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Poesia e Sabedoria em Dalila Pereira da Costa

1. Pensadora sófica e visionária, orientada por um gnosticismo cristão, espiritual de vocação e experiência místicas, Dalila Pereira da Costa visou sempre um «conhecimento-vivência» que se tornasse «saber de salvação», através de «vias de iniciação» - a da interpretação esotérica dos mitos e dos símbolos arquetípicos, a da filosofia quando impregnada pela poesia e sobretudo a desta poesia enquanto forma da Sabedoria.

Assim, «a poesia não será imitação, nem exaltação do real sensível. Mas força de ultrapassamento, de rebentar os limites desse real e prospetar o real invisível». Então, a poesia será «força de multiplicação de mundos espirituais», em estreita afinidade com a mística e mediante as exigências da ascese: «Aqui sofrem-se as coisas: os sinais, a liberal poesia, de novo aos céus remonta.»   

 

2. Nos estudos sobre poesia lusíada – em interlocução explícita ou implícita com Pascoaes e sua conceção mnésico-prospetiva do conhecimento saudoso (exemplo maior do «conhecimento-vivência», como se vê no ensaio «Saudade, unidade perdida, unidade reencontrada»), o estudo de Raízes arcaicas da epopeia portuguesa e camoniana e de O Esoterismo de Fernando Pessoa - foi sempre uma poesia oracular, de recognição dos arquétipos e de profetismo gnóstico, que motivou a interrogação pesquisante e que atraíu o foco iluminante. Em Camões, poesia e sabedoria formam-se no espaço de uma cosmologia regida pela inteligência divina, porventura mediada por via angélica; e movem-se teleologicamente para coincidirem em ordem ao conhecimento escatológico e ao verbo profético da consciência histórica, concertados cristãmente como revelação do eterno no tempo. Em Pessoa, as tensões e antinomias são confinadas ao devir existencial e à deriva psicológica, mas a obra tem sempre presente, numa mesma estrutura coerente de símbolos e mitos, as mesmas perguntas vitais, «um conhecimento, que é experiência espiritual, contendo em si linhas de força, pólos ou temas diretores e organizadores dum todo» e cujo centro ou coração permanece sendo «o problema da salvação».

Para Dalila, como para Camões e para Pessoa, a poesia é sempre conhecimento e fervor; e, nessa via poética, o processo de conhecimento emerge sobre o mistério e sobre a convicção de que «Tudo é mistério e tudo é prenhe de significado.» Epifania com ressonâncias gnósticas, a poesia «é espanto, admiração, como dum ser tombado dos céus»; e nela, como na consciência da História, o Homem acolhe-se na visão providencialista em que se tornam vitórias «as batalhas perdidas, por nelas se ter querido que o amor vencesse» e resgata-se pela «humildade de Deus» que é sempre o nosso fim e «o caminho para Ele mesmo». Enquanto tal, na salvação do Homem, como se vê em A Força do Mundo e em Os Jardins da Alvorada, a poesia irmana-se com o «amor só simples e estreme, ternura e doçura sem nome, funda e leve» - e ambos são então acume de «todo o verdadeiro conhecimento».

 

3. Como toda a grande poesia saudosista, «subtilmente suspensa entre o hino e a elegia» (como sintetizou fulgurantemente José Marinho), o pensamento de Dalila pressupõe o encanto perante as evidências da gnose poética e a sua poesia vive entre o espanto e a aparição. Mas toda a gnose se move «ao longo da senda estreita entre as altas penedias do bem e do mal»; e a poesia em que ela se gera assume-se também como canto magoado pela experiência da dor humana, da Dor cósmica e da saudade de Deus. Só assim se pode cumprir em profecia e missão, sob o signo da Imaculada e do Anjo (que em sede de messianismo lusíada se invocam como a Padroeira e o Anjo de Portugal).

«Deixação» e «Iniciação», em que se arrisca «esquecer / a virtude cardial da prudência», sucedem-se no limiar de Hora de Prima, mas consumam-se num espírito de Esperança, que é força de uirtus e é graça de virtude teologal («No entanto, esperar, o tempo à esperança dedicando»). Para o síngulo, para a nação, para o mundo (vê-se nas Elegias da Terra-Mãe), não há «Manhã de Páscoa» sem a laceração de entranhas que se reflete no vocabulário e na imagística da poesia de Dalila; não há «Páscoa», «na jubilação da nova vida» («Ressurreição»), sem a ascese e o verbo profético que se concertam na «obra reformante / em mensagem vertical». Peregrinamos, todavia, em tempo de «Vésperas de Regresso ao Paraíso» … e «ano e dia passado, / as sombras desvanecidas, / as dores esquecidas, / a promessa foi cumprida / e de novo a Árvore da Vida florida.»

Daí, a lição: «Revolve o fundo da tua vida e prepara-te para a subida.»; daí, a dialética de refontalização arquetípica e de teleologia para o futuro na Eternidade celeste: «Toda ascese (criação) se define em sonho inverso», «Ah, quando cruzaremos no passado as raízes do futuro?». Daí, o drama da aventura espiritual e a entrega da resolução nas mãos da Imaculada Sede da Sabedoria: «Tudo neste Teu Reino se apresenta, ó Virgem, em díade entre céu e terra: a ti compete resolvê-la em final unidade.»



 

José Carlos Seabra Pereira
Diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura
Imagem: D.R.
Publicado em 17.12.2018

 

 
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