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Último número da revista Didaskalia é dedicada ao "Conhecimento de Deus"

O último número da revista «Didaskalia», da Faculdade de Teologia (Lisboa) da Universidade Católica Portuguesa, tem por tema «O conhecimento de Deus», e homenageia o Professor Henrique de Noronha Galvão.

Publicamos neste artigo a introdução ao fascículo, assinada pelo Director da Faculdade, P. Peter Stilwell, seguindo-se-lhe o sumário dos textos escritos em português.

«O presente número da “Didaskalia”, de homenagem ao Professor Henrique de Noronha Galvão, contém textos de grande peso humano e inegável valor teológico, a começar pela nota de Joseph Ratzinger, publicada com autorização expressa do autor, que qualifica de “obra-prima” a tese de doutoramento do homenageado, e inclui uma extensa biobibliografia deste notável académico e homem de Igreja.

A minha palavra introdutória, portanto, limita-se a expressar, em nome da Faculdade de Teologia, a nossa admiração e gratidão pelos seus longos anos de serviço.

O Prof. Noronha Galvão é um dos protagonistas da reintrodução da reflexão teológica no mundo universitário português. O esforço tem agora quatro décadas e o apoio de uma Faculdade de Teologia consolidada. Mas, na sua origem, partiu em grande parte da iniciativa pessoal; nomeadamente na diocese de Lisboa. A longa experiência em universidades alemãs, durante o período de preparação do seu doutoramento, e a colaboração próxima com docentes como o Prof. Joseph Ratzinger, seu orientador, deu à intervenção do Prof. Henrique na Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa um cunho de grande abertura e exigência académica. A sua palavra segura, a sua intervenção ponderada, têm sido um contributo decisivo para a evolução gradual da Faculdade da sua vocação como instância formadora dos quadros superiores da Igreja Católica para a sua missão de diálogo de nível universitário com outras áreas de saber.

Neste sentido, a Faculdade também deve muito à edição portuguesa da revista “Communio” de que o Prof. Henrique, para além de fundador e segundo Director, tem sido um promotor incansável. A publicação regular de números temáticos, congregando sensibilidades e competências, tanto nacionais como estrangeiras, oriundas das mais variadas áreas do saber, tem contribuído de forma marcante para abrir a compreensão não só dos leitores em geral, mas dos próprios docentes e alunos da Faculdade, para o lugar da Teologia no equacionamento das grandes questões humanas e culturais do nosso tempo.

Um bem haja, portanto, para o Prof. Henrique de Noronha Galvão, com quem a Faculdade e a Igreja continuarão a contar, liberto agora do peso de tarefas administrativas e da rotina da leccionação.» (P. Peter Stilwell)

 

«Este é o meu nome para sempre». Revelação do nome Yahvé (Ex 3,13-15)
Armindo Vaz
O Deus invocado com o nome próprio Yahvé é o mesmo Ser pessoal que os patriarcas invocaram como “Deus do pai”. Mas o nome em si só terá sido atribuído ao Deus de Israel na passagem dos hebreus pela experiência humana e religiosa do êxodo, liderados por Moisés. É à memória do êxodo que está inextrincavelmente associado o nome do Deus da fé yahvista. E só séculos depois desse acontecimento histórico fundador é que a fé do povo bíblico deu uma explicação teológica do sagrado tetragrama, situando-a no contexto da teofania que desencadeou o êxodo e fazendo hermenêutica dele. Fê-lo por meio da assonância mais próxima, com uma forma verbal de hayah. Entendia assim o nome dado a Deus em termos de “Ser, Existir”, como «o verdadeiramente Existente» para o povo, tornando-o livre da escravidão para se religar a Ele por meio de uma aliança de amizade.

Criação e nova criação – O que pensa o Judaísmo intertestamentário?
João Lourenço
A teologia da ‘Criação - nova Criação’ é um dos dossiers mais ricos de toda a teologia bíblica. Trata-se de um debate que percorre toda a história bíblica, tanto naquela que se faz ad-intra, ou seja, o pensamento bíblico em diálogo com si mesmo, como naquela que se desenrola ad-extra, no confronto com as culturas e as mitologias dos povos circunvizinhos. As implicações deste debate não se limitam ao Pentateuco nem se ficam pela literatura cultual (por exemplo, Salmo 8). Alargam-se, de uma forma muito significativa, aos grupos e movimentos que representam o judaísmo intertestamentário, onde a questão, face à cultura grega, assume uma nova relevância. A fonte que inspira e alimenta a teologia da (nova) criação está no pensamento profético, mormente do Deutero-Isaías, no período pós-exílico e na teologia da ‘Nova Aliança’ de Jeremias e de Ezequiel e também na ideologia político-real que conheceu o seu desenvolvimento na exaltação do Templo e de Jerusalém como morada de Yahwé, através da mediação da dinastia davídica cuja missão era instaurar uma nova ordem social. Os textos sobre esta temática são abundantes, mormente na literatura apocalíptica e de Qumrãn. Aludo apenas a alguns: 1 Henoc 91, 15-16; 1 Henoc 45, 5-6; Jubileus 1, 23-25; 23,26-32; 1 QH 3, 28-35; 13,1.11-12; 15, 13-17; José e Asenath 8,l1; 15,3-4.

O rei e os deuses nos anais assírios
José Nunes Carreira
Apesar das diferenças de concepções do exercício do poder e da narrativa dos sucessos, é ponto assente para Egípcios, Hititas e Assírios que as guerras se ganham por ajuda divina. Os Assírios têm fama de ser dos primeiros e mais sangrentos a praticar a «guerra santa», com os deuses por principais actores e beneficiários das guerras de conquista. Em inúmeras passagens dos chamados Anais, parece que a guerra é tarefa exclusiva dos deuses. Mas as mesmas expressões ocorrem com o rei por sujeito. O «terror do esplendor de Assur» coexiste com o terror do rei; as armas de Assur resplandecem nas armas do rei. Com toda esta simbiose de causalidades e valores divino-humanos há que falar em sinergismo entre os deuses e o rei. A função legitimadora e propagandística dos Anais não suprimiu a evidente intervenção da vontade humana. Não se prova a existência de «guerra santa» distinta de guerra profana e o mesmo deve valer para Israel e para todo o Antigo Oriente, se não mesmo para roda a antiguidade. Distinguir o «religioso» e o «profano» na vida social desses tempos representa um insustentável anacronismo.

Deus e o Cristo petrino do Novo Testamento
José Carlos Carvalho
Pretende-se comparar o Cristo de Pedro com o Jesus de Simão a partir da própria personagem histórica de Simão Pedro. Estes constituirão quatro conceitos importantes ao longo do texto para evidenciar a evolução teológica entre o período do ministério público de Jesus e o da fé pós-pascal da comunidade primitiva. Com esta distinção anti-bultmanniana ter-se-á em conta a crítica clássica que opôs Paulo e Pedro, como se o primeiro fosse teólogo e o outro não porque nunca o foi. Sem recusar a análise bíblica (sobretudo da secção da subida para Jerusalém no evangelho de Marcos) tentar-se-á mostrar como é colocada a questão de Deus em Pedro, ou Simão.

“Deus anonymus” ou a semântica do mistério de Deus
Isidro Lamelas
O artigo pretende mostrar como o problema do Nome divino constitui um núcleo primordial da linguagem e gnoseologia teológica. Na verdade, a theologia clássica amadureceu a convicção comum de que nome ou conceito algum se adequa à natureza divina essencialmente anónima. A partir deste pressuposto, o teísmo helénico (medioplatónico, gnóstico e hermético) desembocou no dogma da impossibilidade ontológica de conhecer Deus (agnostos Theos). Embora não imunes ao influxo deste rigorismo gnoseológico, os Padres da Igreja reelaboraram substancialmente a semântica do mistério de Deus abrindo, a partir da “revelação do Nome”, uma dupla vertente no discurso teológico: a via afirmativa (oikonomica), e a via negativa (apofática) que salvaguarda a transcendência e possibilita urna relação pessoal com o Deus que se re-vela (Nomen).

O conceito de Deus na Teologia Fundamental
João Duque
O artigo pretende abordar o significado do conceito (cristão) de Deus para a Teologia Fundamental. Se habitualmente o conceito (trinitário) de Deus é estudado no contexto da Dogmática, a perspectiva aqui apresentada é diferente. Ao mesmo tempo, daí resulta um ligeiro alargamento e mesmo alteração de certas perspectivas da Teologia Fundamental. De facto, esta não se reduz ao estudo das condições (racionais) de compreensão e mesmo de validade de um conceito de Deus dado de forma absolutamente dogmática e positiva. Mesmo que essa abordagem, ao estilo dos tradicionais praeambula fidei, continue a ser essencial, convém não perder de vista o facto de que a Teologia Fundamental, ao ser plenamente teologia, parte já do impacto que nela tem um (determinado) conceito de Deus revelado e transmitido pela tradição eclesial, por isso mesmo indedutível a priori, a partir de categorias pretensamente racionais. Este artigo aborda o referido impacto na perspectiva da possibilidade de pensar Deus, da verdade do seu conceito, da origem histórica da sua constituição-revelação e do seu conteúdo trinitário.

A presença de Deus no tempo do homem
Nuno Brás Martins
O artigo apresenta o modo como alguns dos principais teólogos contemporâneos pensaram a possibilidade e as consequências de uma presença de Deus no seio da história humana (história da salvação) e, em particular, as consequências da proclamação do fim dos tempos em Cristo para a história. Começando por R. Bultmann (a decisão humana na fé como decisão escatológica), o artigo refere-se depois às teologias da história de O. Cullmann (a verdade da história contemporânea vivida à luz da vitória definitiva de Cristo mas à espera da vitória final), W. Pannenberg (em Cristo o fim da história é-nos dado antecipadamente), K. Rahner (Cristo é o portador absoluto da salvação que, apesar da fragilidade do acontecimento histórico, pede o compromisso absoluto) e H. U. von Balthasar (Jesus abre um caminho de redenção acessível a todos, transformando o tempo do pecado em tempo dos redimidos e dando sentido definitivo à existência humana).

Henrique Noronha Galvão

A «marca» da ressurreição de Jesus na história da humanidade
Juan Ambrosio
O autor realiza um percurso dividido em três momentos. No primeiro, e a partir duma reflexão mais antropológica, procura mostrar como a abertura à Transcendência (para os cristãos abertura ao Mistério Pessoal de Deus) faz parte integrante da condição humana, de tal modo que a concretização dessa abertura permite viver a existência assumindo todas as suas possibilidades. No segundo momento, procura reflectir como a abertura ao humano faz parte do próprio projecto de Deus. Neste contexto, olha para Jesus Cristo para mostrar como nele se concretizam simultaneamente os dois movimentos anteriormente referidos. No terceiro e último momento, e a partir da resposta a quatro perguntas (O que posso saber? O que me é permitido esperar? O que tenho que fazer? O que posso celebrar?) procura tirar consequência para o viver crente, procurando nele testemunhos da ‘marca’ da ressurreição de Jesus na história da humanidade.

O exercício do desejo
Maria Manuela Carvalho
O exercício do desejo marca o ritmo da vida cristã, à qual podemos chamar vida de oração, isto é, vida de relação com Deus que, tendo-se tornado próximo do homem na liberalidade do amor Trinitário, é sempre liberdade infinita de amor a convidar a finita liberdade humana a participar livremente na vida divina. Reflectir sobre o desejo de Deus leva a tocar humildemente o Mistério Trinitário e procurar delinear a sua relação com a história. Relação que envolve a Encarnação do Verbo de Deus, mas que lhe é anterior e se perde no desígnio eterno da Trindade, como lhe é posterior na acção do Espírito Santo no coração do mundo na comunhão de santidade.

A Eucaristia e a Missão da Igreja – Uma reflexão sobre a «Sacramentum caritatis» de Bento XVI
Jorge Cunha
A proposta que estrutura este comentário à exortação «Sacramentum cantatis» é elaborada na base do pensamento de Michel Henry e de Emmanuel Levinas. Cremos que há, no texto pós-sinodal, abertura para compreender a Eucaristia a partir do Outro, caminho que, a nosso ver, se revela muito mais fecundo do que outros para entrar no mistério. A chave encontra-se no interior do edifício, como nota François-Xavier Durrwell. O “mais” que é o mistério pascal de Jesus é que explica o “menos” que é o gesto sacramental da Eucaristia. Esperamos mostrar como esta mudança de perspectiva se revela muito interessante para chamar a atenção para a centralidade da Eucaristia na vida da Igreja.

A visão beatífica e a noção de mistério em K. Rahner
Jacinto Farias
O estudo visa uma breve apresentação do contributo de K. Rahner para uma renovada compreensão da noção teológica de mistério, categoria fundamental no cristianismo e na teologia, que é, de certo modo, a ciência do mistério. O núcleo fundamental do seu contributo que se inspira, por um lado em S. Tomás de Aquino, e, por outro, numa certa corrente filosófica contemporânea, que tem em G. Marcel um dos seus mais significativos representantes - consiste em operar uma inversão metodológica, ou seja, em vez de considerar o mistério a partir dos limites da razão, fazê-lo a partir da visão beatífica e do tema do lumen gloriae. O mistério vai surgir então referido directamente a Deus, e não tanto a proposições que ultrapassam os limites da razão. A pluralidade dos mistérios resume-se quase apenas a três: a Santíssima Trindade, a Incarnação e a união hipostática, e a elevação das criaturas à comunhão com Deus na graça. Tudo o resto será como que um desdobramento destes três mistérios fundamentais. A conclusão de K. Rahner será de natureza antropológica, mostrando que o homem é essencialmente o ser do mistério, da infinita transcendência espiritual, aberto e disponível ao excesso de sentido que o mistério, como grandeza solar, em si mesmo encerra.

Ciência da Cruz ou Experiência Mística? – A propósito de Edith Stein e Jean Baruzi sobre Juan de la Cruz
Carlos H. do C. Silva
Este estudo pretende fazer reflectir sobre as perspectivas teológicas e filosóficas de um tema que, desde S. Paulo, vem caracterizado pela scientia crucis, no contexto da mística e de S. João da Cruz. Após preliminar equacionamento das perspectivas metodológicas em questão, no que se refere ao porte inteligível da experiência espiritual e à indispensável mediação de Cristo numa teologia da perfeição, ainda estimulante para a radicalidade da interrogação filosófica, consideram-se os contributos da linguagem relacional e da sua performance em termos da intelligentia fidei. Aborda-se, então, em S. João da Cruz o enquadramento da via mística e do cristocentrismo, confrontando duas perspectivas, quase contemporâneas [do filósofo de linhagem bergsoniana, Jean Baruzi, Saint Jean de la Croix et le problème de l’expérience mystique (1924; 1931...) e na filósofa judia, discípula de Husserl e depois carmelita, mártir e canonizada, Edith Stein, na Kreuzeswissenschaft (1941-42)]. Tal análise comparativa revela paradoxalmente que à espiritual carmelita convém mais uma leitura intelectual e como ciência da Cruz, enquanto ao filósofo, quase agnóstico no seu método, acaba por se impor a transcendência da experiência mística numa lição de metamorfose antropológica. Em conclusão, reconverte-se desse paradoxo à indispensável dimensão incarnacional da espiritualidade cristã, exigida ainda pela meditação crucial de Edith Stein, não esquecendo o carácter da mística apofática e o ressalto diferencial de um encontro com outra radicalidade da experiência cristã.

O desafio do agnosticismo
Mário de França Miranda
O artigo constitui uma reflexão sobre a problemática atual sobre Deus, mais precisamente sobre o acesso a Deus. Inicialmente são examinadas algumas razões para certo agnosticismo presente, sobretudo no meio acadêmico. Em seguida o texto aborda a fragmentação da razão clássica numa pluralidade de “racionalidades” que acabam por condicionar o conhecimento humano (horizontes de compreensão) e, consequentemente, seu acesso ao Transcendente. A terceira parte do artigo propugna uma maior unidade de fé e razão, de teologia e filosofia e busca recuperar a verdade da clássica teologia negativa ou apofática. Finalmente, a partir de uma teologia trinitária da criação e numa perspectiva agostiniana, se defende o acesso existencial a Deus, que deveria ser mais valorizado na teologia e na pastoral.

O amor a Deus num filósofo «ateu»
Maria Luísa Ribeiro Ferreira
Partindo de um mesmo desejo de alcançar Deus analisam-se alguns traços do pensamento de Santo Agostinho e de Espinosa, filósofos que divergem profundamente nos seus interesses, nos temas abordados, nos objectivos que se propõem ao fazer filosofia. Aproximam-se, no entanto, na valorização da inquietude que habita cada homem - o coração inquieto de Agostinho e o “conatus” espinosano. O pensamento antropológico de cada um dos filósofos tem como consequência uma dada concepção de divindade. Confrontadas as divergências entre o Deus pessoal de Agostinho e o Deus/Natureza de Espinosa, levantam-se alguns problemas quanto à religiosidade deste último, bem como à pertinência da sua designação como filósofo ateu.

A exterioridade de Deus – Uma aproximação à teoria da religião de Régis Debray
Alfredo Teixeira
Este ensaio insere-se num plano mais vasto de pesquisa sobre as «novas teorias da religião». Aqui, procura identificar-se o contexto e a especificidade da interrogação mediológica perante o facto religioso, testando os seus instrumentos de indagação num dos universos de pesquisa privilegiados por Régis Debray: as representações do «Deus Único» e as Escrituras como medium da sua historicização. Depois deste primeiro itinerário, a mediologia de R. Debray é confrontada com os problemas hermenêuticos que decorrem da operação de redução do «sentido» à «função».

Em torno de «A desilusão de Deus», de Richard Dawkins
Jorge Coutinho
Richard Dawkins, conhecido biólogo britânico, publicou, em 2006, «The God Delusion», com a presumida intenção de provar, com base na ciência, que (é quase certo que) Deus não existe. Tecem-se aqui algumas considerações. No essencial: o livro, além de nada provar do que pretende, desqualifica o autor, seja pela atitude moral, seja pela errância epistemológica em que labora. O grave do caso é que este livro é um sinal de uma renovada militância ateísta e da presença exacerbada, no mundo da cultura, de um autêntico fundamentalismo cientista, ao serviço de uma cultura sem Deus.

Animismo, teocracia, democracia. O processo de “desencantamento do mundo” como referencial ambíguo da modernidade
Isabel Varanda
Escolhemos quatro pensadores para nos guiarem neste estudo: Jacques Monod, Max Weber, Marcel Gauchet e Peter Berger. Através deles e das intersecções das respectivas ideias, entramos num cenário denso, confuso, multiconceptual e ambíguo, que se apresenta, desde já, resistente a qualquer tentativa de rigor descritivo e de leitura unívoca. À partida, vemos um carreiro tosco, de traçado inseguro e incerto, pelo qual vamos tentar entrar no movimento das ideias e das representações do mundo, com o objectivo de descrever um ponto de vista deste movimento: “o desencantamento do mundo” como referencial da modernidade. A audácia é grande, mas não arrogante. Vamos tentar entrar na conjunção de múltiplos conceitos, na esperança de chegar a um ponto de intersecção que nos dê acesso a uma visão renovada, O caldo conceptual — animismo, desencantamento do mundo, teocracia, secularização, democracia, modernidade, dessecularização — faz aparecer a dinâmica da miscigenação dos elementos em incessantes combinações e recomposições; não se trata do algoritmo de uma experiência de laboratório; trata-se da história da nossa vida e da história das ideias que nos fazem viver. Ideias e ideais que, tacteantes, forjam uma nova terra e um novo céu à imagem dos Modernos, onde continua a ser possível viver e acreditar.

Cristianismo e cultura
José Nunes
A relação entre cristianismo e cultura é parte integrante da mais vasta problemática entre religiões e cultura(s). Numa época de aparição de variados fundamentalismos religiosos, num momento em que a Europa se questiona sobre as suas raízes cristãs, a actualidade do tema parece evidente. Neste artigo, procura-se primeiramente uma verificação das modalidades de relação entre cristianismo e cultura ao longo da história; em seguida, enunciam-se algumas condições para uma positiva relação entre tais realidades; finalmente, constata-se a presença do cristianismo na cultura, particularmente num ocidente que já conheceu um profundo processo de secularização e racionalidade.

Dado tratar-se de um volume de homenagem, o primeiro artigo de fundo reflecte sobre «O Mistério de Deus no mistério da vida – Esboço biobibliográfico do Prof. Doutor Henrique de Noronha Galvão», por Alexandre Palma.

As 526 páginas da revista incluem igualmente diversos textos escritos em língua estrangeira: «Horizons of mystery and of wisdom in God (Essay of Rethorical Biblical Analysis on Jb 28)» (Luísa Almendra); «Du bist Christus, der Sohn des Lebending Gottes (Mt 16,16)» (Gerhard Ludwig Müller); «Agnostos Theos und die christliche Rede von Gott – Irenäische Sichten» (Hans-Jochen Jaschke); «La crise donatiste et le tournant de la théologie catholique: Optat de Milève et le baptême centré sur le Christ» (João Eleutério); «Mysterium Gottes und Mysterium des Menschen Zur Frage der Christlichen Anthropozentrik» (Siegfried Wiedenhoffer); «Zum existentiellen und sakramentalen Grund der Theologie bei Joseph Ratzinger – Papst Benedikt XVI» (Stephan Horn SDS); «La figure du Père selon François-Xavier Durrwell – Un profil» (Réal Tramblay).

 

13.01.2009

 

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Capa

Didaskalia
2008 - Fascículo 2

Editora
Universidade Católica Portuguesa - Faculdade
de Teologia

Páginas
526

Ano
2008

Preço
€ 15,00

ISSN
0253-1674

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