Vemos, ouvimos e lemos
Tradição retomada após 40 anos

Há visitas que não se esquecem

Há muito, muito tempo… Este é o início dado a muitas histórias de encantar, mas também se pode aplicar ao que ontem se passou na freguesia de Santa Clara. A paróquia retomou, 40 anos depois, a tradição da visita pascal. E ainda houve quem se lembrasse da última.

O sino ouvia-se ao longe. Andava pelas ruas de Santa Clara a anunciar a visita pascal. Há 40 anos que não se realizava. Talvez por isso e pelo facto da freguesia ter ultrapassado, há vários anos, os traços de ruralidade que ainda nela persistiam, transformando-os, em definitivo, em características urbanas, já nem todos abrem a porta. Outrora, toda a gente se conhecia. Hoje, tal não acontece. Mas ainda são muitos os que se lembram da tradição agora retomada.

Espalhados à porta, fetos, alecrim ou qualquer outra espécie da nossa flora sinalizavam a concordância com a entrada. Pela freguesia de Santa Clara andaram 16 equipas de voluntários. Ao presidente do grupo, que tinha a missão de ler a oração, juntaram-se mais dois elementos: o que apresentava a cruz e o que tocava o sino e transportava o recipiente da água benta. A visita, iniciada após as eucaristias da manhã, repetiu-se na 2.ª feira da Oitava da Páscoa e regressará no domingo de Pascoela.

Várias famílias acolheram com agrado a iniciativa, que teve António Sousa, padre da Paróquia de Santa Clara, um dos principais impulsionadores. De visita à freguesia, depois de ali ter sido colocado «há pouco tempo», o pároco quis conhecer as pessoas e saber das suas necessidades. Foi então que o povo sugeriu: "Se o padre é novo aqui, porque não vem fazer a visita pascal?" O apoio organizativo dos paroquianos ajudou a que a ideia não ficasse na gaveta, com a colocação de papéis nas várias portas da freguesia a divulgar a iniciativa.

"Cristo ressuscitou. Aleluia, aleluia", disse o presidente do grupo e responsável pela leitura da oração, enquanto o elemento que transportava a cruz a dava a beijar a toda a família. De seguida, a casa foi benzida com água benta. Um prato de amêndoas e uma laranja em cima da mesa, onde também estava um envelope com uma "pequena oferta" para a paróquia, deram as boas-vindas ao grupo. Recolhida a contribuição monetária e dois dedos de conversa mais tarde, era hora de visitar outra família.

Este cenário repetiu-se por toda a freguesia de Santa Clara. Lages, Cruz dos Morouços, Bordalo... João Rodrigues, Isménia Filipe e André Flor formaram o grupo que andou, entre outros locais, pela zona de Almas de Freire. Estavam "admirados". "Estamos a ter muita adesão das pessoas", afirmou João Rodrigues. A visita pascal foi ainda aproveitada, acrescentou Isménia Filipe, para distribuir os cartões da visita pastoral à freguesia. Questionados sobre o futuro da visita, não hesitaram: "Temos força e vontade para continuar".

Mais abaixo, na zona das Lages, andou o padre António Sousa. Aliás, não houve hipótese de ver as visitas repetidas. É que, antecipadamente, foi definida a zona dos grupos. Cada um sabia o caminho a percorrer e as portas a que bater. Segundo foi possível saber, apesar de ser dia de Páscoa, foi "fácil arranjar voluntários para a visita". "É tudo gente que está ligada à paróquia", revelaram, antes de exprimirem a sua satisfação: "Encontrámos pessoas que se lembram do que era feito há 40 anos. Emocionam-se e recordam-se do seu tempo". Foi o caso do pai de Isménia Filipe, com 94 anos. Prova de que há tradições que não se esquecem e vale sempre a pena retomar.

João Henriques

in Diário de Coimbra, 24.03.2008

25.03.2008

 

 

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