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Do papa aos artistas, dos artistas ao papa: «Nunca esqueceremos a sua oração. Emocionou-nos profundamente»

«Tudo começou quando a minha sogra, depois de ter seguido a missa daquela segunda-feira na televisão, me chamou, dando-me conta do facto de o papa Francisco ter rezado por todos os artistas.» O ator e realizador italiano Sergio Rubini rompe o silêncio de “Cartas d’arte – Do papa aos artistas, dos artistas ao papa”, a videoconferência realizada na sexta-feira, 29 de maio, organizada pela Associação Arte e Espiritualidade, responsável pelo museu de arte moderna que acolhe a Coleção Paulo VI, em Concesio. Rubini, diante de cerca de 150 espetadores virtuais, revelou os bastidores da qual nasceu aquela que define como «sinergia comunicativa e humana» entre eles, artistas, e o papa Francisco.

«Num momento dificílimo, por causa da emergência sanitária, também para o mundo do espetáculo e da cultura em geral, aos quais nenhum outro, até àquele momento, tinha gasto uma palavra, o papa rezou por nós», salientou Rubini.










«E assim, emocionados e comovidos – continua Rubini –, eu, o produtor Marco Balsamo, o grupo de artistas aqui presente e tantos outros amigos dissemo-nos que, ao papa, teríamos absolutamente de agradecer.

E de facto, a 29 de abril, nas páginas do jornal “Corriere della Sera”, foi publicada a carta de agradecimento a Francisco, assinada por Sandro Veronesi, que se fez porta-voz de 26 artistas, a par de uma pintura de Mimmo Paladino, representando Cristo na cruz.

«Nasceu – escreveu o autor – um grande alvoroço, querido Francisco, porque os meus amigos artistas desejaram desde logo fazer-te tocar a sua gratidão, e são na maior parte dos casos atores, comediantes, deveras sanguíneos e inclinados à teatralidade, mas também, infelizmente, quase todos loucos, ignorantes, trapaceiros, descarados, litigiosos, insolentes, mal-educados, viciosos, incapazes de comunicar dignamente um seu estado de alma a não ser através de um grande poeta que lhes meta na boca, uma a uma, as palavras. Então tornam-se delicados, imensos, sublimes (…). A tua oração de segunda-feira, tão simples, tão universal, autoriza a acreditar que também todos os outros artistas do mundo estão neste momento repletos de reconhecimento em relação a ti (…). E não só: sempre através dos meus amigos, representam também o reconhecimento dos seus amigos invisíveis, os comprimários [responsáveis pelas partes secundárias das óperas], os assistentes, os técnicos, os trabalhadores em geral que dão o seu necessário contributo para que os artistas possam indicar, como tu disseste, o caminho para a beleza.»



«O papa Francisco é o nosso irmão na beleza. Ele tem a ver com a beleza e a arte, mesmo que inconscientemente: no passado 27 de março, numa Praça de S. Pedro completamente vazia, falou a todos através de uma imagem poderosíssima, fez-nos compreender que a beleza existe, e existe inclusive no sofrimento»



Depois, ainda, a 7 de maio, aconteceu a posterior resposta do papa («os artistas fazem-nos compreender o que é a beleza, e sem o belo o Evangelho não se pode compreender»), com anexa bênção aos artistas.

«A mim, a oração do papa inspirou coragem» – diz Sandro Veronesi durante o encontro pela internet. «Ao responder-lhe, ao escrever a carta de agradecimento, fechei os olhos e imaginei um filme, talvez de Luigi Magni, ambientado no século XVIII, com uma chusma de artistas não ilustres, e de quem se pode dizer tudo, exceto que não vivem autenticamente a sua identidade, a sua condição. De resto, o papa, na sua oração, não fez distinção entre grandes artistas e artistas de estrada, considerou-os todos, dizendo-nos que todos, indistintamente, incidam o caminho da beleza.»

«Em resumo, encarreguei-me deste entusiasmo – acrescenta Veronesi – pensando nos numerosos artistas que também ao longo dos séculos passados gostariam de ter dito alguma coisa ao papa, e então tratei-o por Tu, fui humilde no pensamento, e até rufião, citando, no fim, a frase de [Massimo] Troisi e [Roberto] Benigni em “Só nos resta chorar”, como teriam feito todos aqueles irregulares, aqueles incorretos, aqueles viciosos que, no entanto, deram o seu contributo, indicando, precisamente, o caminho da beleza.

«Não sigo as missas como a sogra de Rubini – acrescenta Veronesi –, no entanto ouvi pronunciar do papa a palavra beleza abeirada à arte, e então percebi que ainda há quem reputa a arte como importante, quem lhe dá o valor que deveria ter na sociedade, quem sabe que, se se olha uma obra só por uma vez, depois a beleza entra dentro de ti e já não te abandona. Num momento tão amargo para os trabalhadores do espetáculo, numa situação tão difícil para esta categoria que, provavelmente, em termos económicos, está entre as mais atingidas pelo coronavírus, quando ainda há pessoas que maltratam a arte e a cultura, as palavras do papa Francisco foram as palavras certas, deram a força para andar para a frente.»


«Para todos vós, agora, artistas, que sois prisioneiros da beleza e que trabalhais para ela: poetas e letrados, pintores, escultores, arquitetos, músicos, homens do teatro, cineastas… A todos vós, a Igreja do Concílio afirma pela nossa voz: se sois os amigos da autêntica arte, sois nossos amigos»



Outro subscritor da carta, Mimmo Paladino, reitera: «O papa Francisco é o nosso irmão na beleza. Ele tem a ver com a beleza e a arte, mesmo que inconscientemente: no passado 27 de março, numa Praça de S. Pedro completamente vazia, falou a todos através de uma imagem poderosíssima, fez-nos compreender que a beleza existe, e existe inclusive no sofrimento, no drama. Não esqueceremos esta imagem, como nunca esqueceremos a sua oração. Emocionou-nos profundamente».

As palavras dos artistas chegaram a quem os escutava como um sinal de esperança. Demonstram-no os comentários que se iluminam nos ecrãs. «Obrigado», escreveu a plateia virtual, na qual figuravam, entre outros, quem trabalha nos bastidores do mundo da arte e da cultura. Como que a dizer, próximo do dia dos protestos que organizaram, tanto em Itália como em Portugal: «Obrigado por estarem connosco, entre nós, por estarem a participar neste evento».

Evento que, mais em particular, quer sublinhar toda a atualidade da mensagem de Paulo VI, o pontífice exemplo de santidade a que privilegiou o diálogo com a arte e os artistas contemporâneos, como se comprova pelo património de sete mil pinturas, impressões,
medalhas e esculturas do século XX que integram o acervo da coleção que evoca o seu nome.

A 7 de maio de 1964, Paulo VI, na capela Sistina, endereçou um discurso aos artistas, e na mensagem a eles dirigida, a concluir o concílio Vaticano II, começou por se expressar com estas palavras: «Para todos vós, agora, artistas, que sois prisioneiros da beleza e que trabalhais para ela: poetas e letrados, pintores, escultores, arquitetos, músicos, homens do teatro, cineastas… A todos vós, a Igreja do Concílio afirma pela nossa voz: se sois os amigos da autêntica arte, sois nossos amigos».

O encontro de 29 de maio, portanto, procurou refletir sobre o sentido profundo da beleza, em cuja estrada o “crer” e o “criar” se encontram: são dois itinerários que conduzem à transcendência.


 

A partir de texto de Enrica Riera
In L'Osservatore Romano
Trad. / edição: Rui Jorge Martins
Imagem: D.R.
Publicado em 03.06.2020

 

 

 
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