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Casa que habito, casa que sou

Percebo o «dentro» e o «fora», o ter casa e o não ter, o ser casa e o não ser.

O «dentro» é a intimidade, a comunhão, o aconchego, o lugar que é meu, da intimidade partilhada de poucos, da subjetividade em comunhão. O dentro de casa é o lar, a morada feliz.

O fora de casa significa o desconhecido, a rua, o trabalho, a competição, o desafio de viver na conquista do dia a dia.

Quem habitará, Senhor, a vossa casa?

A casa de Deus é a Criação inteira. Dentro de cada ser mora Deus, Trindade Santa, e toda a Criação espelha a sua presença.

Durante muitos anos, Deus morou numa tenda, com o seu povo, acampando e partindo, no coração e na frente do povo, na busca de um lugar próprio de comunhão, na criação. E, quando chegou à Terra Prometida, o povo construiu uma casa para que Deus habitasse a sua terra, Ele que havia acompanhado a peregrinação do povo.

Ter casa é ter um lugar na Criação, é ter um chão, é ter um lugar na terra, um lugar seu, é fazer a terra sua, sentir a terra sua. Os sem-teto, os sem-casa, os moradores de rua, os sem-terra, os em guerra, ainda não têm lugar, a terra não é sua, ainda não têm um lugar na Criação. Ter casa é ter um lugar que garante o direito da pessoa ser pessoa, com o seu espaço, com as suas relações de comunhão, pessoa fonte de afetos e de intimidade. Nem sempre a casa é o lugar de concretização dos ideais de vida. Mas a casa será sempre o lugar da intimidade do amor, da proximidade, da confiança, da pertença. Através da casa aprendemos a ser acolhidos, a dormir e a repousar e a assentar os nossos pés no mundo.



Cada divisão tem um significado. Os quartos representam a intimidade: um é o quarto dos desejos, outro o quarto dos sentimentos, e o outro o quarto dos propósitos/decisões. Hoje mesmo encontrar-me-ei comigo na minha própria casa



Os jovens que casam precisam de casa. A casa é o lugar que abriga o lar, o conforto, a pertença, o encanto do coração partilhado na comunhão do amor. A casa é o lugar da geração da vida e da identidade da vida. A nossa primeira casa foi o ventre da nossa mãe. Nos seus braços aconchegamo-nos na «nossa» casa, onde aprendemos a andar e a falar, a ser. E da casa «nossa» chegámos ao mundo e tornámo-nos capazes de nos sentirmos em casa, em qualquer parte do mundo onde estejamos. Naquele ventre, naqueles braços e naquele sorriso, naquele aconchego da nossa casa, onde os nossos pais e os nossos irmãos almoçavam, falavam, brincavam e dormiam, aprendemos a sentir-nos casa, a ter música dentro de nós, a ter palavras, sentimentos, experiências de pertença, carinho e cuidado. Aprendemos a ser casa: onde estejamos, somos casa.

Somos habitados, lugar onde Deus mora, onde nós próprios moramos, onde as pessoas moram. Moram muitos encantos dentro de nós. Somos casa.

Quem habitará, Senhor, a vossa casa?

Casa limpa ou casa suja, casa conflituosa ou casa cheia de paz, casa de agressão e violência, casa cheia de amor, casa de justiça e casa de injustiça, casa de palha ou de papelão, casa mansão, casa de taipa, casa redonda ou quadrada, oca dos índios onde todos moram, casa de sonhos e de projetos.

Quem habitará, Senhor, a vossa casa?

O explorador, o assassino, o ganancioso e o opressor, o predador? O garimpeiro da verdade e da justiça habitará a vossa casa. Aquele onde mora Deus habitará a casa de Deus.

Quando me sinto cansado e fora de mim, volto a casa e recupero o meu ser. Abraço o amor e retomo a vida, o fio da vida que se estava a perder. Quando não estamos bem connosco, fugimos de casa. Hoje, a pessoa humana é mais rua do que casa.



A cozinha: preciso de cozinhar, alimentar-me, manter acesa a chama, o calor do fogão, o calor da casa, o ambiente acolhedor da casa. Eu sentar-me-ei à minha mesa. Que pessoas eu acolherei na minha mesa? Como posso tornar o meu ser mais motivado, mais caloroso, mais saboroso?



A casa é o lugar onde a gente chega e encontra um coração que é nosso.

A formação e a integração do «dentro» e do «fora» é uma das tarefas mais importantes da pessoa na constituição do seu «eu», até chegar ao ponto de se perceber «dentro» e de perceber o «fora», o mundo, de se perceber fora de si mesmo e dentro de si mesmo, de perceber o fora de si mesmo, o outro. A casa é um dos elementos que contribuem para a constituição do «fora» e do «dentro», do si mesmo e do outro, da relação de alteridade.

A casa é a primeira organização dos nossos espaços e dos nossos sentidos: o quarto dos meninos, o quarto das meninas, o quarto dos pais, a sala, a cozinha, o armário da roupa, a estante dos brinquedos, a mesa da sala de jantar, o armador da rede e o berço do bebé. Dentro de casa estrutura-se a nossa partilha, a nossa democracia e a nossa tirania, a nossa organização e a nossa desorganização, a nossa sexualidade, as nossas rejeições e afeições, o nosso calor e a nossa indiferença, a nossa sensibilidade e a nossa insensibilidade, o nosso individualismo e a nossa solidariedade, a matriz do nosso pensar e de organizar a vida. Na casa aprendemos a paz e a guerra, a dividir e a partilhar o espaço.

A casa é um projeto de mundo. Nela percebemos a economia e as relações sociais, o individualismo e o consumismo, a violência e a agressão; e, também, a fraternidade, a solidariedade e a paz. «Se o Senhor não construir a casa, em vão trabalham os construtores.» Se o amor de Deus não estiver presente na nossa vida, em vão trabalharemos cada dia.

 

Minha casa, minha vida, meu projeto

Imagino uma casa com três quartos, uma cozinha, duas salas, uma cave, o telhado, uma área de serviço, uma área de trabalho/oficina, uma casa de banho, o alicerce, um ou mais corredores de acesso e o lugar do mistério de ser.

Cada divisão tem um significado.

Os quartos representam a intimidade: um é o quarto dos desejos, outro o quarto dos sentimentos, e o outro o quarto dos propósitos/decisões.

As salas representam lugares de encontro, sendo uma a sala do diálogo, e outra a sala de estudo, com livros e outros meios de formação continuada.

A cozinha significa o acolhimento, o aconchego. Costuma-se dizer que «o melhor lugar é a cozinha».

O alicerce significa os valores que fundamentam a casa.

A cave é aquele lugar onde escondo algumas coisas.

O corredor corresponde à comunicação, ao acesso entre os lugares da casa.

O telhado é a proteção da casa, significa as minhas defesas.

A área de serviço significa as ferramentas de trabalho que preciso ter, ou de que gosto, para realizar certos trabalhos.

Na área de trabalho ou oficina faço trabalhos com as minhas mãos, faço arte, recrio a vida, aperfeiçoo a minha arte de curar, de abençoar, de contribuir com a vida.

A casa de banho é o lugar da limpeza.

E há aquele lugar da experiência mística, lugar do Mistério, de cultivo da experiência mística, de onde irradia a luz, a bondade, a verdade, a beleza que unem todos os momentos e também as partes do meu ser, o lugar do sentido e da reconciliação das minhas contradições, lugar do amor, um pequeno santuário que torna a minha casa sagrada, unificada, integrada.

Preciso de ter casa, preciso de ser casa.
Preciso de ser a casa de mim mesmo.
Preciso de ser um lugar de comunhão.
A felicidade estará onde eu estou.
Hoje mesmo encontrar-me-ei comigo na minha própria casa.

 

Aproveito o símbolo desta casa para reelaborar o meu projeto de vida

Os quartos são três, a intimidade considerada em três aspetos. O quarto dos desejos: quais são os meus desejos? O quarto dos sentimentos: que sentimentos gostaria de cultivar em mim? O quarto dos propósitos, das decisões: que decisões preciso de tomar para continuar a crescer no meu processo de vida feliz?

A sala do diálogo: sinto necessidade de falar com alguém sobre algum assunto que me preocupa?

A sala de estudo: o que desejo estudar/aprofundar para viver mais confiante, mais preparado, mais enriquecido?

A área de trabalho/oficina: que coisas estou a fazer, ou preciso de fazer, realizando a minha criatividade e a minha comunhão com a Criação de Deus?

Na área de serviço: vassoura, tanque, sabão, enxada, ferramentas de jardinagem... como estou a usufruir destes bens?

A cave: o que ainda trago escondido que gostaria de abandonar, reciclar, transformar?

O alicerce: quais os valores que preciso de colocar e desenvolver como fundamentos de minha vida?

A casa de banho: que limpeza preciso de fazer em mim?

O corredor: como sinto os canais da minha vida – bloqueados, livres, fluentes?

A cozinha: preciso de cozinhar, alimentar-me, manter acesa a chama, o calor do fogão, o calor da casa, o ambiente acolhedor da casa. Eu sentar-me-ei à minha mesa. Que pessoas eu acolherei na minha mesa? Como posso tornar o meu ser mais motivado, mais caloroso, mais saboroso?

O telhado: costuma-se dizer que não é bom ter um telhado de vidro. Como sinto as minhas defesas, maduras ou desequilibradas? Sinto-me aberto ou fechado? Como costumo reagir diante das coisas que me incomodam? Quais são as coisas que sempre me incomodam?

O santuário interior, lugar do mistério, habitação de Deus Trindade Santa, morada do amor, fonte da minha vida: como posso cultivar melhor a minha experiência mística? Que devo fazer para caminhar dentro do mistério de Deus, do mistério do universo, do mistério de cada pessoa que vive ao meu lado, do mistério de mim mesmo?


 

P. José Luís Coelho, CSh.
In "A tua voz no meu silêncio", ed. Paulinas
Imagem: Wollwerth Imagery/Bigstock.com
Publicado em 02.04.2020

 

 
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