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"Uma questão de beleza": casamento e multiculturalismo

O amor, as relações que se estabelecem entre as pessoas, e a comunidade académica são os temas de «Uma Questão de Beleza» (Dom Quixote), o último romance de Zadie Smith, 33 anos, três livros e duas nomeações para o Prémio Booker.

A autora, filha de pai inglês e mãe jamaicana, esteve recentemente em Portugal para apresentar a sua última obra, em que quis sobretudo mostrar um casamento de 30 anos num momento de crise. Excertos da entrevista ao Jornal de Letras.

“Num casamento tem que se pensar na outra pessoa como alguém que está nas nossas mãos, pela qual temos que ser responsáveis. Sinto-me sempre comovida quando penso em pessoas que cuidam dos seus parceiros quando estes têm, por exemplo, um acidente. Um amigo do meu marido foi recentemente atropelado por um carro. Ficou paralisado do peito para baixo. É casado e tem dois filhos pequenos. A mulher ama-o, e por isso tem uma responsabilidade para com esse amor. Vejo essa compaixão como um dos mais comoventes atributos humanos. O casamento, o compromisso entre duas pessoas até à morte, é um dos mais profundos estados da nossa existência. É extraordinário. Vai contra toda a lógica, e exige um esforço inimaginável.”

Os personagens e a narrativa detêm-se sobre as heranças culturais: "Penso que cultura e herança devem ser um prazer. Quando se transformam numa prisão estã na altura de os descartar. As minhas heranças culturais nunca foram imposições. Ninguém me disse que tinha que aprender história jamaicana ou a guerra civil inglesa. As partes das heranças que tenho hoje são aquelas pelas quais me escolhi interessar. Nesse sentido a cultura pode ser enriquecedora".

Sobre o multiculturalismo:

“A cultura é algo que se tem, como braços e pernas. Não se pode estar culturalmente errado. Enquanto cresci ninguém usava essa palavra. Mas todos o vivíamos. E estava tudo bem. Acho que nao é positivo estar sempre a falar nisso, esta constante obsessão com o tema, e a sugestão de que pessoas de diferentes cores são seres humanos diferentes, com qualidades diferentes e dificuldade em viver juntos. Não acredito que falar incessantemente sobre a severidade da diferença ajude de todo. Não discuto o multiculturalismo enquanto conceito porque não creio que seja um conceito. É a própria existência, é a mesma coisa que estar vivo. O que inevitavelmente envolve estar perto de pessoas que não partilham exactamente a nosa cultura, passado genético ou história. É perfeitamente natural.”

Rita Silva Freire

in Jornal de Letras, 21.05.2008

28.05.2008

 

 

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Zadie Smith


























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