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Para pensar a arquitetura religiosa contemporânea

Após a morte e ressurreição de Cristo, os apóstolos e discípulos continuam a frequentar o Templo. Mas por pouco tempo, pois fora destruído, no ano 70, pelos romanos comandados por Tito. Também por isto, os cristãos passaram a ser perseguidos. Estêvão é morto por, entre outras coisas, defender que «o Altíssimo não habita em obras de mãos humanas» (At 7,48). E foram acusados e perseguidos, nos primeiros três séculos, até por não terem altares ou templos. Assim o denuncia Minúcio Félix: «Porque não têm altares, templos e estátuas conhecidos?» (Félix , 10). No tempo das perseguições, eles reúnem-se em casas particulares, nas domus ecclesiae, e nos cemitérios, de forma não declarada, onde celebram os santos mistérios.



Imagem Capela Imaculada, Braga | © João Lopes Cardoso


Mas, depois do édito mediolano, promulgado a 13 de junho de 313, no qual se reconhecia a liberdade de culto no Império romano e se declarava o fim das perseguições, nomeadamente aos cristãos, dá-se início à história das edificações, privadas e públicas, destinadas ao culto cristão. Desde logo, pela adoção da basílica romana, adaptada para tal fim. Eis porque, para refletir sobre a arquitetura religiosa cristã, e ela cumpra a sua missão da melhor forma possível, é preciso fazer-se o estudo histórico de todo o edificado para o culto cristão, inclusive da arqueologia, quer em perspetiva crítica (com ou sem atitude reformista), quer em perspetiva hermenêutica, para compreender, em cada época da história da Igreja, as relações entre a cultura e as construções, e as instâncias da sua modificação nos seus estilos e gramáticas rituais ou outras. Sem esquecer, em particular, os debates que se fizeram antes e depois do Concílio Vaticano II, nas áreas francófona e germânica, em Itália e noutros países, até ao tempo presente.



Imagem Capela Árvore da Vida, Braga | © João Lopes Cardoso


Ainda assim, para ampliar os horizontes de reflexão, ― o que terá consequências para a prática da arquitetura religiosa contemporânea ―, sugiro que formulemos, a montante, perguntas maiêuticas, a partir da ‘magna anamnese’ bíblica, à luz das tábuas do ‘tetra-políptico’: Terebinto, Tenda, Templo, Corpo. Mesmo sem respostas, será como abrir janelas. Perguntar é pensar com esperança. Façamo-lo, com imagens parabólicas, para que ela se traduza em gestos edificados.

Abraão acolheu, à porta da sua tenda, três homens (Iahweh) na sombra do terebinto. ― Como consentir espaços religiosos na arquitetura viva, policromática e perfumada dos terebintos? A natureza chega por doação e cuidado? Que práticas de sustentabilidade promover? ― Nas horas cálidas e desérticas da história, que sombras há para que os peregrinos repousem? A hospitalidade são gestos habitados? Poder-se-á edificar na experiência nómada de Deus e da humanidade? o caminho em casa do ser? e acolher o abrigo aquiropita? e habitats heterotópicos? Haverá noção que construímos e nos sombreamos dentro da habitação cósmica? ― A pergunta será o ritmo da arquitetura religiosa? Como poderá ela levantar os olhos, cravados nas poeiras, para vivermos da bênção? Que olhar de Deus acolhemos na sua casa? Se for preciso tatear, iremos, pelo centro de nós, à sua proximidade? ― Onde estarão, nas novas construções, os rastos dos anjos que deixam sinais do céu, alados? Giò Ponti deixou-os na fachada da concatedral de Taranto; os arquitetos Cerejeira Fontes, nos ramos da capela Cheia de Graça, em Braga.



Imagem Capela Árvore da Vida, Braga | © João Lopes Cardoso


No tempo de Moisés, Iahweh desenhou para si uma tenda de acampamento, entre as tendas do seu povo no deserto. ― Será importante a duração dos edifícios no tempo? Podem criar-se como metáforas de eternidade? sem renunciar ao inacabado e à fragilidade peregrina? Porque persiste a tentação babélica? do arquiteto ídolo? ― As atmosferas olfáticas são pontes da memória e ícones de mistérios? e o sabor da pedra? ou o rumor dos movimentos e das matérias? Como elevar a inteligibilidade acústica no espaço, a carne da palavra e dos cânticos? O que acende os sentidos para experiências multissensoriais? ― Que valor damos ao detalhe? Haverá ainda tempo para o imenso humano? os artesãos? a arquitetura humanista? e, enfim, para resgatar o tempo?



Imagem Capela Árvore da Vida, Braga | © João Lopes Cardoso


David projetou para Iahweh o Templo-palácio, que seu filho Salomão construiu. ― Como entender a tendência para a monumentalidade, os ‘tiques’ principescos e o patrimonialismo na arquitetura religiosa? Salomão disse que Iahweh «decidiu habitar na nuvem obscura» que enchera a Casa. ― É densa a ‘nuvem’ nas catedrais, igrejas, capelas, casas mortuárias e silenciários? Que espaço para o «aquém» de Deus, anterior ao entendimento? os labirintos da fé? as montanhas planas? a «nuvem do não-saber»? a presença invisível? Como acolher o «infinito turbulento» e as investidas na «luta com o Anjo», paráfrases pictóricas de Maria Helena Vieira da Silva? E criar a atmosfera mística, pela via sapiencial e sacramental, sem cair em tabus ou na lei do arcano? Ou, também, pela via do «encontro inesperado com o diverso» (Llansol  2014), no título de Gabriela Llansol? ― O Santo dos Santos, onde se encontrava a Arca, tinha um véu que foi rasgado no instante da morte de Jesus na cruz. ― Que véus há que romper, atualmente, para não impedir o encontro com Deus? ― Não existirá, na arquitetura religiosa atual, uma certa ‘retinice’? das fotografias, paredes e planos para o consumo ocular? Jeremias, à porta do Templo, insistia: «Escutai a palavra de Iahweh… Melhorai os vossos caminhos e as vossa obras». ― Como descegar os olhos para, na serenidade que habita os espaços, ouvir o silêncio da palavra? aquele Shemá Israel? na obediência do ouvido inclinado? Como estender a casa do culto à vida toda, nos valores éticos e morais? ― Que átrios, ou relações com o espaço público, abrir para a igreja ser mais inclusiva, em saída?



Imagem Capela Árvore da Vida, Braga | © João Lopes Cardoso


A atitude de Jesus, que expulsou os vendilhões do Templo, não nos sugere a despoluição da arquitetura religiosa de parafernálias, práticas, impedimentos? o rasgar de separações? Poderá, neste nosso tempo-templo, a arquitetura religiosa investir no despojamento, isto é, na kenótica? a ponto das construções se tornarem kerigmas? ― Será que exploramos a imaginação profética, para, como Jesus, promover a verdadeira adoração? e os alargamentos mentais? ― Como a ressurreição vivifica o espaço? Três dias é o tempo kairótico para levantar o templo corporal. ― Que morte, ruína, ou fonte de água, nos reedificará o templo do culto «em espírito e verdade»? ― Como investir na promoção do corpo, templo espiritual e sujeito do sacerdócio santo, no corpo de Cristo? Poderemos passar das «belas pedras» às «pedras vivas» e sonoras do corpo-templo? Enfim, seremos mais doxológicos quanto mais investirmos no humano? na carne criada, elevada a templo de Deus? e, ainda assim, no território desconhecido? na tensão escatológica?

Poderia continuar a interrogar maieuticamente; creio, porém, que já enunciei perguntas suficientes para favorecer a poética da espacialidade na arquitetura religiosa cristã.



 

Joaquim Félix de Carvalho
In "Terebinto, Tenda, Templo, Corpo. Anamnese maiêutica a pensar nas poéticas da arquitetura religiosa contemporânea"
6.º Congresso Internacional de Arquitetura Contemporânea, Porto, 2019 Fonte:
Imagem de topo: © João Lopes Cardoso
Publicado em 12.05.2020

 

 
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