
Rui Chafes: "O vento nas folhas é a voz de Deus"
Passados dez anos sobre a última mostra individual realizada em Lisboa, Rui Chafes inaugurou em 23 de Novembro a exposição "Eu sou os outros". As 10 esculturas poderão ser apreciadas até 5 de Janeiro, na Galeria Graça Brandão.
Extracto de uma entrevista de Rui Chafes (n. 1966) ao Jornal de Letras (24.11.2007), em que o “escultor de palavras e ferro” fala da religião, da arte e do amor. E onde duas igrejas se encontram no céu.
Há quem diga que é a morte que dá sentido à vida.
E nessa medida, também não existe beleza, sem essa marca da morte, o que é muito estranho. A beleza nasce da consciência da efemeridade. Não faltam coisas bonitas no mundo. Mas a arte é outra coisa, outra dúvida, outra forma de beleza. E tem a capacidade de convocar a memória das pessoas, as suas angústias e com esse edifício de medo tentar construir uma coisa clara, ainda que talvez nunca o consiga.
As obras de arte são, nessa medida, testemunhos da precaridade do Homem, apesar de mais próximas da eternidade?
A eternidade está no coração das pessoas. Não há nada mais eterno do que a luz que um coração imana ou a duração de um sorriso. Não acredito em objectos. Acredito na existência de uma ideia, no fio de uma arquitectura, mas não na sua realização material. É sempre muito precária. A arte não melhora o mundo, não salva as pessoas, não salva a política, nem pode ser sociológica, nem ecológica. Sou completamente desinteressado por arte que meta erva ou bons sentimentos para salvar a Amazónia. A arte não pode salvar o planeta. É simplesmente o que alguns podem fazer e o ser humano precisa sempre de algo mais, o que nunca é material. Daí que a religião, a arte e o amor sejam sempre valores associados entre si. São esse algo mais de que as pessoas têm necessidade.
Recentemente, fez duas esculturas com o mesmo nome, Mais forte que a morte, para uma igreja católica em Bamberg, na Alemanha, e uma outra protestante, em Villach, na Áustria.
Foi uma experiência notável a todos os níveis. Uma igreja é um espaço sagrado, usado pelas pessoas. Introduzir uma escultura contemporânea num contexto carregado de imagens, imóveis há séculos, com os seus altares barrocos, góticos, foi extraordinário. Até porque percebi como a Igreja tem uma péssima relação com a arte contemporânea. E tem todas as razões para isso. A história do modernismo do século XX foi de destruição. E a Igreja, que é uma instituição estática, tem naturalmente medo. As negociações com as duas Igrejas foram muito elucidativas. E não deixa de ser curioso que a evangélica tenha sido sempre mais clara, enquanto que a católica se ficava sempre pelo “talvez”. As peças vivem no espaço, são diariamente vistas por pessoas que não têm qualquer relação com o mundo da arte, vão lá à procura de outra coisa. E é um mistério para mim saber o que vão sentir quando forem rezar e se depararem com uns ferros negros que saem da parede.
As esculturas das duas igrejas têm o mesmo nome. Porquê?
É uma só peça dividida em duas. Apesar das diferenças, são muito semelhantes visualmente. A ideia é criar uma espécie de arco no céu, um projecto ecuménico, unindo uma Igreja católica a uma protestante. Idealmente, se uma pessoa for à Baviera, à igreja evengélica, e à Áustria, à católica, vê duas peças que se encontram no céu.
Porque lhes chamou “Mais forte do que a morte”?
As pessoas acreditam que há coisas mais fortes do que a morte. Algumas pensam que é o amor, outras que é Deus e outras a arte.
Entrevista de Maria Leonor Nunes
in Jornal de Letras, 24.11.2007
Publicado em 28.11.2007
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Obra de Rui Chafes