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São Domingos vivido por Santa Catarina de Sena

Quando vim pela primeira vez ao mosteiro, também estavam hospedados pela comunidade um frade dominicano e uma irmã dominicana de vida ativa. Fiquei profundamente tocada pela fraternidade, pela alegria que transpirava do seu estar juntos. Naqueles dias “toquei”, sem o saber, o próprio “coração” de Domingos: o dom que ele tinha recebido do Espírito e transmitido a todos os seus filhos. Este carisma que continua a irradiar os seus raios benéficos, quentes e luminosos pelo mundo inteiro, revelava-se a mim na beleza da alegria fraterna: no aspirar a ser «um só coração e uma só alma em Deus», que é o próprio motivo da nossa vida dominicana.

Para falar de Domingos de Gusmão (1170-1221), fundador da Ordem dos Pregadores, tomo por empréstimo a experiência de uma das maiores mulheres que já existiram: a dominicana Santa Catarina de Sena (1347-1380), doutora da Igreja, co-padroeira da Europa. O que direi, extraio-o do ensinamento dela, que é não só a mais insigne e autorizada discípula de Domingos, mas também o “canal” feminino mais eficaz e autêntico do carisma.

A ela Deus Pai revelou que Domingos «foi uma luz que Eu dei ao mundo por meio de Maria». Por trás desta pequena frase, esconde-se o papel central que Domingos deu à mulher num tempo em que a parte feminina da humanidade estava confinada às margens de cada acontecimento humano, cultural, político e social.

A frase significa não só uma profunda devoção mariana, desde sempre atestada na Ordem, e um reconhecimento do carisma como dom específico de Maria, mas também que a pregação dominicana realiza-se passando pelo intermédio da mulher, e que a mesma pregação (a que os frades, primariamente, se dedicam) concretiza-se só por meio da contemplação (na Ordem esta tarefa, que é de todos, é, no entanto, confiado de maneira especial à mulher).



Na experiência do silêncio e do deserto do coração, compreendeu que havia necessidade de “espaço”: espaço para o “diferente”, espaço para o diálogo. Espaço para que a Palavra pudesse ser pregada dentro de um estilo de vida até então impensado: a vida comum, a contemplação, o estudo, a pobreza voluntária



Aquela que confessou, no termo da sua vida, ter tido a “fraqueza” de preferir sempre a conversação das mulheres jovens relativamente à das mulheres idosas (pretendendo, assim, manifestar a sua plena confiança de poder encontrar a frescura do carisma precisamente nas mulheres jovens), iniciou a sua aventura carismática não tanto com os frades, mas com um grupo de mulheres adultas, ex-hereges, que, regressadas a Cristo através da sua palavra ardente, desejavam dar-se totalmente a Deus e apoiar a pregação do Evangelho através de uma vida de oração e penitência.

Parece que o fundador da Ordem dos Pregadores – que o P. Henri-Dominique Lacordaire definiu como «terno como uma mãe e forte com o um diamante – terá compreendido que “juntos”, um diante da outra, numa complementaridade de dons e reciprocidade de apoio, o homem e a mulher poderiam ser canais de graça, instrumentos de misericórdia, pregadores eficazes da Palavra de vida.

Domingos era um verdadeiro contemplativo. Gostava de ficar um pouco para trás quando, juntamente com os companheiros, percorria longos troços de estrada imerso no silêncio, totalmente recolhido em Deus. Desse silêncio brotavam palavras e gestos de vida, além da insólita capacidade de captar na normalidade da vida e das situações a voz daquele que lhe falava precisamente através das pessoas e dos acontecimentos.

Tudo o que lhe acontecia era, para ele, ocasião para escutar a sede das pessoas e a voz de Deus. E na experiência do silêncio e do deserto do coração, em Fanjeaux, compreendeu que havia necessidade de “espaço”: espaço para o “diferente”, espaço para o diálogo. Espaço para que a Palavra pudesse ser pregada dentro de um estilo de vida até então impensado: a vida comum, a contemplação, o estudo, a pobreza voluntária. O coração de Domingos é um coração ferido pela escuridão do mundo; a sua sede é a sede ardente de quem sente sobre si as feridas dos outros, e deseja responder à voz daquele que convida: «Quem tem sede, venha a mim e beba».



Cristo é o caminho e é a porta, mas o outro é aquele com o qual, apenas, eu posso “entrar” em Deus através dessa porta



No centro da espiritualidade dominicana está o desafio do diálogo profundo entre as vidas, as experiências e as pessoas, através da comunhão de vida. Que é uma forma de “objeção de consciência” às devastações do coração do ser humano, às suas fraturas interiores, às divisões, às violências e às guerras: procuramos viver entre nós aquilo que desejamos para o mundo. Este esforço contínuo é a nossa oração, e a nossa oração só é eficaz se for acompanhada por este esforço contínuo.

O outro, por isso, é aquele que me abre a estrada para Deus. Mais: é o meu caminho para Deus. Porque, segundo Santa Catarina, só assim é possível retribuir o amor gratuito e infinito de Deus: dando à luz no próximo as virtudes concebidas na oração. O estudo da verdade nasce desta profunda experiência de unidade que torna presente, vivo entre nós, o Ressuscitado. Ele mesmo é o Caminho que nos conduz para dentro da Verdade do Pai através da Vida no Espírito.

Quando vivemos na comunhão, Jesus, que é a ponte que conjuga o Céu e a Terra, leva-nos para dentro da Trindade, mas apenas “juntos”. Assim, conhecemos as Pessoas divinas “por dentro”, por experiência, e já não por ouvir falar. A particularidade da via dominicana para a santidade é precisamente esta: cada passo deste caminho não o dou sozinha, mas juntamente com o outro. Nunca poderei ser à imagem e semelhança de Deus e próxima dele, nem poderei conhecê-lo “sozinha”: o outro é aquele que me ajuda a entrar na experiência trinitária, e é aquele sem o qual eu nunca poderei ter um autêntico conhecimento de Deus. Cristo é o caminho e é a porta, mas o outro é aquele com o qual, apenas, eu posso “entrar” em Deus através dessa porta. O dominicano começa o seu caminho de santidade juntamente com o outro, e juntamente com o outro leva-o ao cumprimento.

Quando perguntaram a Domingos por que livro tinha estudado, respondeu: «Pelo livro da caridade». Não podemos iludir-nos de alcançar as periferias do coração de cada pessoa do nosso tempo e de ser pregadores da graça sem “estudar” Cristo noite e dia, escrito em Maria. E a fecundidade da pregação não vem, segundo Catarina, da beleza das palavras, mas de uma vida de união com Deus. Quanto mais se ama, tanto mais as palavras se tornam essenciais e eficazes. Seguir Domingos, por conseguinte, significa entrar juntos nesta “Via das virtudes”, e levar todos os seres humanos para dentro do abraço trinitário. Significa tornarmo-nos nós próprios o “lugar” do abraço de Deus ao mundo, vivendo a caridade da verdade e a verdade da unidade. Através do maravilhoso desafio da comunhão de vida.


 

Ir. Mirella Caterina Soro
Mosteiro de Santa Maria della Neve e San Domenico, Itália
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Santa Catarina de Sena
Publicado em 08.08.2020

 

 
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