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As mulheres estão em 2019, os homens pararam em 1950

Muitos homens continuam a não compreender, ou até a não aceitar, que o seu papel na família já não se pode reger por padrões do passado que sobrecarregam a mulher e o desresponsabilizam do investimento concreto na educação e nos afetos, considera o escritor Henrique Raposo.

«As mulheres estão em 2019, os homens estão em 1950», sintetizou o cronista durante a 15.ª Jornada Nacional da Pastoral da Cultura, que decorreu este sábado, 1 de junho, em Fátima, sobre o tema “A Mulher na Sociedade e na Igreja».

Persiste a tendência de «tentar fazer em 2019 a família de 1950. Há muita gente a tentar fazer isso», apontou, confessando tristeza quando vê «católicos a apoiar essa vaga populista/nacionalista».

Na conversa com a jornalista Maria João Costa, que apresentamos no vídeo abaixo, Henrique Raposo mostrou-se convicto de que se está a «confundir a essência, que é a família, com uma forma histórica de família, que era o homem trabalhar e a mulher ficar em casa. Isso acabou. Porque a mulher, felizmente, saiu de casa».

Parte dos homens «não se conseguiu adaptar à ideia de que as mulheres mudaram», mas eles, sendo católicos, têm de perceber que «a salvação não está no trabalho, na meritocracia, mas na renúncia» em favor da família, que «é o centro».



«Estou farto de ouvir homens que se dizem muito católicos, que falam da vida com “V” grande, e da família com “F” grande, mas depois, no dia a dia, não dão o corpo ao manifesto»



«O único em ponto em comum» em figuras como Trump, Bolsonaro e Orbán, é o ódio à emancipação das mulheres», inserido num «movimento que quer dar corda ao relógio, mas ao contrário: quer que o relógio ande para trás», defendeu.

Harry Potter, Bruce Springsteen, Scarlett Johansson foram alguns dos “herois” evocados por Henrique Raposo, para quem «a mulher não pode ser a única pessoa a fazer sacrifícios pela família», como se «os homens fossem adolescentes eternos» incapazes de fazer «renúncias».

«“Como é que articula a família com o trabalho?» é uma interrogação que habitualmente se coloca às mulheres; «a melhor resposta é: “você faz essa pergunta a um homem?”. Nunca é feita aos homens», afirmou.

Para Henrique Raposo, esta é uma «sociedade do filho único porque o dia a dia da Grande Lisboa e do Grande Porto é uma máquina de triturar as famílias». A somar à dificuldade de conciliar o trabalho com a família, o ar do tempo: «Ser pai não é “cool”».

O cronista apontou «pequenas atitudes que, por serem cultura há tanto tempo, se assumem como se fossem da natureza»: «Reuniões às sete da tarde, almoços a acabar às duas, ser a mulher a única que fica em casa a tratar das crianças». «Tudo isto é cultura, e pode ser mudado, se os homens, sobretudo os homens católicos, caminharem no sentido de estarem comprometidos com o valor da família.»

«Estou farto de ouvir homens que se dizem muito católicos, que falam da vida com “V” grande, e da família com “F” grande, mas depois, no dia a dia, não dão o corpo ao manifesto», vincou.

A «intrusão inaceitável» da empresa, ou do Estado nas famílias, a desoras, através do telemóvel, com a consequência de que «o trabalho nunca desaparece», e a «espécie de divisão de classes aplicada aos sexos» existente na Igreja foram também temas comentados por Henrique Raposo.









 

Rui Jorge Martins
Publicado em 18.06.2019

 

 
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