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Da dignidade do cristianismo e da indignidade dos cristãos (II)

É frequente defender-se que o cristianismo falhou, que não se realizou historicamente – e daí se retira um argumento contra ele. Não somente os cristãos, mas a história da Igreja ela mesma testemunha contra o cristianismo. É preciso reconhecer que a leitura de obras tratando da história da Igreja pode constituir um escândalo para aqueles cuja fé vacila. Esses livros falam da luta no mundo cristão, das paixões e dos interesses humanos, da depravação e da deformação da verdade na consciência da humanidade pecadora: tantas vezes nos mostram uma história da Igreja singularmente análoga à dos governos, à das relações diplomáticas, à das guerras, etc.

A história exterior da Igreja é visível, pode ser exposta de uma maneira acessível a todos. Mas a sua vida espiritual e interior, a conversão dos homens a Deus, o desenvolvimento da santidade são menos aparentes; é mais difícil falar deles, porque a história exterior vela-os, de certo modo, e por vezes esmaga-os. Os homens distinguem mais facilmente o mal do que o bem, são mais sensíveis ao lado exterior da vida do que à vida interior. Aprendemos com facilidade tudo o que diz respeito ao exterior dos seres, as suas ocupações comerciais ou políticas, a sua vida familiar ou social. Mas pensaremos nós o suficiente no modo como os homens rezam a Deus, como orientam a sua vida interior em direção ao mundo divino e lutam espiritualmente contra a sua natureza?

Não raro, desconhecemos e nem desconfiamos da existência de uma vida espiritual nos seres que encontramos, pois nem sequer a discernimos naqueles que nos são próximos e aos quais prestamos uma atenção particular. Na vida exterior, que se oferece a todos os olhares, descobrimos com facilidade a ação das paixões nefastas. Mas o que são, por detrás delas, as lutas do espírito, os voos até Deus, os esforços dolorosos para viver a verdade de Cristo, não sabemos ou não queremos saber. Dizem-nos para não julgarmos o nosso próximo, mas julgamo-lo constantemente pelos seus atos exteriores, pela expressão do seu rosto, sem chegarmos a aprofundar a sua via interior.



A dita “queda do cristianismo na história” é uma queda ligada à liberdade humana, à resistência a essa liberdade de Cristo, à oposição da má vontade que a religião não quer constranger ao bem



Assim acontece com a história do cristianismo, que não podemos julgar pelos seus factos exteriores, pelas paixões e pelos pecados humanos que deformam a sua imagem. Devemos recordar o que os povos cristãos tiveram de ultrapassar na história, quais foram os esforços comoventes para vencerem a sua antiga natureza, o seu paganismo ancestral, a sua antiga barbárie, os seus instintos grosseiros. O cristianismo teve de penetrar a matéria que opunha uma resistência temível ao espírito cristão. Era necessário elevar na religião do amor aqueles cujos instintos eram de violência e de crueldade. Mas o cristianismo veio salvar os doentes não os saudáveis, os pecadores e não os justos. E o género humano, convertido ao cristianismo, é um doente e um pecador. A Igreja de Cristo não é chamada a organizar a vertente exterior da vida, a vencer o mal com violência. Ela procura todo um renascimento interior e espiritual, a ação recíproca da liberdade humana e da graça divina. Pela sua natureza, o cristianismo não pode destruir o arbitrário, o mal na natureza humana, dado que reconhece a liberdade do homem.

Os socialistas materialistas proclamam com prazer que o cristianismo não foi bem sucedido, que não realizou o Reino de Deus. Basta ver que o Redentor e Salvador veio à terra há dois mil anos e o mal continua a existir, aumentando mesmo, o mundo está saturado de dores e os sofrimentos da vida não diminuíram pelo facto de a salvação se ter cumprido. Os socialistas materialistas prometem realizar sem Deus e sem Cristo o que Cristo não pôde cumprir: a fraternidade dos homens, a justiça na vida social, a paz, o Reino de Deus sobre a terra (e os homens que não creem empregam com facilidade a expressão: “O Reino de Deus sobre a terra!”).



A realização aqui do Reino de Deus, da felicidade e da justiça terrestres, sem cruz nem sofrimento, é uma imensa mentira para a consciência cristã. É uma das tentações que Cristo sofreu no deserto quando lhe mostraram os reinos do mundo e lhe propuseram de se prostrar diante deles



A única experiência que conhecemos da realização do socialismo materialista é a experiência russa e essa não deu os resultados esperados. Mas não é aí que está a solução para a questão. A promessa feita pelo socialismo materialista de fazer reinar a justiça sobre a terra, de eliminar o mal e o sofrimento, baseia-se não sobre a liberdade humana, mas bem mais sobre a violação dessa liberdade; realizar-se-á através de uma organização social imposta que tornará o mal exterior impossível obrigando os homens à virtude, ao bem e à justiça. E nessa obrigação reside a grande diferença entre o socialismo e o cristianismo. A dita “queda do cristianismo na história” é uma queda ligada à liberdade humana, à resistência a essa liberdade de Cristo, à oposição da má vontade que a religião não quer constranger ao bem. A verdade cristã supõe a liberdade e espera a vitória interior e espiritual sobre o mal. Exteriormente, o Estado pode impor um limite às manifestações de má vontade, e é chamado a fazê-lo, mas não é assim que o mal e o pecado serão vencidos. Esse dilema não existe para o socialismo materialista dado que, para ele, o problema do mal e do pecado, o problema da vida espiritual não se colocam; uma só questão se coloca: a do sofrimento e da injustiça social, a da organização exterior da vida.

Deus não quer usar a força. Não deseja o triunfo exterior da justiça, Ele deseja a liberdade do homem. Assim podemos dizer que Deus suporta o mal e se serve dele para fins de bondade. A justiça de Cristo, em particular, não se pode realizar através da violência. O comunismo quer atingir a sua justiça pela arbitrariedade, nega a liberdade do espírito e é por isso que lhe é mais fácil realizar essa justiça. Além disso, o argumento baseado sobre o fracasso histórico do cristianismo é insustentável. Não se pode impor o Reino de Deus, não se pode realizar sem um novo nascimento que supõe sempre a liberdade do espírito. O cristianismo é a religião da cruz, reconhece um sentido no sofrimento. Cristo incita-nos a tomar a nossa cruz e a transportá-la, a transportar o fardo do mundo pecador. A realização aqui do Reino de Deus, da felicidade e da justiça terrestres, sem cruz nem sofrimento, é uma imensa mentira para a consciência cristã. É uma das tentações que Cristo sofreu no deserto quando lhe mostraram os reinos do mundo e lhe propuseram de se prostrar diante deles. O cristianismo não promete a sua realização e o seu triunfo aqui. Cristo duvida mesmo que venha a encontrar Fé sobre a terra quando vier no fim dos tempos, predizendo o enfraquecimento do amor.

     

Tolstoi acreditava que era fácil realizar os mandamentos de Cristo, que para isso era suficiente reconhecer a sua verdade. Mas estava aí o erro do seu conhecimento demasiado racionalista; o mistério da liberdade e da graça era-lhe inacessível; esse otimismo contradizia a profundeza trágica da vida. O apóstolo Paulo diz: «Não faço o bem que desejo fazer, mas faço o mal que não gostaria de praticar. Se eu faço o que não gostaria de fazer, já não sou eu que o faço, mas o pecado que habita em mim» (Epístola aos Romanos, capítulo VII, versículos 19 – 20). Esse testemunho de um dos maiores cristãos desvela-nos a profundidade do coração humano. Faz-nos compreender que “a queda do cristianismo” é uma queda humana e não um fracasso divino.


 

Nikolai Berdiaev
Versão de Ruy Ventura
Imagem: flyently/Bigstock.com
Publicado em 12.03.2020

 

 
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