Vemos, ouvimos e lemos
Religião e estado da Nação

A consciência do tempo e o destino pessoal e colectivo

Para quem não anda com os olhos no bolso nem meteu a massa encefálica no frigorífico nem precisa de se justificar, é claro que o estado da Nação não é propriamente de euforia. O aumento do desemprego é alarmante. A justiça não funciona ou funciona em tempo infinitamente lento. O crescimento económico emperrou. As desigualdades sociais são gritantes. A situação da educação é dramática. Pior que tudo: um pessimismo que começa a instalar-se, numa sociedade em que a falta de preparação e qualificação dos portugueses barra o futuro. Há uma conflitualidade social latente, já com sinais manifestos aqui e ali, que deve abalar aquela modorra intelectual adormecida na "certeza" do fim da História e das revoluções.

No meio disto, a religião?

A filósofa Hannah Arendt disse, desarmantemente, que também a economia é um problema teológico.

Numa obra célebre, A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, Max Weber mostrou como a tradição calvinista e as seitas puritanas, com a convicção de que o cumprimento dos seus deveres no mundo é modo essencial de agradar a Deus, a procura do êxito nas empresas como sinal de predestinação à salvação, a concentração na profissão conduzida de modo racional e eficaz, o ascetismo laico, que rejeita o hedonismo e o luxo, mas bendiz o lucro, considerando-o até preceito divino, foram fundamentais para a formação do moderno homem económico e do espírito do capitalismo.

No seu cinquentenário (13 de Julho de 2008), nem todos se esqueceram da famosa Carta de D. António Ferreira Gomes a Salazar, que o bispo do Porto pagou com um exílio de dez anos. Nela, exigia-se a liberdade de pluralismo partidário e sindical e de greve. E lembrava-se "dois problemas fundamentais" em ordem à paz: 1."Os frutos do trabalho comum devem ser divididos com equidade e justiça social entre os membros da comunidade"; 2.Os indivíduos e as classes "nunca estarão satisfeitos enquanto não experimentarem que são colaboradores efectivos, que têm a sua justa quota- -parte na condução da vida colectiva, isto é, que são sujeito e não objecto da vida económica, social e política". O equilíbrio financeiro "é óptimo", mas "nunca deve deixar de estar ao serviço do Homem".

Com a religião - a verdadeira, não a que se embrulha em privilégios ou na mera piedade de consolação intimista -, haveria outra consciência social, que faz perceber, por exemplo, que o que é bom para Portugal é bom para mim, que não há apenas direitos, mas também deveres, que é um dever pagar impostos e não viver da corrupção activa e passiva, que apela para a moderação no consumo.

Depois, há um texto de A. de Tocqueville, no seu Da Democracia na América, que merece atenção. "Nos séculos de fé, coloca-se a finalidade final da vida após a vida. Isto explica a razão por que os povos religiosos realizaram frequentemente coisas tão duráveis. Acontecia que, ocupando-se do outro mundo, tinham encontrado o grande segredo de triunfar neste. Nos séculos de incredulidade, é, pois, sempre de temer que os homens se entreguem sem cessar ao acaso diário dos seus desejos e que, renunciando completamente à obtenção do que só com longos esforços se pode adquirir, nada realizem de grande, aprazível e durável. Se acontece que, num povo com estas disposições, o estado social se democratiza, o perigo apontado aumenta."

Cá está! A consciência do tempo é decisiva para a existência pessoal e, assim, para a economia e para a vida colectiva. Quando se apaga a fé na eternidade, o tempo deixa de fazer tecido, pois só ficam instantes que, na voragem, se dissolvem e devoram. Então, é preciso sorver cada instante na realização dos desejos imediatos, numa sucessão delirante. Então, poupar para quê? Investir para quê? Ainda haverá futuro, aquele futuro que é surpresa mas também projecto de realização, com esforço, de algo grande e durável?

Os portugueses têm uma "virtude" que outros não têm: o "desenrascanço": numa situação de dificuldade e aperto, conseguem uma solução para a imediatidade. Mas essa virtude é o seu defeito fundamental, porque não planeiam de modo racional o futuro.

Anselmo Borges

in Diário de Notícias, 09.08.2008

12.08.2008

 

 

Topo | Voltar | Enviar | Imprimir

 

 

barra rodapé

Ampulheta




















































Edição mais recente do ObservatórioOutras edições do Observatório
Edição recente do Prémio de Cultura Padre Manuel AntunesOutras edições do Prémio de Cultura Padre Manuel Antunes
Quem somos
Página de entrada