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Entrevista

O cinema como escuta do mundo

O presidente do júri do Prémio Signis – Árvore da Vida, P. Tolentino Mendonça, analisa a relação entre o catolicismo e o cinema, numa entrevista concedida à Ecclesia durante o IndieLisboa 2010.

Com o Prémio Signis já presente em Portugal, designadamente no Festróia, vemo-lo agora aliar-se ao Prémio Árvore da Vida e, juntos, a um outro festival. Quer falar-nos um pouco desta relação?
Creio que há uma relação histórica do catolicismo com o cinema em Portugal, uma relação já estudada. Nessa relação inscreve-se o impacto dos cineclubes e a vitalidade de algumas comunidades e pessoas vindas de um espírito, digamos, de cineclube, trazida do interior da Igreja e dos movimentos e alargada depois a nível nacional. Ora, o Prémio Signis é um prémio que em Portugal se liga também a essa grande vitalidade. Assim, o facto de ser esta a primeira vez que o Prémio Signis / Árvore da Vida está presente no Indielisboa, não significa que se esteja a inventar um lugar pois há uma grande e importante tradição a esse nível. Ao mesmo tempo, há um desejo renovado de estar presente, de fazer novas coisas, até para acompanhar a energia de determinados aspectos actuais da cultura portuguesa, designadamente do cinema. É espantosa a quantidade de criadores que está neste momento a reflectir, a pensar o Mundo e tantas vezes lutando contra obstáculos muito difíceis, como por exemplo a falta de dinheiro. É com grande sacrifício que algumas pessoas hoje lutam para encontrar forma de expressão da sua visão do Mundo, das histórias que desejam contar e, nesse sentido, a junção Prémio Signis / Árvore da Vida é uma junção muito feliz porquanto alia uma tradição, uma presença histórica da Igreja no cinema português, ao desejo de renovar a presença nesse mundo.

Entre os diversos festivais que para além do prestigiado Festróia podiam ser escolhidos, porquê o Indielisboa?
O que é espantoso é que, hoje em dia, em Portugal, existem festivais excelentes e qualquer um deles poderia ser um espaço para um prémio deste tipo. A nossa ideia é, precisamente, podermos alargar a nossa presença a outros festivais. De Norte a Sul existem festivais óptimos que são verdadeiros observatórios do que hoje se faz de melhor no país e no Mundo. O Indielisboa impôs-se nestes sete anos como presença marcante, aberto ao que é novo e, simultaneamente, com uma inscrição junto dos amantes do cinema absolutamente extraordinária. É impressionante o facto de, ao fim de dois dias, estarem já 20 000 bilhetes vendidos! Cada dia a que assistimos é uma festa, o que quer dizer que é um lugar que, pela sua dimensão e expressão, justifica amplamente a escolha para presença do prémio.

Quase a meio do festival e sem pretender que nos desvende a apreciação como júri dos filmes da secção nacional que está sob avaliação, que balanço e que destaques faz da programação que já viu?
Uma nota geral que destaco é a juventude dos cineastas, normalmente pessoas muito novas, na casa dos trinta, que estão a fazer os seus primeiros filmes. Depois, a qualidade das obras. A média geral é surpreendente, com uma capacidade de narrar uma história bem contada, com bons argumentos. Ainda, a expressão do amor ao cinema que aqui é bem patente. De entre os filmes já vistos e não os devendo destacar por se tratarem de filmes em avaliação pelo júri, posso afirmar que alguns nos proporcionaram já momentos de bom cinema, aberto à meditação sobre a qualidade dos percursos humanos. Um cinema atento à pessoa humana.

E o que destacaria sobre o ambiente ou o público do festival?
Foi uma grande surpresa! Vim, em anos anteriores, a uma ou duas sessões do Indie e vejo hoje que há um espírito comunitário, um espírito festivo, quase jubilatório de cinema que é simultaneamente muito saudável e muito bonito.
Denoto ainda a diversidade, quer em termos etários quer nos tipos de pessoas que encontramos.

Além do galardão, como exporia a importância de uma presença católica num festival como o Indielisboa?
É importante a Igreja estar no meio da cultura de uma forma interessada. Aquilo que o Concílio Vaticano II propunha à Igreja como método: não apenas dizer coisas ao Mundo mas ouvir o Mundo, ouvir o que o Mundo tem a dizer. Penso por isso que o papel da Igreja num festival como este é o de uma audição humana. Um festival de cinema é um grande momento de escuta do que o é hoje o tempo, do que são hoje as aspirações e as frustrações que habitam o nosso tempo. Isso, sendo um momento só cultural é, em si, um momento de grandeza espiritual, por ser um momento de escuta do outro.

Pode ser essa a expressão do seu ideal de relação entre a Igreja e o Cinema?
Penso que é a maneira mais feliz de concretizar, de mostrar aos criadores portugueses e ao público o interesse da Igreja, a cordialidade com que a Igreja está presente nesta área, partilhando e valorizando a paixão pelo cinema, valorizando o cinema em si como arte, nesta procura de sentido que nos é comum a todos. O cinema também é um lugar teológico, também é um lugar sacramental, pois está a ver o mais profundo do coração humano.

 

Entrevista conduzida por Margarida Ataíde
03.05.10

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