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Pio XII: A inédita reconstrução da política papal durante a segunda guerra mundial

Pio XII foi considerado desde há muito,nos debates, como o "Papa dos silêncios". Recorde-se o famoso drama de Rolf Hochhuth, "O vigário", representado em 1963, que suscitou tanto «denegrições encarniçadas como consensos entusiastas» - escrevia o escritor católico italiano Carlo Bo, que não se misturava no coro em defesa do pontífice sobre a questão do destino dos judeus na guerra mundial, e para quem «a Igreja não é a principal acusada, está apenas sentada entre os outros no mesmo banco, e não é pouco».

A sombra dos "silêncios" pairou sempre sobre a figura do papa Pacelli. Mas em que condições operou Pio XII? Qual era a realidade do Vaticano em tempo de guerra? Não se pode responder às perguntas sobre o comportamento do papa durante o segundo conflito mundial sem considerar quais foram os limites postos ao seu agir. A ausência de acesso às fontes arquivísticas vaticanas, enquanto se esboçava o debate historiográfico sobre a Igreja e a guerra, tornou a discussão carente em numerosos aspetos.

Um novo livro, de Cesare Catananti, "Il Vaticano nella tormenta" ("O Vaticano na tormenta"), fundado no arquivo da Gendarmaria Pontifícia (mas não só), examina com atenção, e de modo documentado, qual foi o "espaço" do papa durante a segunda guerra mundial e nos nove meses de ocupação nazista de Roma. É um ensaio de história "material", importante também porque o debate historiográfico distanciou-se demasiadamente da realidade, para se concentrar em aspetos morais do comportamento do papa. Neste volume vê-se como é importante, e insubstituível, o uso das fontes arquivísticas vaticanas.

Pio XII está no coração da "tormenta", protegido pelos frágeis muros do Vaticano, que são pouco capazes de o defender das infiltrações dos espiões, das ligações com o mundo fascista de Mussolini, de uma eventual violência contra a sua pessoa e os seus colaboradores. Pode dizer-se que o Vaticano está refém do governo fascista, e, sobretudo nos meses da ocupação, dos nazistas. Esta é a realidade do minúsculo enclave papal no coração de Roma, que o Tratado de Latrão entre Mussolini e Pio XI tinha atribuído aos pontífices. O Vaticano é refém dos regimes fascista e nazista, mas ao mesmo tempo é livre. É uma situação insuportável, especialmente para Hitler. (...)



Pode o Vaticano desafiar quem controla Roma? E pode fazê-lo numa questão tão delicada como o direito de asilo? Nos ambientes da Santa Sé pergunta-se até que ponto se pode arriscar.



Uma questão decisiva é a hospitalidade no Vaticano para os perseguidos (em particular os judeus, mas não só), os soldados em fuga, quem era procurado pela autoridade que controlava Roma. A consideração do problema do asilo coloca em discussão as relações entre o Vaticano e a Itália, ou, no caso da ocupação alemã de Roma, a Alemanha nazista. É, portanto, uma questão delicadíssima, que parece dizer respeito à sobrevivência daquele último fragmento de liberdade na Europa ocupada pelos nazis.

Em tempo de paz, as relações entre o governo italiano e o mini-Estado são fundamentais para este último, que depende da Itália em muitos setores, podendo ser condicionada por elas. Na realidade, a vida vaticana confunde-se, em muitos aspetos, com a de Roma, se não fosse a presença de tantas "ilhas" extraterritoriais na capital, como as basílicas, o complexo lateranense e outras. O Vaticano e Roma são, de facto, realidades entrelaçadas e só juridicamente separadas. Além disso, o papa é bispo de Roma, e por isso tem uma jurisdição sobre as dioceses que abraçam a cidade.

Pode o Vaticano desafiar quem controla Roma? E pode fazê-lo numa questão tão delicada como o direito de asilo? São as perguntas que percorrem este livro. Nos ambientes da Santa Sé pergunta-se até que ponto se pode arriscar. É claro que é preciso evitar a ocupação do Vaticano, especialmente da parte nazista: seria o fim da comunicação livre do papa com o mundo católico. Mas pode-se só perseguir a política de interesse de Estado, que neste caso é o interesse da Igreja?

E aqui delineiam-se, no Vaticano, duas linhas de resposta, que foram já abordadas em estudos anteriores, mas que encontram importantes confirmações e elucidações. A do cardeal Canali, discípulo do cardeal Merry del Val, secretário de Estado de Pio XI (que dizia que o acordo com a Itália, em 1929, tinha sido «feito com os pés»), ligado à escola antimodernista e simpatizante do regime fascista: não devia ser comprometida de maneira alguma, e com nenhum ato de hospitalidade, a neutralidade da Santa Sé, e, ao mesmo tempo, não seriam postas em discussão as relações com quem governava Roma. Canali esteve à cabeça do governatorato da Cidade do Vaticano de 1939 a 1961: «Um poder forte e uma personalidade complexa», escreve o autor.



Pio XII movia-se, entre duas linhas, obviamente com prudência, mas claramente em favor da utilização da Igreja como um espaço de asilo. Estava consciente dos riscos



Há depois a linha de D. Montini, o futuro Paulo VI, então substituto da Secretaria de Estado, aberto à hospitalidade. Aliás, Montini é o artífice das ações de hospitalidade aos judeus e aos procurados em toda a Roma. Ele é visto nos contactos com Latrão, uma importante área extraterritorial, onde se encontra a basílica de S. João, catedral do papa. Aí, pela ação do arcebispo Ronca, reitor do seminário romano, foram acolhidos muitos judeus, juntamente com personalidades significativas da vida política. A ação do substituto da Secretaria de Estado move-se num fio subtil: hospedar os procurados, mas também evitar o recontro com fascistas e nazistas.

Na generalidade, é a política que inspira a atitude da Igreja de Roma, dos religiosos e do clero secular, durante os nove meses da ocupação alemã. A Igreja torna-se então um espaço de asilo para todos, apesar das origens variadas. Nos ambientes eclesiásticos encontram-se comunistas, pessoas de outras religiões... Mas esta hospitalidade é clandestina e é dissimulada aos olhos do ocupante alemão, que, por outro lado, muitas vezes conhece-a, mas - para evitar um conflito com a Igreja - finge que não a vê.

Montini, além disso, acredita que no Estado vaticano devem ser acolhidos os diplomatas acreditados junto da Santa Sé dos países em guerra, não obstante a operação ser particularmente difícil devido à limitação dos espaços. Com efeito, os governos aliados, especialmente a França, não concordavam que os seus representantes no Vaticano tivessem de deixar Roma para se encerrarem atrás dos muros da cidade-estado. Os Pactos Lateranenses garantiam que eles poderiam continuar a viver na capital mesmo em estado de guerra, mas a Santa Sé e Montini estavam conscientes de que a Itália não toleraria essas presenças "inimigas" no seu território.

Assim, o Vaticano foi sensível ao ponto de vista italiano e acolheu os embaixadores "inimigos", mas após um braço de ferro entre a Secretaria de Estado e o cardeal Canali (que devia assegurar os alojamentos para os diplomatas). Montini segue, de um ponto de vista geral, as vicissitudes de uma coabitação não fácil em menos de meio quilómetro quadrado, a dimensão do território papal.



Os informadores pululam: um deles é o barbeiro da gendarmaria. Isto mostra-nos em que condições o papa e os seus colaboradores trabalharam e tomaram decisões. A pressão sobre eles é fortíssima



Ao cardeal Canali deve-se, por seu lado, a ordem de evacuação dos locais do seminário lombardo, onde os fascistas, acompanhados pelos alemães, tinham irrompido a 21 de dezembro de 1943. Vários judeus tiveram de sair, não podendo encontrar facilmente refúgio, e por isso a sua vida foi posta em perigo. Todavia, parece que Pio XII terá dito ao reitor, a propósito do asilo concedido aos judeus, aos resistentes à recruta e aos procurados: «Fazei-o! Com prudência, mas fazei-o!».

Pio XII movia-se entre as duas linhas, obviamente com prudência, mas claramente em favor da utilização da Igreja como um espaço de asilo. Estava consciente dos riscos. A Cidade do Vaticano não estava na primeira linha da hospitalidade para os procurados pelo fascismo ou pelo nazismo, como, ao invés, acontecia com instituições eclesiásticas, mas era o centro nevrálgico e coordenador dessa atividade. De resto, entre os muros vaticanos desenrolavam-se várias batalhas, como as dos espiões e da solidariedade dos diplomatas com os soldados dispersos. (...) Os militares aliados e os desertores alemães (onze, no fim) encontraram hospitalidade no Vaticano, junto da caserna da gendarmaria, não com o estatuto de detidos, ainda que vigiados pelos gendarmes.

Esta situação delicada foi gerida na presença de infiltrações fascistas, que não são uma novidade da guerra. Até certo ponto, inclusive a gendarmaria parecia infiltrada. Sobretudo é o departamento de polícia sob o controlo do governatorato e de Canali. A situação não pode durar, e tomam-se medidas de depuração, que são atentamente reconstruidas nas páginas do livro. Os informadores pululam: um deles é o barbeiro da gendarmaria. Isto mostra-nos em que condições o papa e os seus colaboradores trabalharam e tomaram decisões. A pressão sobre eles é fortíssima.

A situação torna-se ainda mais complexa após 8 de setembro, quando as tropas nazistas fazem a guarda ao Vaticano, e podem ver-se as patrulhas alemãs moverem-se para aquém da linha branca, feita traçar pelas autoridades vaticanas nas bordas da praça de S. Pedro. O Vaticano passa a ser refém do Terceiro Reich. Que futuro será reservado ao papa e à sua cúria? A resposta não é dada por garantida. No período da ocupação nazista, Pio XII deixa de sair dos muros vaticanos, como tinha feito anteriormente, inclusive em tempo de guerra, por exemplo para ir até junto dos deslocados após o bombardeamento aliado ao bairro de San Lorenzo. O papa está enclausurado dentro dos frágeis muros do Vaticano.



A cidadela do papa é uma realidade indefesa no grande mar do poder militar e totalitário do nazismo: este é o Vaticano na tormenta



O autor - parece-me uma aquisição importante - encontrou nas cartas da gendarmaria o plano vaticano para responder às tentativas de invasão do pequeno Estado e ao rapto do papa. Aquele pequeno Estado era um espaço de liberdade e de alternativa ao totalitarismo nazista no coração das terras controladas por Berlim. Durante quanto tempo podia ser tolerado? É sabido como Hitler projetou o rapto do papa. Seguramente, se a guerra tivesse tomado outro curso, a liberdade de Pio XII teria sido limitada, ou talvez totalmente suprimida. O papa estava consciente disso. Ter-se-ia repetido a prisão do papa no tempo de Napoleão. Mas o que seria, então, da Igreja católica?

O Vaticano sabe que, em caso de invasão, «qualquer resistência seria esmagada em breve espaço de tempo». Não há ilusões sobre uma possibilidade de defesa. Seria preciso usar as armas? A decisão é deixada nas mãos dos "superiores", como se diz no Vaticano. A cidadela do papa é uma realidade indefesa no grande mar do poder militar e totalitário do nazismo: este é o Vaticano na tormenta.

Só é projetado como seria o comportamento. Em caso de ataque, os residentes devem concentrar-se no palácio apostólico, em torno do papa: este é o coração do Vaticano, que deve cair por último. Lê-se num documento encontrado pelo autor: se «por deprecada hipótese forem submetidos os homens designados para a defesa das portas de acesso ao palácio apostólico, todos os militares às ordens dos respetivos superiores, alcançado o apartamento pontifício em conjunto com as Guardas Nobres, farão escudo com o seu corpo à Sacra e Augusta Pessoa do Sumo Pontífice». Não se pode fazer mais.


 

Andrea Riccardi
Historiador
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Pio XII | D.R.
Publicado em 01.02.2020

 

 

 
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