estagnados. "Um pouco fruto da situação económica que a Europa atravessa, e Portugal não é excepção. Neste momento quase não temos imigrantes a chegar, o que é uma excelente oportunidade para melhor integrar. No entanto, a Europa precisa muito de imigrantes, há estudos que confirmam isso. A população portuguesa está a envelhecer e obviamente, neste momento de fragilidade económica, não temos muito para oferecer, mas julgo que é uma fase que vai inverter-se. Os imigrantes representam 10% da população activa, o que economicamente é significativo”.

Em Lisboa e arredores, onde se concentra a maior parte das comunidades imigrantes, a integração tem, na sua opinião, corrido bem, de forma pacífica, e neste momento algumas comunidades já têm disponibilidade para se organizarem associativamente. “Lisboa tem sido talvez a cidade europeia que melhor pode dar cartas em termos de políticas de interculturalidade, porque aqui convivem muitas comunidades. Sempre conviveram. Até porque Portugal tem uma história de interculturalidade, sempre nos misturámos com outras culturas, ás vezes de uma forma não muito pacífica”, refere Rosário Farmhouse, que considera o monumento aos judeus recém inaugurado como um bom símbolo desse espírito de tolerância e de apaziguamento face ao outro. “São pequenos gestos como este que fazem de Lisboa uma cidade que se quer manter intercultural e a torna num exemplo para as outras cidades”.

in Agenda Cultural - Lisboa, Julho 2008

09.07.2008

 

 

Topo | Voltar | Enviar | Imprimir

 

 

barra rodapé

Foto
Rosário Farmhouse































Imagem
































Foto Memorial aos Judeus vítimas do "Massacre da Páscoa"
Edição mais recente do ObservatórioOutras edições do Observatório
Edição recente do Prémio de Cultura Padre Manuel AntunesOutras edições do Prémio de Cultura Padre Manuel Antunes
Quem somos
Página de entrada