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A atualidade da espiritualidade dos Padres do Deserto, na Quaresma e em todos os dias

No século IV aparecem no Egito pessoas solitárias que serão denominadas Padres do Deserto. Estes homens – a Tradição transmitiu também o nome de três mulheres – vivem no deserto para estarem sós com Deus. A reputação de um solitário atraía discípulos que se formavam junto dele para a vida monástica. Os agrupamentos monásticos podiam constituir-se em torno a pontos de água e, mais tarde, de uma igreja onde os eremitas celebravam em conjunto a missa. Esta proximidade permitia-lhes também entreajudar-se, por exemplo no tratamento de doenças.

A par da cultura de um pequeno jardim, entrançavam cestos ou esteiras com juncos recolhidos junto à água. Muitas vezes, um deles estava encarregado de vender nas povoações os produtos do trabalho de todos. Alguns ganhavam a vida copiando manuscritos. Além da recitação de salmos aquando do seu ofício litúrgico diário, a sua oração consistia em “meditar”, quer dizer, recitar longas passagens da Bíblia conhecidas de cor. Reuniam-se para uma celebração comum no sábado à noite, e para a missa no domingo.

Os apotegmas transmitem as “palavras” dos Padres, muitas vezes sob a forma de pequenas histórias. Os mais antigos remontam seguramente ao século IV, mas as coleções de apotegmas tal como nos chegaram foram preparadas no deserto de Judá, ao sul de Jerusalém, sem dúvida na primeira metade do século VI. Os discípulos repetiam as palavras escutadas dos seus mestres antes de terem sido fixadas por escrito e constituídas recolhas.

Estas palavras, breves diálogos ou pequenas narrações, fáceis de ler, continuam hoje a suscitar interesse porque oferecem um fino conhecimento do coração humano, ainda mais pertinente porquanto os seus autores procuraram viver o amor de Deus e o amor fraternal. Um pouco como os pais conhecem os seus filhos e se esforçam por os ajudar a tornarem-se adultos, estes mestres fazem o melhor que conseguem para ajudar os seus discípulos a crescer espiritualmente. Só ensinam o que praticam. Muitas vezes, aliás, mais do que dar um conselho, o mestre contenta-se em dar o exemplo.

Os monges do deserto mostram o caminho da autenticidade. Ensinam-nos a indispensável escuta do silêncio para o autoconhecimento. Solitários, são no entanto peritos na arte de viver em conjunto, pela prática da misericórdia e na moderação na palavra que julga.

 

Santo Antão: Vida e inspiração para hoje

A cena passa-se seis meses após a morte dos pais de Antão. O jovem tem entre 18 e 20 anos e é o responsável pela sua jovem irmã.

«António entra na igreja, no momento em que precisamente se lia o Evangelho; ele escuta o Senhor dizer ao rico: “Se queres ser perfeito, vai, vende tu o que possuis e dá-o aos pobres, e terás um tesouro nos céus. Depois vem, segue-me”. Depressa Antão vende os seus bens e dá-os aos pobres. Reserva parte deles para a sua irmã. Mais tarde, de novo na igreja, escuta: “Não vos preocupeis pelo amanhã…”. Depois de ter confiado a sua irmã a virgens de uma fé e piedade reconhecidas, dedica-se próximo da sua casa à vida ascética. Nesse tempo, no Egito, quem queria trabalhar para a sua perfeição exercitava-se à parte, retirando-se para uma certa distância da sua povoação… Ele trabalhava com as suas mãos. Orava continuamente» (“A vocação de Santo Antão segundo Santo Atanásio”, séc. IV).

Durante a Quaresma, decido reservar a cada dia um tempo à oração silenciosa e um momento de leitura meditada da Palavra de Deus, por exemplo, o Evangelho do dia.

1. Determino um horário e uma duração para estes dois momentos diários, a fim de manter o meu compromisso ao longo da Quaresma. Podem ser distintos ou estar associados. O hábito e a rotina serão uma ajuda preciosa.

2. Decido exercer uma contenção – um jejum – num ou noutro domínio do consumo não indispensável, para ganhar em liberdade interior. Exemplo: não consulto o meu telemóvel durante determinado limite horário.

3. Se a situação sanitária o permitir, um retiro num centro de espiritualidade ou mosteiro permite tomar distância do dia a dia, beneficiar de um acolhimento espiritual por uma pessoa experimentada com quem poderei falar.


 

P. Ugo Zanetti/Le Pèlerin, Christophe Chaland, Le Pèlerin
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Anton Petrus/Bigstock.com
Publicado em 23.02.2021

 

 
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