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A casula que olha com amor: Pastoral da Cultura nos Açores

A equipa da Pastoral da Cultura da Ilha de São Miguel, nos Açores, realizou a 13 de janeiro a II Oficina de Arte e Mística Cristã, com oito “workshops” sobre a espiritualidade cristã pela arte.

Um desses cursos designava-se “Arte & Design”, e tinha como objetivo a conceção de uma moderna casula, sob a orientação técnica da artista Cláudia Borges, de nome artístico Dinina Design®.

O trabalho desenvolveu-se em equipa. A casula deveria ter 120 x 160 cm. Foram feitos os desenhos, definidos vários pormenores, como os tecidos a usar na confeção, com diferentes texturas e cores.

Discutiu-se a distribuição espacial, com a finalidade de apresentar uma imagem e fazer passar uma mensagem marcante. Seria uma peça grande, não apenas na dimensão, mas sobretudo na carga simbólica.



Imagem Cláudia Borges, P. Ricardo Tavares | D.R.

Imagem Cláudia Borges, P. Ricardo Tavares | D.R.


A moderna peça de arte sacra

A casula seria constituída de linho, ganga e dois tipos de serapilheira.

O linho, um dos tecidos arcaicos da humanidade — considerado um luxo pelos antigos egípcios —, é uma fibra natural com características muito peculiares. Este tecido torna-se mais forte quando molhado; é resistente, durável, curativo, delicado, transparente, leve, fino, elegante, absorvente. Depois de lavado e seco, é deveras desafiador engomá-lo, pois deixa marcas irreversíveis.

Por sua vez, a serapilheira é um tecido de junco, grosseiro, deita fibras, não é elegante nem absorvente. Era usada para envolver fardos, confeccionar sacas ou trajes de camponeses, estando por isso conotada como o tecido dos pobres. Usou-se em cor natural e azul-escuro.

Utilizou-se ganga de algodão azul-escuro, tecido rústico, pesado, forte, muito resistente, outrora concebido para peças de roupa dos marinheiros genoveses, no séc. XVI, daí a designação de jeans. Trata-se de um tecido jovem, mas para qualquer idade, democrático, intemporal, belo, sempre na moda, presente em qualquer roupeiro.

Os tecidos foram lavados em separado e tratados. Simultaneamente, criou-se o molde da casula, um autêntico puzzle. As peças foram talhadas, engomadas e identificadas com números e localizações.



Imagem Cláudia Borges, P. Ricardo Tavares | D.R.

Imagem Cláudia Borges, P. Ricardo Tavares | D.R.


Túnica de uma só peça

A túnica de Jesus, toda tecida de uma só peça de alto a baixo, não tinha costuras (cf. Jo 19, 23).

Embora a casula viesse a ser constituída de várias partes, a intenção era atingir uma unificação heterogénea, uma unidade na diversidade.

Os tecidos foram cortados em oito panos assimétricos, de cores diferentes, criando entre eles a Cruz de Cristo, uma à frente, outra atrás.

Tanto na parte anterior como na posterior, foram aplicados, com linha resistente, os quatro tipos de tecidos, em combinações distintas.

No centro da parte anterior, foi criado um coração, na forma de um olho, de serapilheira natural e ganga, a íris em linho e a pupila em serapilheira azul-escura.

No centro da parte posterior, foi confecionado, com os quatro tipos de tecido, um coração irregular.



Imagem Cláudia Borges, P. Ricardo Tavares | D.R.

Imagem Cláudia Borges, P. Ricardo Tavares | D.R.


Uma simbologia complexamente simples

A peça exprime, na totalidade, uma intensa carga simbólica.

Em primeiro lugar, os vários tipos de tecido: o linho, branco, casto, aponta para a vida espiritual, a luz, a pureza, a beleza, pelo que representa o amor; a ganga, firme, resistente, remete-nos para dureza do trabalho, que forma o carácter e conduz a novos horizontes; a serapilheira, áspera, bruta, lembra-nos a humilde terra em que somos moldados e que podemos embelezar com o azul de uma cultura espelhada no transcendente, no Céu.

Estes três tipos de tecido também simbolizam as várias fases da vida: infância (linho), ganga (juventude), serapilheira (adultez e velhice). No coração de Cristo têm todos lugar. Somos todos chamados ter um coração como o de Cristo, ou seja, vocacionados à santidade, sendo crianças, jovens, adultos e idosos. Uns tecidos são mais ricos que outros: independentemente do nível sócio-económico, encontramos todos espaço entre os braços do coração de Deus.

As várias cores também exprimem as sensações em diversos momentos. As fases difíceis, tristes, revêem-se nos três tecidos escuros (ganga e serapilheira), símbolos da escuridão da fé, que, por serem robustos, significam que é nessas situações que somos fortalecidos, iluminados. No tecido mais claro (linho) redigimos a alegria e a ingenuidade das horas fáceis, irradiantes, passageiras, feitas de amor frágil.

O coração em forma de olho é a materialização textual do amado do Cântico dos Cânticos: Levantaste-me o coração, minha irmã, minha esposa; levantaste-me o coração com um dos teus olhos. (4, 9) De facto, esse olho representa o olhar da esposa — a Igreja — que olha o esposo — Cristo — com o amor de quem é amada; e representa o olhar transformador do esposo, que embeleza a esposa com o seu amor infinito. A íris, de linho, claro, exprime a elegância, a transparência, desse olhar curador, amoroso. A pupila, em sarapilheira azul-escura, manifesta a profundidade e a potência desse olhar sadio, que vê o coração para além da exterioridade.

O coração irregular expõe que nenhum coração humano é perfeito. É precisamente por isso que o coração humano-divino de Cristo o envolve de amor.

Criar uma peça simbolicamente tão rica foi uma experiência verdadeiramente transcendente, porque pudemos materializar, numa obra de arte, a essência do amor.



Imagem Cláudia Borges, P. Ricardo Tavares | D.R.

 

Texto e imagem: Cláudia Borges, P. Ricardo Tavares
Publicado em 07.03.2019

 

 
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