

«Três anjos ao alto sobre a estrada/ Cada qual tocando uma trombeta/ De túnicas verdes vestidos com asas abertas/ Estão lá desde a manhã de Natal/ (...)/ Os anjos tocam as suas trombetas todo o dia/ Toda a Terra em progressões parece passar ao lado/ Mas alguém ouve a música que tocam?/ Haverá alguém que sequer experimente?» (Bob Dylan).
É o início e o fim da balada "Três anjos" desse extraordinário personagem que é Bob Dylan, cantor e autor americano de origem russa e hebraica. Hoje, no dia dedicado pelo calendário litúrgico aos anjos da guarda [2 de outubro], recolhemos a sua mensagem.
Desde que se expuseram a anunciar com os outros inumeráveis colegas o nascimento de Cristo, estes mensageiros divinos permaneceram no céu que pende sobre as nossas cidades ruidosas e distraídas (como não recordar o anjo do filme "O céu sobre Berlim", de Wim Wenders?).
Infelizmente, o céu foi contaminado, e não apenas pelos resíduos industriais, mas também porque foi velado pela poeira do esquecimento da humanidade distraída.
As pessoas têm bem mais em que pensar (e Dylan, na sua balada, faz passar o elenco de uma humanidade variada, ocupada e preocupada) e estão recurvadas sobre a terra. Os rumores ensurdecedores das máquinas impedem que escutem o som dos anjos tocadores, que desejariam fazer-nos, por um instante, olhar para o alto.
É esta a evidente parábola de uma sociedade dispersa, que tem os ouvidos obstruídos para poder escutar palavras altas e espirituais. Na verdade, ela deixa-se antes capturar por um anjo obscuro e terreno, o demónio, que – como dizia o poeta espanhol Antonio Machado (1875-1939) – nos sussurra: «Virás comigo... E avancei no meu sonho,/ cegado pela vermelha luminária./ E na cripta senti soar cadeias,/ e o agitar de feras enjauladas».
P. (Card.) Gianfranco Ravasi
Anjos em adoração (det.) | Benozzo Gozzoli | 1459-1461 | D.R.