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«“Não tenho medo de morrer porque vou ver Deus”, dizia ela. Eu não tenho dúvidas»

«Católica na linha progressista do Concílio Vaticano II, lutadora contra a Ditadura, foi uma das organizadoras da célebre vigília da Capela do Rato, a 30 de dezembro de 1972. Professora durante anos na Escola Superior de Educação de Lisboa, manteve-se uma Mulher de convicções, defensora da Democracia nos seus vários sentidos.»

Foi com este parágrafo que Marcelo Rebelo de Sousa evocou Maria da Conceição Moita, falecida esta segunda-feira, 29 de março, em nota publicada na página da Presidência da República, no dia a seguir ao falecimento.

Ao longo desta semana, o desaparecimento de “Xexão”, que na segunda-feira, 5 de abril, completaria 84 anos, foi destacado em sites ligados à Igreja católica e à religião – por exemplo, o testemunho do monge cisterciense Carlos Maria Antunes, no 7 Margens, ou na reposição de uma entrevista realizada pela Ecclesia –, como também em páginas de meios de comunicação generalistas (Público, TSF) e partidários (Esquerda.net).

Na edição de hoje do Diário de Notícias, o colunista Sebastião Bugalho recorda a libertação, no dia a seguir à revolução de 25 de abril de 1974, de Maria da Conceição Moita da prisão de Caxias, onde estava detida desde dezembro, por ter dado apoio logístico às Brigadas Revolucionárias.

«Católica, progressista, antifascista», Maria da Conceição Moita teve um percurso e uma história «em tudo excecionais e constantemente à frente do seu tempo. Da luta contra o colonialismo e contra a guerra à proteção social daquelas levadas à prostituição e aos sem-abrigo, passando, mais recentemente, pelo ativismo contra a invasão do Iraque, Xexão era uma mulher de causas».



«Sentia, para ela e para todos, que não há nada que nos possa separar do amor de Deus manifestado em Jesus»



Refugiou em sua casa oposicionistas ao Estado Novo, conduziu muitos que passaram à clandestinidade e esteve na organização da vigília na capela do Rato, em Lisboa, que começou a 30 de dezembro de 1972 e durou 48 horas, até à entrada da polícia.

«Uns dias depois fui interrogada pela PIDE [polícia política]. Perguntaram-me se tinha estado na capela e disse-lhes obviamente que sim, que concordava completamente com os objetivos da vigília da capela do Rato; que estava completamente de acordo com a mensagem do papa para o Dia Mundial da Paz, que esse ano tinha por título “A paz é possível”», contou à Ecclesia.

«Apesar de contemporânea e camarada de grupos defensores de ação armada contra o regime, recusou sempre qualquer lógica que não assente na paz ou próxima de violência. O seu método era outro, que perduraria: a tolerância, como princípio; a pedagogia, como meio; a justiça, como fim», assinala Sebastião Bugalho, que encerra o texto com duas certezas, a de Maria Conceição Moita e a sua: «“Não tenho medo de morrer porque vou ver Deus”, dizia ela. Eu não tenho dúvidas».

Estes testemunhos, todavia, não são a raiz do ativismo político e da missão educativa que “Xexão” assumiu e que inspirou muitas vidas; antes, são consequência de um amor maior: «Sentia, para ela e para todos, que não há nada que nos possa separar do amor de Deus manifestado em Jesus», sublinha Carlos Maria Antunes.

«E era nesta experiência tão estruturante da sua existência, a experiência do encontro amoroso, que descansava (aqui está o segredo do seu sorriso e da sua serenidade, mesmo no período de doença grave e na proximidade da morte) e que, ao mesmo tempo, se inquietava com o sofrimento de alguém, mais próximo ou mais distante, com uma situação dolorosa nalguma parte do mundo ou com a solidão e necessidade de apoio de uma amiga. “O que posso fazer? Que forças podemos congregar?”», refere no depoimento ao 7 Margens. E sintetiza: «Contemplação e ação, dimensões inseparáveis na sua vida, alimentadas na relação viva com a pessoa de Jesus».


 

Rui Jorge Martins
Fontes: Presidência da República, Diário de Notícias, 7 Margens, Ecclesia
Imagens: D.R.
Publicado em 02.04.2021 | Atualizado em 03.04.2021

 

 
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