Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura
Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura

Dalila Lello Pereira da Costa: Três instantes de uma mística (quase) desconhecida

«Há mais coisas no céu e na terra do que sonha a tua filosofia, Horácio» (“Hamlet”, Shakespeare)

Dalila Lello Pereira da Costa (1918-2012) é uma autora praticamente desconhecida do grande público. Trata-se, no entanto, de uma figura ímpar, que viveu intensamente, mas de forma muitíssimo reservada, um conjunto de importantes experiências místicas. O seu caráter simultaneamente nobre e modesto, humilde e frontal, parece uma expressão da alma portuense, cidade onde viveu e que profundamente amou.

Começou a publicar depois dos cinquenta anos, quando recebeu, veremos, a missão de escritora. Para além dos seus estudos sobre Fernando Pessoa ou Gil Vicente, Guimarães Rosa ou Camões, tem ainda livros como Introdução à Saudade (com Pinharanda Gomes), Da serpenta à Imaculada, Místicos portugueses do Século XVI, A Ladainha de Setúbal ou Corografia Sagrada e As margens sacralizadas do Douro. No entanto, os livros que nos vão servir aqui de guia são A força do mundo e Os instantes nas estações da vida, sua autobiografia espiritual. Por estas obras esperamos mostrar os três momentos místicos que caracterizaram o desenvolvimento orgânico da sua vida espiritual.

Em Teologia chamava-se à mística uma ciência e com propriedade se chamava, porque um dos critérios da ciência é a sua repetibilidade e, com efeito, encontramos na vida dos místicos, por muito diversos que sejam os tempos, os espaços e as culturas em que viveram, um conjunto nuclear sempre repetido, para lá dessa diversidade. É assim, veremos, no caso de Dalila.

Procurarei, o mais possível, deixar falar a própria autora.

 

I. Os mistérios gozosos. Coimbra, primavera de 1938

Dalila tem vinte anos, vive no Lar do Sagrado Coração de Maria, junto à Sé Velha, um lar para raparigas universitárias. Prepara-se, nesse dia, para um exame, estudando um tratado de Psicologia. É cerca de meio-dia. “Então de súbito, uma intensa luz, tão doce, e que não era a luz deste nosso sol, me envolveria e tomaria: estava fora ou dentro de mim? O fora e dentro eram indiscerníveis, idênticos, num único inseparável todo; a luz também inseparável e indiscernível da paz, silêncio, liberdade e amor” (IEV, 31); “como se os limites habituais do meu ser tivessem caído, ou rebentado: nesse momento, senti uma realidade transcendente, o Outro, mas ao mesmo tempo, impossível de separar do meu ser: eu era essa realidade ela própria. Porque nesse momento eu era o Outro, e nunca fui eu mesma tão profundamente, tão irredutivelmente; nunca atingi tão poderosamente o meu ser verdadeiro, a minha identidade” (FM, 11-12). Saída súbita do tempo e do espaço, então sentidos como “esféricos” e não lineares, “sem passado nem futuro, mas uno: um só dilatado instante.” (FM, 14). Quando procura definir este lugar onde lhe foi dado penetrar, descreve-o assim: “aí onde penetrei, era uma esfera de cristal, onde tudo era luz e silêncio”, “esfera feita duma substância poderosamente dura e frágil. Irradiante e geometricamente definida. Fremente e calma: a verdadeira vida nesse lugar desvendada.” (FM, 9). E socorre-se da poesia, recorrendo a Rimbaud para descrever este esplendor em fusão: “C’est la mer mêlée au soleil” e a Dante para revelar um dos traços desta experiência, a alegria: “Cio ch’io vedeva mi sembiava um riso dell’universo”; ainda um outro atributo referido recorrentemente por Dalila, ao tentar descrever esta experiência, é a força: “a força, esse centro da vida, seu coração ardente onde se penetra” (FM, 10). “Então, tudo viria, diz ainda, como súbita abertura sobre o Mistério, em dom gratuito numa juventude sem maturidade, nem preparação, ascese prévia. Talento de ouro recebido, que só longos anos mais tarde se iria multiplicar em sua energia, desocultando-se nele mesmo, infinitamente, como passagem de potência a ato. Pois seria esse primeiro dom imerecido, gratuito, que iria dar sentido, o mais alto, único e determinante, a toda uma nova existência então iniciada, nessa tardia data.” (IEV, 28-29). Dalila refere-se aqui ao terceiro instante, momento em que vem a perceber o sentido da sua existência e a razão de ser desta primeira experiência. Entre o primeiro e o terceiro instantes decorreram trinta anos e Dalila parece reconhecer que ela mesma não soube inicialmente como corresponder a esta primeira tremenda experiência, por isso afirma que só muito tarde (em 1968, com o terceiro instante) percebeu que esta primeira graça foi “a promessa e dom supremo concedido por Cristo.” (IEV, 31).

Procurando as condições que poderiam ter “suscitado” tão inusitada e tremenda experiência, Dalila reconhece que foi um dom da Graça sem nenhum mérito da sua parte: “O que vejo, é que tudo depende desta força, a graça. É ela que tudo dá e mesmo que tudo condiciona, tudo permite.” (FM, 88). No entanto, encontra um pequeno conjunto de circunstâncias que podem ter involuntariamente favorecido: “o silêncio, a imobilidade, a soledade; e também a presença duma doce e brilhante luz do sol.” Mas, pergunta-se, “quantas vezes na minha vida, em que número de instantes, não se repetiram elas, não se reuniram elas, sem que no entanto nada de singular se tivesse produzido?” (FM, 7). E diz, depois, algo essencial: “E entre estas condições, há talvez a mais importante: nunca procurar nada.” (FM, 8). Mas estes elementos funcionaram talvez apenas como “causas ocasionais”, porque a “causa verdadeira sendo sempre o transcendente: ‘causa é só Deus’.” (IEV, 29).

Este primeiro dom pode ser comparado aos mistérios gozosos do rosário: puro dom, alegria, gozo, harmonia, depositados na alma do místico, dando-lhe um antegozo do Paraíso, de modo a fortalecê-lo e prepará-lo para o período de purgação da alma que necessariamente se seguirá. Assim foi com Dalila.

 

II. Os mistérios dolorosos. Porto, 1 de setembro de 1947

Num consultório, ao fim da tarde, durante uma operação, Dalila tem uma experiência de morte e vive a “separação” do seu corpo por duas ou três vezes, vendo-se subindo em liberdade: “Assim, nove anos depois, então no Porto e num fim de tarde dum primeiro dia de setembro, tudo viria como a continuação, diferente e em confirmação, desse instante vivido em Coimbra: como certeza da imortalidade, vivido independente deste corpo mortal e deste mundo (...) por um desprendimento deste corpo, num outro, segundo, que dele se elevou, se libertou, leve impassível e subtil”. Dalila desejava partir, já não regressar, no entanto, houve “uma implícita ordem de regressar de novo a esse corpo abandonado, numa necessária continuação da vida terrena, apesar de todo o seu sofrimento.” (IEV, 33-34).

Tal como no primeiro instante Dalila haveria de perceber que se tratara de um dom de Cristo, agora, de novo, também no fim deste processo, em 1968, haveria de perceber que foi a “presença do Salvador” que “vem e sustém um corpo na queda do abismo da morte (...), o que vem a salvar nesse preciso momento, quando se hesitava entre terra e céu”. “Então, nesse momento de indecisão e vontade de libertação, outra vontade veio, interferiu, e duas vontades se conjugaram no último momento: numa negação suprema da morte.” (IEV, 34-35).

Depois do primeiro dom, começam anos difíceis de várias provações, difíceis de definir, pois Dalila é muito discreta em relação à sua vida pessoal. No entanto, não deixa de aludir a estas dificuldades quando refere os “longos anos de purgação, com tantas misérias e dores de prova; mas com intermitentes instantes de plena alegria, que súbito me envolvia pelo amor.” (IEV, 41). Deus vai temperando a alma do místico, pouco a pouco, com a delicadeza de um Pai, como o ferreiro temperando a espada sujeitando-a ao martelo na forja, à água fria ou ao fogo: a prova do fogo e o alívio do frio, como aquelas dores e misérias, mas também os momentos de alegria, que refere Dalila. Assim, a sua alma se vai purificando ao longo trinta anos (entre 1938 e 1968, a primeira e a terceira “revelações”). Mas mesmo esta ação purificadora, dolorosa, de Deus sobre a alma é uma ação da graça, pois a graça é “como um fogo que vem desapossar-nos, libertar-nos, do nosso ser terrestre, realizando essa morte na vida. (...) Anula em nós tudo que em nós é diferente, outro que Ele. Para que seja possível a identificação última, a iluminação, que é uma divinização. Deus é sempre o nosso fim e o caminho para ele mesmo. Unicamente por Ele se chega a Ele. / E será sempre este paradoxo, da identidade na alteridade, o verdadeiro cerne, o mais secreto, o mistério, da iluminação.” (FM, 88-89). Dalila nos mostra que a nossa distanciação de Deus é misteriosamente necessária (ou que Deus sabe tirar partido dela, como nos mostra a parábola do filho pródigo): “para que esta união se realize, para que a identidade final rebente, é preciso que sejamos diferentes de Deus. Para que se faça esta consumação, para que se eleve este fogo, é preciso que haja qualquer coisa a consumir, matéria terrestre a mais. Matéria necessária a esta morte maravilhosa, a beatitude.” (FM, 89).

Como no caminho de todos os místicos, encontramos, depois da etapa da purgação, a etapa da iluminação, porque a alma não pode brilhar se não tiver purificado as escórias sombrias, como o lago agitado também não reflete integramente a imagem que nele se espelhe, estilhaçando-a, distorcendo-a, subvertendo-a; o homem, feito à imagem de Deus, também ele distorce a imagem de Deus na sua alma humana. E o processo de purificação é, digamos que necessariamente, doloroso.

 

III. Mistérios gloriosos. Charleroi, Bélgica. 30 de janeiro de 1968

Aquele “talento de ouro recebido” no “primeiro instante”, depositado na sua alma juvenil, haveria de esperar trinta anos para dar fruto; neste “segundo instante” foi como se a semente morrendo para si mesma, como nas palavras de Jesus (Jo 3, 3-7) desabrochasse como planta. Mas, se nesse segundo momento, a planta desabrochou, só deu o seu fruto em 1968, no terceiro momento. Este “terceiro instante” aconteceu no hospital de Charleroi, ali onde, curiosamente, no ano seguinte, em 1969, se daria um milagre por intercessão do Padre Pio sobre Raoul De Schrijver, que se curou, súbita e inexplicavelmente, de um tumor no pescoço: na altura da operação, já anestesiado, os médicos verificaram que não havia qualquer vestígio do tumor. (SPP, 147).

Acompanhemos agora a descrição de Dalila: “de novo o Salvador, no seu mesmo implícito pedido de me perseverar no corpo terreno; mas também agora, pedido vindo na visão de sua vivente Pessoa, como o doador da vida, em sua imagem viva, não mera figura de quadro. E ainda sem palavras, mudo, só presença no seu rosto impassível, e único, suspenso acima dum mar infinito de luz deslumbrante, toalha de prata fundida sem limites. Rosto de Cristo, hóstia viva, no umbral da porta de um quarto, num fim de tarde do dia 30 de janeiro de 1968.” Não evoca esta imagem, nas nossas almas, o momento da elevação da hóstia, depois da consagração? E não vemos ali este mesmo Rosto, hóstia viva, sobre a “toalha de prata fundida”, que é a toalha branca sobre o altar?

E Cristo diz-lhe: “de retorno, reconhece essa face que se ergue sobre o mar”. (IEV, 37).

“Esse rosto de soberania, continua Dalila, foi como hóstia que se oferece, em aliança estabelecida de vida nova, pelo que vem a salvar, concedendo e pedindo essa vida nova. Daquele que regenera, ressuscita um corpo e o cria de novo: mas para uma vida doravante sob sua vontade conduzida, em obediência, abandono, em cumprimento.” (IEV, 37-38).

Dalila reconhece que o ciclo se encerra com este terceiro momento, pois que só agora, em 1968, trinta anos volvidos, veio a integrar aquela experiência primeva no rumo da sua vida: “Recuando mais uma vez a esse dia tão distante, em Coimbra, nessa época de imaturidade, teria havido previamente um dom a guardar longamente através da vida; e que depois toda a tentativa pela hermenêutica de desocultar esse dom, só anos depois se poderia justificar; houvera um fim e princípio nele, perfazendo-se assim em círculo fechado”. (IEV, 41-42). A semente, depositada na sua alma dá, pois, frutos: “seria o nódulo criador e condutor dum longo processo realizando-se através de múltiplas modalidades e anos, lentamente se explicitando e criando um trabalho, em alegria: como semente oclusa, crescendo no futuro.” (IEV, 42).

“Estes três instantes, conclui Dalila, vividos entre Coimbra, Porto e Charleroi, ao longo desses anos, seriam os que fundamentaram e determinaram um percurso então escolhido para uma existência: como marcados pela vontade providencial, escondida. Nunca nada é fruto do acaso.” (IEV, 42-43). Dalila soube que aqui começara a missão de escritora a que dedicaria o resto dos seus dias.

Muito haveria ainda a dizer, porque entre estes três “instantes” outros houve, complementares e que vieram confirmar a compreensão destes, no entanto, isso levaria este artigo já longo à dimensão de um tratado... Não queria, no entanto, terminar sem esta nota: aquele Rosto de Cristo, como Rei vitorioso, majestático, sobre o mar, não pode deixar de nos recordar as palavras do Apocalipse (21, 1), com que Dalila significativamente termina a sua autobiografia espiritual (IEV, 80): “E vi um céu novo, uma terra nova, pois o primeiro céu e a primeira terra desapareceram e o mar não mais existia”. E comenta:

“nesse largar derradeiro dum corpo e dum mundo, na morte ou no êxtase, este como ressurreição prometida e já gozada momentaneamente nesta vida – se dará também assim o último despojamento da Mal: o mar, como morada do Dragão.

“Este será o último e supremo Instante, nas moradas ou estações da vida.”

Depois da fase de iluminação, se segue, na vida dos místicos, a união; esta união, Deo volente, viveu-a Dalila em seu último e supremo Instante, no dia 2 de março de 2012.

 

Bibliografia citada:
FM = Dalila L. Pereira da Costa. A força do mundo. Porto: Lello, 1972.
IEV = Dalila L. Pereira da Costa. Os Instantes nas Estações da Vida. Porto: Lello, 1999.
SPP = Arni Decorte. O Santo Padre Pio. Braga: Editorial A.O., 2003.



 

Pedro Sinde
Imagem: D.R.
Publicado em 17.12.2018

 

 
Relacionados
Destaque
Pastoral da Cultura
Vemos, ouvimos e lemos
Perspetivas
Papa Francisco
Teologia e beleza
Impressão digital
Pedras angulares
Paisagens
Umbrais
Mais Cultura
Vídeos