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Da dignidade do cristianismo e da indignidade dos cristãos (IV)

A fé cristã apela a que procuremos, primeiro, o Reino de Deus e a perfeição divina. À fé cristã são, todavia, estranhos o devaneio, a utopia, o falso maximalismo. O cristianismo é realista e os santos padres apelaram sempre à sobriedade espiritual. A consciência cristã vê todas as dificuldades que se encontram no caminho da vida perfeita, mas sabe que o Reino dos Céus deve ser forçado e que os violentos o arrebatam. O cristianismo quer que ajamos do interior para o exterior e não do exterior para o interior. Não se pode obter, através de um caminho externo e imposto, a vida individual e social perfeita; um novo nascimento espiritual, interior, é indispensável. Esse novo nascimento procede da liberdade e da graça. Não se podem criar bons cristãos ou uma sociedade cristã perfeita através do constrangimento. Uma mudança efetiva, real, na alma dos indivíduos e dos povos é necessária. O facto de os homens serem chamados cristãos não significa ainda que tenham atingido uma vida perfeita. A realização, na vida, da perfeição cristã é uma tarefa difícil e infinita. A negação do cristianismo, devida à imperfeição dos cristãos, é na realidade uma ignorância e uma incompreensão do pecado original. Quem tem consciência do pecado original veem na indignidade dos cristãos uma confirmação e não um desmentido da dignidade do cristianismo. A religião cristã é a religião da Redenção e da Salvação, lembrando que o mundo fica satisfeito com o mal. Bastantes doutrinas pretendem que se pode atingir a vida perfeita sem uma vitória real sobre o mal, mas o cristianismo, ele, não pensa assim, pois procura essa vitória, um novo nascimento e um renascimento; é mais radical, chega a exigi-lo.



Tinha-se acumulado no mundo cristão muita hipocrisia, mentiras, convenções e retórica. Um levantamento era inevitável



Na história, demasiados homens, demasiadas coisas revestia, sem na realidade o merecerem, as tabuletas e as insígnias cristãs. Nada há de mais abjeto que uma mentira, do que a simulação, a hipocrisia. Esse estado de coisas provocou um protesto e uma revolta. O Estado transportava os símbolos e os distintivos do cristianismo, intitulava-se cristão sem na realidade o ser. E o mesmo se poderia dizer da vida, da ciência e da arte, da economia e do direito, de toda a cultura cristã. Chegava-se a justificar através do cristianismo a exploração do homem pelo homem na vida social, apoiando os ricos e os fortes deste mundo. No mundo cristão vivia ainda o antigo pagão, chamado à edificação da vida cristã, mas fomentando ainda as más paixões. A Igreja influenciava interiormente, mas não podia vencer, através da violência, a sua antiga natureza. É um processo interior, escondido, invisível. O Reino de Deus vem sem se dar por isso. Tinha-se acumulado no mundo cristão muita hipocrisia, mentiras, convenções e retórica. Um levantamento era inevitável. A revolta contra o cristianismo e o seu abandono manifestavam, muitas vezes, apenas um desejo sincero de ver o exterior semelhante ao interior. Se dentro não há cristianismo, fora também não deve existir. Se o Estado, a sociedade, a cultura não são cristãs interiormente, não se lhes deve dar esse título. Não é preciso simular e mentir. Esse protesto teve um lado positivo: o ódio à mentira e o amor à verdade. Mas, a par da verdade e da sinceridade, do protesto contra a mentira e a hipocrisia, manifesta-se uma nova mentira, uma nova hipocrisia.

Partindo do princípio de que os homens e a sociedade só eram cristãos exteriormente, num simulacro, chegou-se a afirmar que o cristianismo é uma quimera e uma mentira, considerando-se o fracasso dos homens como um fracasso da religião cristã. Imaginou-se de seguida ter-se atingido um nível mais elevado, uma maior perfeição, uma confissão de fé mais autêntica. A hipocrisia cristã foi substituída pela hipocrisia anticristã. Os adversários do cristianismo julgam-se melhores, mais esclarecidos que os cristãos, conhecendo melhor a verdade. A bem dizer, são seres seduzidos pelo mundo, que renegam a verdade porque foram seduzidos pelas suas deformações do que por ela mesma. São inferiores aos cristãos, dado que deixaram de sentir-se pecadores. Nietzsche combateu apaixonadamente o cristianismo ao ver apenas cristãos degenerados e exteriores; quanto à fé cristã, nunca soube aperceber-se dela e compreendê-la.



O cristianismo, ele mesmo, ensina-nos que só pode ser cumprido por intermédio das forças humanas. O impossível para o homem é possível para Deus



O mundo cristão sofreu uma crise que o abanou até às profundezas do seu ser. O cristianismo exterior, simulado, falsamente retórico, já não pode existir, pois a sua época passou. Unir na vida os ritos a um paganismo mentiroso torna-se impossível. Uma era de realismo efetivo começa, na qual se descobrem as realidades primordiais da vida, onde todos os véus exteriores caem, onde a alma humana é colocada em face dos mistérios da vida e da morte. As convenções, as formas políticas e governamentais perderam todo o seu significado. A alma humana quer penetrar na profundidade da vida, quer saber tudo o que é útil e essencial, quer viver na verdade e na justiça.

Na nossa época, sob a influência de todas as comoções sentidas, as almas nascem e têm sede, sobretudo, de uma verdade que nada vele, que nada deforme. O homem está farto de mentira, de convenções, de todas as formas exteriores e de todos os signos que substituíram as realidades da vida. A alma humana procura ver a verdade do cristianismo, sem ser por intermédio dessa mentira que os cristãos nela introduziram, querendo associá-la nada mais do que a Cristo. Por causa da indignidade dos cristãos, esquecemos Cristo, deixámos de vê-lo. O renascimento cristão será, também, antes de mais, uma chamada a Cristo, à sua Verdade, libertada de todas as deformações e adaptações humanas. A consciência da invencibilidade do pecado original não deve enfraquecer, no homem, a consciência da sua responsabilidade na construção da obra de Cristo no mundo, nem sequer paralisar o seu esforço ao serviço dessa obra. A realização do cristianismo, da Verdade e dos mandamentos de Cristo parece, aos olhos do homem, uma tarefa abominável e desesperada. Mas o cristianismo, ele mesmo, ensina-nos que só pode ser cumprido por intermédio das forças humanas. O impossível para o homem é possível para Deus. Aquele que crê em Cristo sabe que não está sozinho, que Cristo está com ele, que é convocado para realizar a Verdade de Cristo na vida, com Cristo, Ele mesmo, seu Salvador.


 

Nikolai Berdiaev
Versão de Ruy Ventura
Imagem: mathes/Bigstock.com
Publicado em 12.03.2020

 

 
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