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Coimbra

Procissão de Santa Isabel revelou que Coimbra continua a ser uma cidade de fé

A procissão da Rainha Santa Isabel, que no dia 10 de Julho paralisou a cidade, revelou que Coimbra continua a ser um local com elevados índices de fé. Foram dezenas de milhar as pessoas que acompanharam o andor da D. Isabel de Aragão, do Convento de Santa Clara-a-Nova até à Igreja da Graça, na Rua da Sofia.

A multidão brindou a sua Santa com palmas, enquanto que, do topo do edifício, eram atiradas pétalas de rosas, que caíam lentamente até se juntaram às centenas que o andor da Rainha já transportava. O som das várias filarmónicas contribuiu para aumentar o ritmo cardíaco dos fiéis, visivelmente emocionados. Algumas pessoas choravam mesmo. Foi o caso de Maria da Conceição, 72 anos, que levou um lenço para limpar as lágrimas que corriam pela cara. «Há 40 anos que venho sempre para ver a minha Rainha. Eu amo a minha Santa Isabel, devo-lhe tudo na vida», afirmou, para depois esclarecer que foi a Santa que a salvou «de morte certa» quando era mais nova. A fé e a devoção são enormes e há pessoas de todas as idades a saudar a padroeira de Coimbra, apesar das mais velhos estarem em maioria.

Quando o andor começa a descer pela Calçada de Santa Isabel e passa no Rossio de Santa Clara já a Rainha tinha sido fotografada milhares de vezes. Os flashes não pararam, disparados de máquinas fotográficas, que ambicionavam captar «a luz da Santa». João Miranda, 38 anos, chegou de Beja, «de propósito para a procissão», que já esperava desde as 17h00, por querer arranjar um bom lugar. «É a fé que me guia, não consigo explicar e acho mesmo que não tem explicação», diz rapidamente, afinal tem que saudar a Rainha lançando pétalas de rosa, que traz guardadas num saco de plástico.

Quando a romaria abrandou, na Avenida João das Regras, os fiéis aproveitaram para acender as velas que entretanto se apagaram. O respeito é impressionante. Toda a gente espera a Rainha em silêncio e quando é preciso comunicar as palavras são trocadas em sussurros.

A Rainha foi recebida na Ponte de Santa Clara por centenas de estudantes da Universidade de Coimbra, que se apresentaram trajados. Quando o andor se aproximou colocaram as capas no chão e, de joelhos, veneraram a rainha. O gesto foi imitado por outras pessoas do público. Eram 22h45 quando a Rainha chegou ao Largo da Portagem, sendo aplaudida pelas milhares de pessoas que a aguardavam. Após o discurso de Jesus Ramos, pároco de S. Bartolomeu, teve início o fogo de artifício. Depois, sempre “guardada” por uma legião de fiéis, D. Isabel de Aragão seguiu pela Rua Ferreira Borges até à Igreja de Nossa Senhora da Graça, onde permaneceu até domingo.

São 19h30. Na Avenida João das Regras, Joana Pinho vem de joelhos, às vezes a rastejar pelo chão, mas não desiste nem abranda, até porque «promessas são para cumprir». A mulher de 35 anos, natural de Leiria, é apenas um exemplo entre as centenas de pessoas que se deslocam propositadamente a Coimbra nesta altura para «pagar promessas pedidas à Rainha e que se tornaram realidade».

O percurso da romaria é então percorrido do início ao fim, uns fazem-no descalços, mas a maioria de joelhos, como Joana Pinho. De mãos dadas ao marido e ao filho de seis anos a dor aperta e a mulher chora. À medida que avança no terreno o percurso torna-se mais difícil. A devoção e o espírito de sacrifício impressionam os outros fiéis que aguardam ainda o andor com a Rainha e observam aqueles que cumprem promessas com respeito, soltando aqui e ali algumas palavras de apoio.


Palavras emocionantes no Largo da Portagem

Do alto de uma varanda do Largo da Portagem, o P. Jesus Ramos, pároco de S. Bartolomeu, saudou a Rainha, debaixo do olhar emocionado de milhares de fiéis. «Os olhos de todos estão postos na vossa imagem! Vede, Senhora! Vieram de todos os quadrantes, encheram estradas e caminhos e estão aqui para vos receber de braços abertos e para escutar, em sintonia de coração, a mensagem que pretendeis transmitir a cada um, neste lugar e nesta hora. Vieram mulheres e homens, jovens e donzelas, crianças e meninos de colo. Vieram de todas a condições. Estão aí, entre a multidão anónima, muitos dos sábios do reino, D. Isabel de Portugal! O povo de Coimbra, que há tantos séculos vos tem por rainha e vos aclama como Santa, aqui está, na mais espaçosa praça da cidade, para vos receber de braços abertos e com a alma em festa», declarou.

«Que mensagem poderá uma nobre dama do longínquo século XIV transmitir a esta gente do início do terceiro milénio? Que mudem, como é desejável, as gerações, mas que não mudem os valores», continuou. A crítica social não foi esquecida: «Sirva de exemplo a notória contradição em relação à família, cuja centralidade social, teoricamente, ninguém põe em causa. Porém, na prática, criam-se e apoiam-se leis que não têm como objectivo a defesa e o incremento dos valores familiares, mas antes propõem o facilitismo que leva à desagregação».


Bruno Vicente

in Diário de Coimbra, 11.07.2008

14.07.2008

 

 

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Foto
Fogo de artifício junto
à Ponte de Santa Clara
Foto: Daniel Tiago













































































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