
Uma Paixão portuguesa
Fomos surpreendidos, com entusiasmo, pela notícia recentemente divulgada, de que o Cónego António Ferreira dos Santos iria apresentar uma Paixão Segundo S. João, para solistas (declamador, tenor [evangelista], baixo [Jesus]) coro e orquestra.
Verificava-se que em vernáculo (português) não existia qualquer composição de uma Paixão. Procurei assim, como compositor de música sacra, dar uma resposta pessoal e actual a esta falta – afirma Ferreira dos Santos.
Para isso contribuiu uma encomenda da Santa Casa da Misericórdia de Braga, em cuja igreja se verificará a primeira audição em Portugal e no mundo.
Após o trabalho desenvolvido na Santa Casa da Misericórdia do Porto (onde dirigiu de 2005 a 2007 uma Comissão Administrativa por nomeação do então Bispo do Porto, D. Armindo Lopes Coelho) e aproveitando um tempo de tratamento médico na Alemanha, o autor iniciou naquele país a composição deste obra.
A parte coral foi toda escrita na Alemanha, por influência do ambiente e da inspiração de tantos autores daquele país que escreveram Paixões (Bach, Schutz), interiorizando as leituras e reflexões teológicas, procurei encontrar melodias para “vestir” a narrativa, as palavras, os diálogos e sobretudo as respostas de Cristo. É uma tarefa tremenda! – afirma o autor.
E acrescenta:
"Lembrei-me muitas vezes do que conta Ana Madalena Bach, que um dia foi encontrar o marido, Johann Sebastian, de joelhos perante uma partitura que compunha. Não o perturbou. Verificou depois que tinha acabado de compor a melodia para a frase “Tudo está consumado”, precisamente da Paixão de S. João (1723).
Compus os coros sem piano nem qualquer instrumento, apenas seguindo a inspiração das palavras do texto bíblico. Uma espécie de música interior para a expressão do sentimento."
Então, e a parte orquestral?
"A parte orquestral foi depois composta já em Portugal, procurei traduzir nela também as emoções, sublinhando a expressividade da parte narrativa e coral, sobretudo desta, da interpretação coral. Foram, pode dizer-se, as circunstâncias que impuseram este processo. As palavras inspiraram a música e a música coral inspirou a orquestra.
E o estilo? Clássico, moderno, vanguardista? Parece que algumas das suas obras já compostas (como por exemplo a Cantata em honra de S. Sebastião) percorrem já caminhos de uma estética musical segundo cânones muito modernos...
Não. Não é de tipo “contemporâneo” ou experimentalista. Podia dizer que segue uma linha tradicional, procurando explorar as suas propostas mais extremas ou as suas sugestões mais actuais. Tirando da tradição musical o muito que ela pode dar. Quis realizar uma música de um gosto mais universal e menos para elites. Tenho de facto obras de concepção mais avançada, esta é certamente mais ao gosto clássico."
Pensou certamente na interpretação e nos intérpretes...
"Sim. Recorri a um intérprete que reunisse as características para a figura de Cristo, que constitui o fulcro da composição. Escolhi o Pedro Telles, pelas características da sua voz e das possibilidades da sua interpretação. Vou trabalhar pessoalmente com ele, para tirarmos a máxima expressividade da sua interpretação.
Recorri depois às potencialidades do material da casa: O Coro Polifónico da Lapa, que reúne potencialidades para uma boa interpretação, e à orquestra “Sine Nomine” (que já foi dirigida pelo maestro alemão Johannes Skudlik, que apreciou muito as suas características e potencialidades, afirmando que o surpreendeu). Os outros solistas são o tenor Vítor Sousa (que se encarrega da narrativa) e eu próprio, que farei a leitura das partes de narrativa de voz. Um coro feminino acompanha uma das cantoras do Coro na interpretação do Stabat Mater (em português, segundo o texto da liturgia), assinalando a presença de Maria junto da cruz. A direcção será do Filipe Veríssimo."
Todos os corais que comentam os acontecimentos são retirados da Liturgia das Horas, constituindo sucessivas reflexões e interiorizações ao desenrolar dos acontecimentos (à maneira das Paixões de Bach).
A obra, com a duração de cerca da 70 minutos, inicia-se com um Hino à Cruz (da Liturgia das Horas), e está dividida em duas partes: a primeira, da prisão, julgamento e condenação de Jesus; a segunda, da sua crucifixão e morte. O coro final é conotado com a Sexta-feira Santa, traduzindo o tempo vivido da Paixão. É um texto escrito pelo próprio autor da música, reunindo imagens e simbologias bíblicas, apontando para a esperança da ressurreição, nestes termos:
Uma semente desce à terra
Da terra brota uma flor;
Jardins floridos e frondosos
Trazem ao mundo o esplendor.
O Novo Adão recria o Cosmos,
faz nova a terra, novos os céus.
Artigo relacionado:
Estreia mundial da Paixão segundo São João do P. Ferreira dos Santos
C.F.
in Voz Portucalense, 05.03.2008
06.03.2008
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