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É preciso «devolver à mulher a sua dignidade», sublinha bispo responsável pela Cultura

O presidente da comissão que tutela a cultura na Igreja em Portugal, D. João Lavrador, afirmou hoje que «o progressivo desenvolvimento cultural» da sociedade traz consigo «uma exigência de devolver à mulher a sua dignidade como pessoa e a correlativa complementaridade com o homem no destino comum».

A intervenção do prelado, que transcrevemos integralmente abaixo, foi proferida no início da 15.ª Jornada Nacional da Pastoral da Cultura, sobre “A Mulher na Sociedade e na Igreja”, que decorre este sábado, em Fátima.

Para o presidente da Comissão Episcopal da Cultura, Bens Culturais e Comunicações Sociais, e também bispo de Angra, «a mulher tem vindo a merecer uma atenção privilegiada, muitas vezes apaixonada, e ainda pouco esclarecida».

D. João Lavrador frisou que «o desígnio de Deus na criação está marcado pela complementaridade de homem e mulher, no sentido que tão só os dois se reconhecem como pessoas que, à imagem e semelhança de Deus, vivem e partilham a comunhão gerada no amor e se orientam um ao outro como dádiva plena e total na relação única que só pela experiência de diálogo pleno do ser é possível saborear».

Após a sessão de abertura, realiza-se o primeiro painel, com Isabel Capeloa Gil, reitora da Universidade Católica Portuguesa, e Margarida Neto, médica psiquiatra, com moderação da jornalista Maria João Costa.

 

A Mulher na Igreja e na Sociedade
Fátima, 1 de junho de 2019
+João Lavrador, Presidente, da Comissão Episcopal da Cultura, Bens Culturais e Comunicações Sociais

Começo por felicitar o Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, na pessoa do seu Diretor, pela escolha deste tema que se revela de uma atualidade impar.

No contexto da cultura atual, a mulher tem vindo a merecer uma atenção privilegiada, muitas vezes apaixonada, e ainda pouco esclarecida.

Neste sentido, reconheço muito oportuna esta reflexão à volta do ser e do papel da mulher na Igreja e na Sociedade, embora sinta que se trata uma humilde ajuda para posteriores aprofundamentos de reflexão racional e teológica.

É inegável que o progressivo desenvolvimento cultural da nossa sociedade trouxe consigo uma exigência de devolver à mulher a sua dignidade como pessoa e a correlativa complementaridade com o homem no destino comum.

Refiro que se trata de devolver à mulher o que já está presente na criação. Esta está marcada pela complementaridade de homem e mulher, no sentido que tão só os dois se reconhecem como pessoas que, á imagem e semelhança de Deus, vivem e partilham a comunhão gerada no amor e se orientam um ao outro como dádiva plena e total na relação única que só pela experiência de diálogo pleno do ser é possível saborear.

Se a criação tem em si esta marca indelével do masculino e do feminino que fundamenta toda a liberdade de pensar e de agir, ela só retomará todo o seu esplendor com o Mistério Pascal de Jesus Cristo que, uma vez resgatada a criação do pecado que ofuscou o sentido e o brilho primordial, ela reassume o seu sentido original através da Ressurreição de Jesus Cristo que se manifesta como as primícias da nova criação.

Com o Mistério Pascal de Jesus Cristo, a criação, e neste caso homem e mulher, apesar da sua complementaridade, torna-se sinal da relação de Deus com o Seu Povo e mas nitidamente da relação de Jesus Cristo com a Sua Igreja, isto é, na figura do Esposo que se entrega à Sua esposa e por ela dá a vida.

Daqui se conclui, que não se pode refletir no ser da mulher isoladamente, mas na conjugação com o ser do homem. De igual modo, não se pode refletir teologicamente o ser da mulher sem a complementaridade com o homem e sobretudo, como sinal desta Aliança entre Deus e o Seu Povo, e mais proximamente o sentido do Esposo que se dá à sua Esposa, Jesus Cristo que se oferece pela Sua Igreja.

Se a pessoa criada já é detentora de uma dignidade impar, a participação no Mistério Pascal de Cristo oferece a sublime dignidade de cada pessoa que pelo Batismo se configura a Ele e experimenta a sua condição de Filho de Deus.

Sem a verdadeira consciência de que a dignidade pessoal brota do batismo e não de outras esferas de conduta humana, teremos dificuldade em reconhecer a igual dignidade de mulher e homem e a complementaridade de carismas e funções na Igreja e no mundo.

Se como diz S. Paulo, «é que todos vós sois filhos de Deus em Cristo Jesus, mediante a fé; pois todos os que fostes batizados em Cristo, revestistes-vos de Cristo mediante a fé.  Não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem e mulher, porque todos sois um só em Cristo Jesus» (Gal 3, 26-28); também refere que o Espirito concede os Seus dons, não iguais a todos mas em sentido de complementaridade, para o bem do Corpo.

Isto significa que no que diz respeito às funções que brotam dos carismas que são obra do Espírito de Deus e que dinamizam e fortalecem os serviços ministeriais na Igreja e no mundo, estes estão ao serviço da comunhão e da unidade, são complementares e são diversos, manifestando, deste modo, a riqueza do Espírito (Cfr. 1Cor. 12).

Apesar da reflexão teológica ser ainda muito pobre neste contexto, o Magistério da Igreja oferece-nos uma oportuna e séria reflexão na Carta Apostólica de S. João Paulo II «Mulieris Dignitatem» (15 de agosto de 1988).

Sem ser exaustivo, permitam-me que recorra a algumas das suas passagens para nos ajudar a situar o tema que nos propomos tratar. Logo a abrir o texto, deparamo-nos com aquilo que se chama sinais dos tempos ao referir que «a dignidade da mulher e a sua vocação — objeto constante de reflexão humana e cristã — têm assumido, em anos recentes, um relevo todo especial».

De olhar posto em Maria de Nazaré, realça-se que «a mulher encontra-se no coração deste evento salvífico». Aliás, «a autorrevelação de Deus, que é a imperscrutável unidade da Trindade, está contida, nas suas linhas fundamentais, na Anunciação de Nazaré» (nº 3).

Se «assim a “plenitude dos tempos” manifesta a extraordinária dignidade da “mulher”, na verdade «esta dignidade consiste, por um lado, na elevação sobrenatural à união com Deus, em Jesus Cristo, que determina a profundíssima finalidade da existência de todo homem, tanto na terra, como na eternidade». De facto, a partir «deste ponto de vista, a “mulher” é a representante e o arquétipo de todo o género humano: representa a humanidade que pertence a todos os seres humanos, quer homens quer mulheres». E, ainda, sublinha-se, «por outro lado, porém, o evento de Nazaré põe em relevo uma forma de união com o Deus vivo que pode pertencer somente à  “mulher”, Maria: a união entre mãe e filho». Verdadeiramente, «a Virgem de Nazaré torna-se, de fato, a Mãe de Deus» (nº 4).

Contemplando a missão de Jesus Cristo, tal como nos é revelada nos Evangelhos, reconhecemos que «o modo de agir de Cristo, o Evangelho de suas obras e palavras é um protesto coerente contra tudo quanto ofende a dignidade da mulher» (nº 15).

Em síntese, podemos afirmar que «desde o início da missão de Cristo, a mulher demonstra para com Ele e seu mistério uma sensibilidade especial que corresponde a uma característica da sua feminilidade». Demonstra-se pelo facto de que «é preciso dizer, além do mais, que uma confirmação particular disso se verifica em relação ao mistério pascal, não só no momento da Cruz, mas também na manhã da Ressurreição» . Aliás, «as mulheres são as primeiras junto à sepultura». De facto, «são as primeiras a encontrá-la vazia». Verdadeiramente, «são as primeiras a ouvir: “não está aqui, porque ressuscitou, como tinha dito” (Mt 28, 6)».  Mais ainda, «são as primeiras a abraçar-lhe os pés (cf. Mt 28, 9)» (nº16).

É evidente que «são também as primeiras a serem chamadas a anunciar esta verdade aos apóstolos (cf. Mt 28, 1-10; Lc 24, 8-11)». Basta lembrar que «o Evangelho de João (cf. também Mc 16, 9) coloca em destaque a função particular de Maria Madalena». Ela «é a primeira a encontrar o Cristo ressuscitado» (nº 16) .

Atendendo à carta aos Efésios (5, 25-32), S. Paulo «compara o caráter esponsal do amor entre o homem e a mulher com o mistério de Cristo e da Igreja». Segundo as suas palavras, «Cristo é o Esposo da Igreja, a Igreja é a Esposa de Cristo». De facto, «esta analogia não deixa de ter precedentes: ela transfere para o Novo Testamento o que já estava presente no Antigo Testamento, particularmente nos profetas Oséias, Jeremias, Ezequiel e Isaías» (nº 23) .

Aliás, como afirma o texto que estamos a citar, «lendo esta passagem, rica e complexa, que, no seu conjunto, é uma grande analogia, devemos distinguir o que nela exprime a realidade humana das relações interpessoais daquilo que exprime, com linguagem simbólica, o “grande mistério” divino» (nº 24).

Por último, voltemo-nos para o mistério da Eucaristia. Segundo o texto que citamos, «sobre o amplo horizonte do “grande mistério”, que se exprime na relação esponsal entre Cristo e a Igreja, é possível também compreender de modo adequado o fato do chamamento dos “Doze”. Na verdade, «chamando só homens como seus apóstolos, Cristo agiu de maneira totalmente livre e soberana». De facto, «fez isto com a mesma liberdade com que, em todo o seu comportamento, pôs em destaque a dignidade e a vocação da mulher, sem se conformar ao costume dominante e à tradição sancionada também pela legislação do tempo» (nº 26).

Segundo os relatos evangélicos, «eles estão com Cristo durante a última Ceia; só eles recebem o mandato sacramental: “fazei isto em minha memória” (Lc 22, 19; 1 Cor 11, 24), ligado à instituição da Eucaristia». Aliás, seguindo ainda o Evangelho, «eles, na tarde do dia da Ressurreição, recebem o Espírito Santo para perdoar os pecados: “àqueles a quem perdoardes os pecados, ficar-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ficar-lhes-ão retidos” (Jo 20, 23)» (nº 26) .

Segundo as palavras de S. João Paulo II, «encontramo-nos no próprio centro do Mistério pascal, que revela até o fundo o amor esponsal de Deus».  Verdadeiramente, «Cristo é o Esposo porque “se entregou a si mesmo”: o seu corpo foi “dado”, o seu sangue foi “derramado” (cf. Lc 22, 19-20) (nº 26).

Daí se conclui que, «a Eucaristia é o sacramento da nossa redenção». Isto significa que «é o sacramento do Esposo, da Esposa». De facto, «a Eucaristia torna presente e de modo sacramental realiza novamente o ato redentor de Cristo, que “cria” a Igreja, seu corpo». Mais ainda, «com este “corpo” Cristo está unido como o esposo com a esposa». Lê-se no texto que estamos a citar que «tudo isto está presente na Carta aos Efésios». Daí se depreende que «no “grande mistério” de Cristo e da Igreja é introduzida a perene “unidade dos dois”, constituída desde o “princípio” entre o homem e a mulher» (nº 26).

Acrescenta-se ainda que «se Cristo, instituindo a Eucaristia, a ligou de modo tão explícito ao serviço sacerdotal dos apóstolos, é lícito pensar que dessa maneira ele queria exprimir a relação entre homem e mulher, entre o que é “feminino” e o que é “masculino”, querida por Deus, tanto no mistério da criação como no da redenção» (nº 26).

Muito haveria a dizer e a citar do referido texto, tão rico que ele é, mas termino desejando uma boa reflexão que nos ajude a avançar num tema tão importante e necessário.


 

SNPC
Imagem: Henri Matisse | Tate Gallery | D.R.
Publicado em 18.06.2019

 

 
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